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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

REFORMA AGRÁRIA JÁ!!!


ESPACIAL.....

REFORMA AGRÁRIA JÁ!!!

Este texto é um plágio de dados, no entanto creio que é um plágio merecido. Não que eu goste de pegar idéias de outros, mas como seres sociais, acabamos mesmo que involuntariamente pegando idéias e números de outros para formar nossos próprios juízos.
“Dizem que na física atual, a física quântica, não há mais lugar para o conceito de um só universo. São multiuniversos, e nós estamos em um deles.
Este universo no qual estamos é formado por galáxias, calcula-se 200 bilhões de galáxias. E nós estamos em uma delas, a via láctea.
Esta galáxia na qual estamos é formada por 200 bilhões de estrelas, talvez o dobro. Uma destas estrelas é o sol, o qual forma nosso sistema solar.
Este sistema solar é constituído de oito ou nove planetas, depende de quem conta. Um destes planeta é chamado Terra.
Neste planeta minúsculo chamado terra existe uma coisa que chamaram de vida.
A ciência calcula que neste planeta existam 30 milhões de espécies de vida embora só tenham catalogado até agora apenas três milhões de espécies. Uma delas é a nossa, homo sapiens.
Nosso planeta tem aproximadamente 6,4 bilhões de indivíduos -homo sapiens, alguns não tão sapiens assim - e um deles é você.
Regredindo, ´VC em um planeta com 6,4 bilhões de indivíduos, 30 milhões de espécies que vivem em um dos nove planetas que giram em torno de uma estrelinha, a qual é uma dentre as 200 ou 400 bilhões de estrelas da nossa galáxia a qual, por sua vez, é uma das 200 bilhões de galáxias do nosso universo o qual é um dos multiuniversos.
E o pior é que tem gente que acha que Deus fez tudo apenas para ELE existir.”
E mais triste ainda é que isto tudo pode deixar de existir um dia.
Quando bater o pensamento narcisoegocêntrico, lembre-se , ainda tem muito espaço sobrando!!!!

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

CARONA


Pegando carona na crônica de um conhecido meu...

- Head control to major Tom.
- Prossiga Head Control!!
- Segura que lá vem bomba!!
- Bomba?
- Tadalafil 20mg, Iombina 5,4mg,Tribullus Terrestris 300mg,Maca 250mg, Dapoxetina 60mg, Ginseng vermelho 500mg, Resveratrol 20mg... Segura.!!!!
Alguns minutos mais tarde.......
Major Tom to head control!!
Prossiga major Tom.
A pressão aumentou consideravelmente acima de nossas expectativas. Risco de explosão. Soe o alarme na zona periférica...
uuuuoooooooooo!!!!
Head control to major Tom!!!
Major Tom???? Major Tom????
OH MY GOD!!!! HE WAS ONLY TWENTY....

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

QUAL É A TUA OBRA???


QUAL É A TUA OBRA??
A alguns dias atrás, assisti à uma palestra de um filósofo famoso dentro do mundo empresarial chamado Mario Sérgio Cortela. Cortela tinha como objetivo traduzir a filosofia para a língua empresarial e quem sabe fazer com que o empresariado reflita sobre um possível propósito mais elevado de suas funções ou da verdadeira razão do seu ser.
Toda esta viagem ao meu “inner eu interior” me fez viajar longe,muito longe, mais precisamente a 15 bilhões de anos atrás, quando, com a ajuda do astrônomo e biólogo Carl Sagan, refleti sobre a origem de tudo até os dias atuais. Segundo Sagan, se o tempo de existência do universo fosse colocado em um calendário de doze meses, o tempo de existência da humanidade na terra representariam apenas os últimos 10 segundos de Dezembro. Adentrando estes últimos 10 segundos, pensei nos primeiros registros escritos em plaquetas de barros à 4000ac e na na velocidade como a informação caminhava naquela época, pensei em toda a informação retida pela a humanidade desde então e, por consequência comparei como esta, nos dias atuais, cresce em progressão geométrica numa velocidade espantosa. Pensei em como somos bebês em termos cósmicos e como nosso conhecimento sobre a própria humanidade ainda é neonatal. Pensei em como somos minúsculos diante da magnitude dos “tempos” e o quanto podemos construir ao decorrer dos tempos infinitos que virão.
Uma vez escrevi em uma apresentação que informação é conhecimento, o conhecimento eleva o senso crítico, a elevação do senso crítico leva a reflexão, a reflexão leva ao autoconhecimento e o autoconhecimento leva a compreensão ou como muitos preferem, a LUZ! Não digo uma compreensão egoísta de conhecer a si mesmo e sim a compreensão do “todo”, seu papel de inserção na sociedade, ou melhor, na humanidade.
Na velocidade em que tudo anda, em apenas mais algumas centenas de anos ou, quem sabe, mais duas idades cristãs, nosso conhecimento será tão grande que das duas uma: - Ou nos elevaremos a condição de luz – campos energéticos – ou não daremos conta de administrar tanto conhecimento e nos tornaremos loucos. Contudo, uma coisa é certa, é melhor participar da metamorfose da humanidade em luz do que fechar-se em si mesmo, contribuindo para a loucura da mesma.
O que vc vai ser??? Luz ou Louco???
A decisão é sua!!!!

Eduardo Ottoni.
Serei eu uma luz enlouquecida ou um louco iluminado??

terça-feira, 10 de novembro de 2009

FALTA DE TEMPO


AGORA NÃO DÁ!!! FALTOU TEMPO..........................................

terça-feira, 3 de novembro de 2009

CAMUNDÁ


Mato Grosso......Floresta........
CAMUNDÁ

Quem já viu camundá? Eu já vi. Procurei no dicionário e não achei. Será que não existe?! Procurei no Google, também não achei. Tive certeza que não existia, mas pensei: Como pode não existir se eu já vi?!
Um dia, caminhando em uma área aberta bem perto do campo de futebol dos chiquitanos, de chinelos havaianas, levei uma baita ferroada e pulei de lado. Quando pulei de lado, levei outra! Olhei para o chão e vi o tapete; um tapete imenso de formigas. Fiquei pulando e de pulos em pulos consegui sair do tapetão.
Curioso, fiquei olhando aquilo impressionado. Aquele formigueiro?! Bem, conjunto de formigas é formigueiro, mas aquilo não era bem um formigueiro. Seria um enxame de formigas? Manada de formigas? Alcatéia de formigas? De qualquer maneira, eram milhões delas, formando uma horda de ataque mortal. Parecia aqueles filmes de guerras medievais.
Logo, procurei alguém que pudesse me esclarecer àquela visão bisonha, ao menos para mim.
- O que é que é isso? Perguntei para um indígena que passava.
- É camundá! Respondeu.
À medida que observava o avanço do exército percebia a fuga desesperada dos atacados. Aranhas, grilos, baratas, outras formigas; nada ficava em seu caminho.
As Gengiskan da família Formicidae e da classe insecta avançam para a casa do chefe de posto da Funai. Ele também foge e apenas observa sua casa ser invadida pelos insetos. As paredes ficam cobertas, e eu digo coberta mesmo. Cor marrom. À medida que elas chegam à cobertura de palha, grilos, baratas e aranhas pulam em desespero lá de cima e caem em meio aos milhões. O ataque é mortífero! Não sobra nada. Uma montanha de formigas se forma em volta do atacado e o coitado se debate até desistir da vida. Uma verdadeira limpeza!
Árvores o meio do caminho também sofrem a limpeza. Elas sobem, os insetos pulam, e depois voltam e continuam a caminhar. Sempre em frente.
Do mesmo jeito que vieram, sumiram na mata. Impressionante!
Mais tarde, pesquisando um pouco mais. Achei formigas correição; nômades, carnívoras e vorazes. Só para o leitor ter uma idéia, elas são nômades, pois acabam com a fauna do local aonde se encontram, então tem que se mudar para procurar comida.
Tudo que o Brasil precisa para fazer uma limpeza no congresso!!!!!!! Imaginem uma horda de milhões de camundás invadindo o congresso, cobrindo aquela meia bola na cor marrom e os políticos, em pânico total, pulando do prédio e logo após sendo devorados pelas mesmas. Uma visão confortante!! Ah se eu fosse biólogo!!!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

UMA NOITE COMO OUTRA QUALQUER


Era uma noite como outra qualquer. Estávamos em uma das varandas do posto de saúde da reserva indígena dos chiquitanos, estado do MT, fronteira com a Bolívia. Todas as noites, antes da energia elétrica chegar, ligávamos o gerador de energia a diesel e assistíamos a novela, um filme ou um DVD de música qualquer.
Pessoalmente eu não gosto de assistir DVD´s de música, mas o ritmo do lambadão era sucesso entre os “brancos” da equipe de saúde e principalmente entre os indígenas então, eu era praticamente forçado a assistir. De qualquer maneira representava uma boa experiência cultural.
As novelas já haviam se tornado um tipo de vício, como na cidade, e eram raros os dias em que não apareciam para assistir ao programa preferido. A beleza dos ambientes, das atrizes e dos atores parecia ser hipnótico, principalmente para quem não era acostumado com esta atmosfera.
Após a novela todos os indígenas voltavam para suas casas e eu desligava o gerador de energia.
Um grupo de jovens saiu pela escuridão sem uma lanterna sequer, o que é muito comum na aldeia. Apenas a lua crescente iluminava o caminho permitindo que se vissem somente vultos, mas mesmo assim o grupo saiu conversando alegremente.
Já me encontrava de vela acessa, nos últimos preparativos antes de adormecer e ouço alguns gritos nos chamando. A equipe fica alerta!!! Depois do expediente não é comum ter atendimento e sempre quando tem, geralmente é pepino. Grávidas, picadas de cobra e alguma criança pequena doente com febre estavam dentre as alternativas. Qual delas seria??
Quando os jovens chegaram esclareceu-se o fato. Picada de cobra. A maioria andava de chinelos havaianas e um deles não conseguiu ver o vulto da cobra no solo escuro e banh!!!! Veio a mordida!! Primeiro o susto , depois a ardência e a dor excruciante.
Quando chegou não conseguia mais dar passos e dois amigos o carregavam.
Apesar de ser um posto de saúde em meio a uma floresta indígena, não existem soros antiofídicos. O risco de morrer é maior caso a pessoa progrida para um choque anafilático em uma reação ao próprio soro do que a pessoa morrer da picada de cobra, dizem. Apesar disto, à 9 quilômetros do posto de saúde, existia um posto avançado do exército que tinha o soro antiofídico. É uma situação no mínimo estranha um posto de saúde que possui enfermeira e muitas vezes até médico não possuir o soro e um posto avançado que possui apenas um profissional que somente é treinado pelo exército para esta função ter o soro. São as incongruências do nosso país.
Chegaram gritando pela equipe e depois de ficar ciente do ocorrido pensei:
-O que nós iremos fazer?
Com o paciente já na maca, um dos indígenas corre em direção ao destacamento de fortuna, 9 km dali..
O paciente se contorcia em gemidos abafados pela própria intensidade da dor.
Os conhecedores de ervas chegam! O tratamento tradicional inicia-se antes da administração do soro.
Existe uma árvore que se chama lixeira e sua folha, a qual lembra uma lixa, é conhecida pelos curandeiros como fonte de cura ou alívio para a picada de cobra. O problema é que só funciona associada a uma substância que faz nós “brancos” torcer o nariz de nojo. Esta é a urina. E foi feito!!! Folha de lixeira “macetada” com urina – e dos outros. Deveria ser ingerida para alívio dos sintomas. Assim foi feito, em uma golada só!!! Torci o nariz, mas compreendi.
Enquanto as ervas faziam a sua parte os benzedores entraram em ação com as suas rezas curativas. O paciente alivia-se por um momento!! Diz que a “benzeção” do seu avô está começando a surtir efeito.
As horas passam e o indígena que foi buscar socorro já deve ter chegado ao destacamento militar.
Os minutos parecem horas e eu armo minha rede na varanda para esperar os acontecimentos. Descalço, ando pela varanda. De repente, piso em alguma coisa que parece me ferroar. A sola do pé começa a latejar e logo o pé também. A dor é intensa e deito em minha rede. Lembro que a noite, formigas carnívoras gigantes apelidadas de tocandiras costumam zanzar pelo local. Penso:
Deve ser uma destas!!
Com a perna enrijecida não consigo mais andar direito. Sinto a dor que o meu amigo indígena está sentindo. Imagino, que se uma formiga está fazendo isto comigo, o que será que uma cobra faria?!
Agora o dentista e o indígena se contorcem de dor. A dor de ambos vem em surtos repentinos os quais aliviam repentinamente da mesma forma.
O tempo passa e a picada da formiga começa a aliviar.
O indígena permanece no soro fisiológico e nas rezas enquanto o soro antiofídico não chega.
Mais tarde o socorro chega de carro e o paciente é levado para o destacamento para aplicação do soro antiofídico e logo após é levado para a cidade. O posto de saúde acalma-se novamente.
Retiro minha rede da varanda e sigo para o quarto. A adrenalina da agitação me deixa pensativo, mas o cansaço me vence e adormeço mais uma vez.
Mais uma noite na floresta!!!!! Mais uma lembrança na memória. Mais uma estória para contar.
A culpada foi a Jararaca, ou melhor, quem pisou nela!!
Fui................................

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

PREVISÃO DO TEMPO


PRECIPITAÇÕES
Asfalto, Concreto........
De acordo com instituições de previsão do tempo, as previsões para 24 horas têm um grau de acerto de até 98% para a precipitação, caindo entre 3% e 4% a cada dia. Quando chega ao sétimo dia, a média de acerto está entre 75% e 80%. Eu só não entendo uma coisa: Por que sempre quando eu necessito da previsão ela erra?
Dias antes do feriado de 7 de setembro, chequei curioso o site do climatempo. Parcialmente nublado no início do feriado com chuvas no final. Me entristeci por alguns minutos já que esperava pegar alguns dias de sol na cidade de Guarapari. Não que chuva em Guarapari fosse incomum, é até comum demais. Sempre quando olho a previsão e vai fazer sol em Guarapari, Chove, então quem sabe desta vez vai ser o contrário, pensei.
Chegamos na cidade já com algumas gotas de chuva no parabrisa. Pensei:
- É, desta vez a previsão acertou!
Minutos depois o sol abriu, e veio com tudo. Fui a praia!
Segundo dia, SOL Fui a praia com direito a pegar peixinhos com minha filha e sobrinha.
Terceiro dia, Sun. Fui a praia com direito a esculturas de argila e fogueira com batata doce assada no final do dia.
Quarto dia, Sol. Fui a praia com direito a mergulho com máscara e snorkel em um tanque de peixes.
Hoje, segundo a previsão tem 80 % de chance de chover, já choveu então acertou, está dentro dos 98% de acerto. Amanhã, segundo a previsão tem 80 % de chance de chuva; – 95% de chance de acerto. Depois de amanhã, 0% de chance de precipitações, vamos ver! Segunda sol, terça chuva..
Deste jeito vou acabar virando o homem do tempo.*************
( sorte minha que desta vez ela errou )

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

HARLEY


Cidade...Concreto....

INVERNO
Comecei a andar de moto. Moto é tudo de bom! O fator trânsito é eliminado completamente diminuindo, consequentemente, o fator estresse. Aumenta o tempo disponível, faz o trabalho render mais, vc tem mais tempo para descansar e, se sobreviver, ficar com a família. É altamente econômica dando até para fazer uma daquelas viagens interestaduais por mês comentadas no manual de turismo para pobre (vide crônica setembro de 2008, Manual de Turismo para Pobre). Além de tudo é relaxante e uma aventura por si só. Sentir o vento batendo no seu rosto é uma sensação indescritível de liberdade.

FINAL DE INVERNO
Primeiro dia de chuva. Me Molhei! Comprei uma capa.
Segundo dia de chuva. Molhei meu sapato! Comprei um protetor de sapatos.
Terceiro dia de chuva. Torrencial! A capa está vazando, entra água pelos punhos que vai até o cotovelo. Vou ter que comprar uma luva.
Quarto dia de chuva. PEGUEI O CARRO!!!! Ninguém e de ferro!!!!!!

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

PASSO A PASSO III (PASSO FINAL)


Barro, floresta...
MAIS UM POUCO DE CAMINHADA, PASSO A PASSO.
Oito quilômetros e meio mais tarde, desde o início, encontro a enfermeira no posto sobrevivendo da comida do pessoal da FUNAI.
Estes se encontram lá para cobrir o telhado das construções que servirão de escola improvisada e construir a cozinha do chefe de posto que será nosso novo companheiro aqui no meio do mato.
A central, como é chamado o local do posto de saúde, mais tarde será um local que terá escola, igreja no estilo arquitetônico dos Chiquitanos bolivianos, posto de saúde, posto da Funai, uma
pequena indústria de farinha, uma palhoça para reuniões, um armazém e um campo de futebol. Será sede de projetos de apicultura,agricultura, piscicultura outros projetos ainda no papel.
Quarta feira, dia 23\03\05, o pessoal da Funai deixa o local e agora é só eu e a enfermeira. Como não tivemos nenhum contato com o motorista,que traria o grosso do nosso rancho – comida -, vamos até o nosso vizinho indígena que fica à uns 300 metros.
A solidariedade da comunidade agora é essencial. Enquanto comemos restos de carne seca da FUNAI, sobras do arroz da última viagem,
abóbora cozida que colhi nos arredores do posto e um refogado de maxixe colhido também nos arredores, o tempo passa e nada de notícias.
Pedimos a bicicleta emprestada para ir até o destacamento militar telefonar.

Nove quilômetros, uma queda da enfermeira e uma topada no meu dedão mais tarde chegamos. Utilizamos o orelhão e ouvimos a tão conhecida e odiada mensagem: - A sua ligação está sendo encaminhada para a caixa postal. Maravilha!!!!!!! A solução é esperar..
Seis dias depois de sair de Cuiabá estamos aqui em plena manhã de sexta feira à espera, sem medicamentos, condução e quase sem alimentação. A esperança é a última que morre como dizem por aí. Gostaria que fosse diferente, mas neste momento, peço licença a nosso amigo, Boris Casoy, e finalizo com a sua famosa sentença:
ISTO É UMA VERGONHA!!!!!
É ou não é???????
CHEGUEI!!!! E ENQUANTO ISTO A JÚLIA AÍ EM CIMA ME OLHANDO DE LONGE!!

PASSO A PASSO III (PASSO FINAL)

Terra, Selva.......

MAIS UM POUCO DE CAMINHADA, PASSO A PASSO.
Oito quilômetros e meio mais tarde, desde o início, encontro a enfermeira no posto sobrevivendo da comida do pessoal da FUNAI.
Estes se encontram lá para cobrir o telhado das construções que servirão de escola improvisada e construir a cozinha do chefe de posto que será nosso novo companheiro aqui no meio do mato.
A central, como é chamado o local do posto de saúde, mais tarde será um local que terá escola, igreja no estilo arquitetônico dos Chiquitanos bolivianos, posto de saúde, posto da Funai, uma
pequena indústria de farinha, uma palhoça para reuniões, um armazém e um campo de futebol. Será sede de projetos de apicultura,agricultura, piscicultura outros projetos ainda no papel.
Quarta feira, dia 23\03\05, o pessoal da Funai deixa o local e agora é só eu e a enfermeira. Como não tivemos nenhum contato com o motorista,que traria o grosso do nosso rancho – comida -, vamos até o nosso vizinho indígena que fica à uns 300 metros.
A solidariedade da comunidade agora é essencial. Enquanto comemos restos de carne seca da FUNAI, sobras do arroz da última viagem,
abóbora cozida que colhi nos arredores do posto e um refogado de maxixe colhido também nos arredores, o tempo passa e nada de notícias.
Pedimos a bicicleta emprestada para ir até o destacamento militar telefonar.

Nove quilômetros, uma queda da enfermeira e uma topada no meu dedão mais tarde chegamos. Utilizamos o orelhão e ouvimos a tão conhecida e odiada mensagem: - A sua ligação está sendo encaminhada para a caixa postal. Maravilha!!!!!!! A solução é esperar..
Seis dias depois de sair de Cuiabá estamos aqui em plena manhã de sexta feira à espera, sem medicamentos, condução e quase sem alimentação. A esperança é a última que morre como dizem por aí. Gostaria que fosse diferente, mas neste momento, peço licença a nosso amigo, Boris Casoy, e finalizo com a sua famosa sentença:
ISTO É UMA VERGONHA!!!!!
É ou não é???????
CHEGUEI!!!!

terça-feira, 18 de agosto de 2009

PASSO A PASSO II


Poeira, Mata...
CONTINUANDO MEUS PASSOS.

Às 17h00min horas subo na caçamba da caminhonete S10 do vereador, junto com o filho do secretário de obras de oito anos e a babá dos filhos do mesmo secretário.
A caminhonete estava forrada com um colchão e seguimos com certo conforto, mas não antes de uma chuva ameaçar a nossa tranqüilidade. Felizmente ficou só na ameaça.
À medida que o carro entra na estrada de chão, olho para a nuvem de poeira que ficava para trás, para as fazendas e florestas do trajeto. A lua crescente já despontava no céu ainda claro.
A caminhonete "patrolava" a estrada como dizem por aqui, o que quer dizer que estava rápida e passando por cima de todos os buracos. Isto me fez lembrar muito a minha infância quando meu pai passava por cima de todos os quebra molas da estrada em nossas viagens de família.
A cada buraco maior meu copo decolava meio metro do chão enquanto o menino dormia frente
aos pulos e a babá tentava se acomodar da melhor maneira possível.
A viagem continua o sol se despede, a lua e a escuridão dominam o cenário. A poeira não se vê mais e o barulho do motor e da trepidação do veículo misturava-se com o som dos grilos, sapos e
pererecas.
O carro segue em frente com as corujas (bacuraus) voando rente ao teto do carro tentando desviar do mesmo. Estas corujas ficam geralmente nomeio da estrada à noite, fazendo não me pergunte
o que.
Duas horas de viagem, chego à vila picada bastante cansado e descubro que o ônibus escolar não veio trazer as crianças esta noite. Seu Ailton, o vereador, oferece a sua casa como pouso
esta noite.
Vereador de interior chega a ser até engraçado. Conhece desde a pessoa mais ilustre até o mais pé de chulé da cidade. Bastante
comunicativo acho que como todo vereador deve ser, me leva a um boteco aonde servem comida caseira. Lá, jantamos arroz, feijão e uma costela bastante saborosa, e olha que eu não gosto de carne gordurosa.
Após o jantar, o qual não me foi cobrado, sentamos para tomar uma gelada e jogar conversa fora com seus companheiros.
Este era um boteco típico de interior, feito de madeira e com uma mesa de sinuca velha aonde um grupo de homens se divertia. Aliás, neste tipo de bar praticamente não se vê uma alma feminina, somente homens bebendo , falando alto e esporadicamente um corpo esticado no chão,
o famoso pé inchado, pé de cana, pinguço ou qualquer outro adjetivo que qualifique o indivíduo que ultrapassou os limites do seu corpo através da ingestão excessiva de álcool.
Durante a conversa fico sabendo da história de vila Picada. O vereador ao meu lado de nome Ailton Picada, foi o fundador do local. Iniciou sozinho, ele e a esposa, com uma borracharia na beira da estrada de chão. Após um tempo a borracharia passou a ser um ponto de referência para os fazendeiros e caminhoneiros que trafegavam pela região.
Lutaram mais tarde para trazer energia elétrica para a região, depois para trazer a escola para as crianças das fazendas e devagar a vila foi crescendo.
Hoje, a vila já tem dois mercados, vários bares, energia elétrica, uma serraria de propriedade do vereador, escola e diversas residências.
Apesar de possuir uma caminhonete e uma serraria,a casa de seu Ailton é bastante simples, com chão de cimento cru, parte da estrutura em madeira, fogão a lenha e uma varanda com muito espaço, tipo palhoça. Adormeço na palhoça em uma rede e mais tarde seu Ailton me cede um cobertor.
Levanto-me cedo em uma manhã fria. Tudo leva a crer que o verão começa a se despedir. Alguns me dizem que após os primeiros dias de frio, as chuvas começam a cessar, os mosquitos a diminuir, o frio a aumentar e os carrapatos a chegar. Não saia na mata se não quer ficar coberto por minúsculos carrapatinhos. Para quem trabalha
na roça, sós lamentos, não tem escapatória!!!
O ônibus que vai para o destacamento militar de fortuna,próximo 9 km da aldeia, só passa ao meio dia.
Decido adiantar as coisas e seguir para beira da estrada para pegar uma carona.
Paro debaixo de uma goiabeira e divido meu café da manhã, goiabas, com galinhas ciscando e um bando de pequenos periquitos na copa.
Duas horas de espera na estrada e somente um
veículo em direção contrária.
Desde que o acesso principal à Bolívia foi mudado para San Matias, perto da cidade de Cáceres no Brasil, o movimento da estrada caiu muito, mas volta e meia um caminhão ou uma caminhonete ainda pegam a estrada em direção as fazendas do trajeto.
A fronteira é tão bem guardada que qualquer um, seja a pé ou de carro, passa sem ninguém incomodar.
Mais tarde, como que em um comboio, passam três caminhões.
Minha gandola (jaqueta) camuflada do exército me ajuda a parar o primeiro dos caminhões. Seu destino era uma fazenda próxima ao local para o qual me dirigia. A filha de um fazendeiro, dono de
fazendas de soja no norte do estado estava montando uma fazenda de pecuária no local. Terras virgens, compradas há alguns anos por $150,00 reais o hectare, desmatadas e preparadas para o gado por $300,00 dólares de custo o alqueire ou hectare (não me lembro muito). Isto segundo o meu companheiro de viagem, o caminhoneiro.
A viagem segue por uma hora e meia e a conversa flui até o meu destino. O ponto de parada é uma pequena estrada de acesso para a aldeia.
Agradeço e sigo o meu caminho.
Cinco km me separam da comunidade em uma estrada que atravessa o cerrado e florestas de transição. Somente eu, minha mochila e minha botina na estrada.
À medida que caminho, o dinheiro público vai sendo desperdiçado no meio do caminho. Já poderia estar no posto da aldeia realizando atendimentos e estou aqui, fazendo turismo de aventura devido à lentidão e a incompetência do poder público.
Alguns podem estar se perguntando como posso me sujeitar a tal coisa. Bem, são vários os motivos pelo qual ainda estou aqui. Entre eles estão minha família e a preferência em atender pessoas mais simples à madames da sociedade. É
também um modo de conhecer diversos lugares e outras culturas que a maioria das pessoas comuns da cidade nunca chegarão a conhecer. Lugares aonde só tem acesso quem trabalha no local como o pessoal da Funai, do meio ambiente e o pessoal da saúde.
Enquanto caminho penso nas pessoas que estão na academia pagando para fazer um pouco de esteira para emagrecer, e eu aqui malhando de graça, ou melhor, sendo pago para isto, além de estar
respirando o ar puro e em contato direto com a natureza. Este pensamento me ajuda a seguir em frente feliz!!!
A caminhada está tranqüila, pois é um dia fresco.
Chegando na primeira comunidade indígena, fui informado que a enfermeira se encontra no posto de
saúde e como não há nenhum veículo disponível, pernas para que te quero!!! Mais três quilômetros e meio.
É, MAIS UM POUQUINHO EU CHEGO LÁ. PASSO A PASSO!!!!!

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

PASSO A PASSO


Passo a Passo eu chego lá.
Estamos na véspera da Páscoa de 2005 e todos sabem que se o serviço público já é lento normalmente, em véspera de feriado nem se fala.
Aqui estou eu, separando os medicamentos e materiais da minha próxima viagem em um dos meus dias de folga para conseguir seguir o cronograma de viagem. Se não conseguir hoje, numa sexta feira do dia 18 do mês de março, entraremos na semana do feriado aí não conseguirei mais.
Parte do material que havia pedido nem foi comprado. O dinheiro da compra dos produtos alimentícios ficou emperrado na nossa amiga burocracia e tivemos que desembolsar dinheiro do próprio bolso até que este fosse liberado.
Aos trancos e barrancos conseguimos organizar as coisas e marcar o dia de partida, dia 20 de março,domingo.
Desta vez, devido a falta de veículo do governo para o trabalho, teremos que ir de ônibus.
Algumas horas antes de irmos para a rodoviária, me liga o motorista da nossa equipe falando que eu era a única esperança. Alguém da coordenação solicitou o veículo para uma viagem e este teve que atende-lo. A solução encontrada seria usar meu carro particular para movimentar as caixas.
Achei tudo isto um absurdo,mas como tudo já estava marcado, passagens compradas, respirei fundo e fui pegar as coisas.
Tudo resolvido até a rodoviária, e a enfermeira e o motorista enfrentaram mais uma luta, como levar 20 caixas de medicamentos e materiais até o portão de embarque sem gastar dinheiro do próprio bolso?? A solução foi encenar que a enfermeira estava grávida para tentar conseguir um carrinho que havia disponível para gestantes.
Como nunca fizeram nenhum curso de teatro falharam em seu primeiro teste e tiveram que desembolsar.
Minha passagem estava marcada para as 23h30min. Marquei no último horário para passar mais tempo com a família. O problema estava no horário de chegada ao destino que seria às 04h30min da madrugada da segunda.
Entrei no ônibus, segui viagem, dormi muito bem, acordei na hora exata.
Abri os olhos dentro da rodoviária de Porto
Esperidião. O motorista do ônibus não ligou a luz nem avisou aos passageiros do destino. Se dormisse um pouco mais iria parar em Pontes Lacerda, a qual fica a algumas horas de Porto.
Horário de chegada, 04h30min da manhã, cidade completamente deserta.
Porto é uma cidade pequena com aproximadamente 10000 hab. Em sua zona urbana e destes 10000, não havia uma alma viva vagando por suas ruas neste horário. Ando sem destino como quem quisesse conhecer a cidade. Depois, sento no banco da rodoviária que na verdade é uma esquina de uma lanchonete e espero o dia clarear.
À medida que as horas passam, a cidade acorda. Devagar, o movimento nas ruas aumenta. Espero a padaria abrir para mais um café com leite e pão com presunto e queijo na padaria da esquina.
Para seguir viagem até a aldeia precisamos do nosso Jipe - carro que fica na aldeia para locomoção interna - o qual está na oficina. Andamos até lá e nada de jipe, nada de peças para o conserto. Maravilha, mais um contratempo!!!
A equipe de pesquisa do inseto barbeiro da prefeitura seguirá até a aldeia, mas só a enfermeira consegue embarcar já que só havia vaga para mais um na caminhonete. E lá vai ela, de carona...
Eu e o motorista de área ficamos, já que o secretário de obras garantiu que a peça chegaria na segunda à tarde.
Enquanto esperamos, descanso um pouco no hotelzinho da cidade.
Mais tarde, depois do almoço, seguimos para a oficina e nada!!! Ninguém sabe quando a peça e o carro estarão prontos para viagem.
Um dos vereadores do município está de partida para Vila Picada a qual fica a meio caminho da aldeia. Percebo uma oportunidade! A minha intenção é pegar carona até na vila e depois carona de novo com o ônibus escolar até a comunidade junto com os índios que estudam lá.

Passo a passo ainda chego lá. Até a próxima para continuar.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

NO LIMITE


Já que o nome do meu Blog é Crônicas da Floresta, resolvi fazer um pouco de crônica hoje apesar das outras postagens não se enquadrarem em uma crônica.
Domingo passado eu assisti na televisão o programa no limite, só por curiosidade já que passei tempos na floresta, quase no limite e fiquei curioso em saber como os "Braredos" - Brancos - da cidade se sairíam no meio do mato.
Fiquei perplexo ao ver um homenzarão chorar logo após matar uma galinha para comer. A madame ficou tão ruim que passou mal. Será que é nisso que estamos nos transformando na cidade? Será que ele nunca comeu uma galinha? É brincadeira!
Agora estou curioso para saber se até o final do programa, ele não se declarará homosexual. Ou será que isto é reflexo de muito tempo inserido no concreto sem qualquer outro tipo de experiência.
Antigamente os homens eram mais embrutecidos iguais aos nordestinos do sertão ou os índios da floresta, agora já existem os homosexuais( nada contra), os bisexuais, os pan sexuais e agora os mais contemporâneos metrosexuais.
Antigamente eu criava meus cravos como se fossem bichinhos de estimação e agora que represento uma empresa farmacêutica que tem em uma de suas preocupações o ramo da estética, estou fazendo até peeling para não sair mau na foto.
Acho que quando eu começar a chorar por causa de uma galinha será a hora de me preocupar e passar mais uma temporada na floresta para recuperar a macheza!!!!
Ainda não é a hora!!!!!!


Eduardo Ottoni fez peeling com ácido glicólico a 30%, mas como é macho, em vez de ficar 5 minutos com a cara ardendo ficou 15 e agora está com a cara toda ferida....
O apresentador de no limite é viado.

domingo, 2 de agosto de 2009

BOCA SECA


BOCA SECA

Na crônica anterior foi a vez das chuvas em território pantaneiro. Nesta elas chegaram em território chiquitano.


Olhando através da janela do meu consultório, vejo gotas de chuva caírem, a princípio um pouco tímidas, mas logo depois desabam em uma forte chuva.
O cheiro de terra molhada percorre as minhas narinas me fazendo lembrar dos tempos de campos verdes e um sorriso discreto se estampa em meu rosto.
Fazem 3 meses que a última gota de chuva caiu em solo chiquitano. O córrego da onça, antes fonte de preocupações e palco de cenas engraçadas já não preocupava mais. Seu solo seco tal qual solo nordestino em tempos de seca levanta poeira o que não lembra em nada a lama fétida dos tempos das águas no qual o nosso veículo atolava frequentemente.
A paisagem transfigurada da natureza local mostra a importância da água para a vida e demonstra também o quanto a mesma natureza é sábia. Para evitar a perda de água pela transpiração as folhas secam e caem fazendo com que as árvores pareçam mortas. Os pequenos arbustos secam por completo e até desaparecem, mas raízes robustas guardam sua fonte vital esperando justamente estes primeiras gosta que caem agora pela minha janela.
Nos tempos de seca a paisagem é pálida e embaçada. O ar é contaminado pela fumaça das queimadas as quais são herança de uma agricultura medieval e da ânsia do homem em transformar florestas em pastos. A fumaça e a poeira pairam no ar irritando os olhos de muitos e causando doenças respiratórias em outros.
Diversas vezes, noticiários anunciam que a umidade do ar é crítica ( menor que 20 % ) e chega a níveis de 9 a 12 %. Com esta umidade os lábios ressecam e a mucosa do nariz chega a sangrar. Apesar de sentir pouco os efeitos da poeira, fumaça e baixa umidade relativa do ar o número de atendimentos nos postos de saúde contradizem o que meu corpo fala.
As “ondas” repentinas de frio seco completam o quadro.
Mas nem tudo são males no inverno do sudoeste do Mato Grosso.
No meio dos tons pastéis florecem o ipê e a carijó. Cores vivas como o roxo e o amarelo brilhante se destacam. Ipês brancos dão o meio tom na paisagem diante dos meus olhos. As cores trazem a alegria de volta e mais uma vez mãe natureza dá um show de sabedoria adquirida nos milhões de anos de evolução. Algumas plantas florecem no meio da seca, formam suas sementes no final desta para que , com o início das águas, as mesmas possam germinar.
Caminhar na mata nesta época é tarefa fácil já que somente as árvores estão de pé. O difícil é não ser notado aonde em cada passo que se dá, galhos e folhas secas denunciam em bom som a sua presença. Qualquer animal maior é ouvido a distância.
Os tempos de seca são tempos de caça fácil já que a pouca água e a pouca comida limitam o seu território. Qualquer fonte de água ou árvore frutífera que tenha frutos, o que são poucas, pode ser um bom ponto de ”espera”. Caça-se caminhando pelas fontes de água remanescentes ou “esperando” à noite geralmente em uma rede armada a alguns metros acima do solo perto de uma fonte de comida.
Enquanto a chuva cai, lembranças da seca e dos tempos de chuva se misturam em minha memória.
Alguns dias após a primeira chuva, cai a segunda, e como em um passe de mágica tudo se transforma novamente. A vegetação rebrota com uma rapidez incrível e em poucos dias a paisagem outrora pálida volta aos seus tons verdes.
O som da mata também ganha um reforço poderoso com as chuvas. Antes adormecidas, as cigarras dão o acorde maior nas florestas suprimindo o som dos jaós, siriemas, macacos bugios e japuíras que dominavam o som das florestas na época da seca.
Com as águas, o ar começa a limpar, a vida a se mostrar, a lama a se formar e os mosquitos e cobras, os quais não deixaram nenhuma saudade nos tempos de seca, a reaparecer. O ciclo se completa!!!!!!!!
Ano a ano a natureza nos dá a chance de aprendermos com ela, e ainda assim temos dificuldades como um aluno que reprova um ano após o outro...


FIM

domingo, 26 de julho de 2009

MUDANDO AS ESTAÇÕES


MUDANDO AS ESTAÇÕES


As primeiras chuvas de outubro começam a cair novamente. Mais um ciclo da natureza se completa no centro oeste brasileiro. As marcas da secura nas terras pantaneiras apagam-se e o chão volta a ganhar o aspecto encharcado que deu o seu nome.
Minha próxima entrada para a terra dos Bororos e dos Guatós está marcada para a segunda metade do mês de outubro (2006) e a chuva que cai começa a preocupar os coordenadores da organização não governamental para a qual eu trabalho. Não é a toa que o pantanal recebe este nome. Terra difícil de ser domada nesta época do ano, permanecendo cada vez mais encoberta de água à medida que a estação das chuvas avança. Ainda existem trechos secos e precisamos aproveitar ao máximo o período que podemos entrar no território indígena por via terrestre.
Marcamos para o dia 15 de outubro a nossa entrada.
Mochila nas costas, barraca na mão e materiais de trabalho já na carroceria do veículo sinalizam que estou pronto para mais um período de trabalho e aventuras. Apesar de ser fisicamente cansativo e mentalmente estressante devido à distância da família, o trabalho com indígenas tem suas compensações. O aprendizado constante por estar vivendo inserido em uma outra cultura e um outro ambiente nunca deixa a monotonia das quatro paredes do consultório reger o dia a dia. É quase uma aventura constante, com seus riscos e prazeres.
A barraca ao invés da rede serve para enfrentar os mosquitos, constantes nesta época.
A antiga Toyota bandeirantes, acostumada a enfrentar estes terrenos alagados se encontra avariada na oficina sendo o único veículo disponível uma Nissan frontier novinha em folha.
As diversas estradas de acesso ao interior pantanal são estradas de terra. Saindo de Cuiabá seguindo pelo lado oeste do rio Cuiabá temos dois acessos. Um é seguindo pela transpantaneira que é uma estrada em boas condições para uma estrada de terra que leva até porto Jofre, bem na divisa com o estado do Mato Grosso do Sul, o outro acesso é pela estrada que leva até Porto cercado e onde se encontra o Hotel Sesc Pantanal às margens do rio Cuiabá. Este hotel é de ótima qualidade e em parceria com o poder público está asfaltando sua estrada de acesso, mesmo depois da resistência de grupos ambientalistas. Poconé é o município de entrada para estas duas vias. Nenhuma destas alternativas nos leva até o nosso destino, a reserva indígena Perigara, a qual fica do lado leste do rio Cuiabá, às margens do rio São Lourenço.
As únicas vias de acesso por terra até Perigara começam pelo município de Santo Antônio de Leverger. Uma segue por entre as fazendas da região até alcançar o povoado de Joselândia no município de Barão de Melgaço e o outro acesso passa pelo distrito de Mimoso, alcançando mais à frente o mesmo povoado de Joselândia. Apesar de mais longa esta segunda via é a melhor escolha por estar em melhores condições.
Depois de Joselândia, tem o povoado da pimenteira e é a partir daí que a aventura realmente começa.
Carro completamente abarrotado de carga, saímos de Cuiabá de manhã para Santo Antônio de Leverger indo em direção à Mimoso, passando por Joselândia e seguindo até a pimenteira. Até aí o “passeio” foi tranqüilo, apesar da estrada que leva até Joselândia estar em obras e a chuva que a fez virar um sabão. O segredo era maneirar na velocidade e tentar manter o carro na direção certa. Qualquer deslize era ficar preso na vala lateral da estrada. Já que esta estrada cruza terras alagadas, a mesma teve que ser aterrada em alguns metros para que ficasse livre dos constantes alagamentos que ocorrem nesta época do ano.
Pimenteira à vista. Apenas algumas casas, uma pequena escola e muita área de pasto. A última porteira do povoado é o limite entre as estradas razoavelmente transitáveis e a área de rally total. Atravessaremos primeiramente terras de fazendas, depois uma área da reserva ecológica particular do Sesc Pantanal e depois a área da reserva indígena Perigara até o leito do rio São Lourenço onde fica a sede da aldeia. Alguns poucos quilômetros que em dias secos são feitos em duas horas.
Logo após a última porteira da pimenteira, o veículo para, o motorista engata a tração do veículo indicando o início das dificuldades. Neste caso estando em uma frontier é mais vantajoso já que na Toyota bandeirantes, vc tem que saltar do carro para “traçar” o veículo.
Passamos pelo primeiro atoleiro que mais parece uma trilha entre árvores coberta por uma lama fétida. Após este trecho ocorre uma sucessão de diversos atoleiros. É um tal de liga tração, desliga tração que não acaba mais. Na maioria dos trechos a estrada não existia e apenas se via um leito coberto por água em meio à vegetação. O trecho mais conservado era até o limite da reserva do Sesc com a reserva indígena. Passamos até um posto de controle da reserva particular para perguntar sobre as condições das estradas mais à frente e aproveitamos para almoçar já que os guardas florestais, muito gentis, nos ofereceram um churrasco que estavam fazendo. Era dia de feriado.
Ficamos sabendo que as condições das estradas não eram das melhores, mas também não as piores. No dia anterior, os guardas florestais da reserva tiveram que rebocar com um trator, um carro que dormiu em um atoleiro mais à frente. Disseram-nos que dava para passar, mas o pior estava dentro da reserva indígena. Um local que apelidaram de Bebe, o qual é uma grande depressão na estrada que normalmente já é alagada.
Mesmo prevendo dificuldades, resolvemos tentar a sorte. Já tínhamos percorrido mais da metade do caminho, tínhamos que tentar!
Partimos confiantes e passando a divisa das reservas caímos na real. A estrada antes mais larga, estreitasse de tal forma que quase não se vê a trilha dos carros a não ser quando passamos por áreas de campos de vegetação rasteira. Ás vezes me perguntava se realmente estávamos na estrada. Trechos mais altos ainda secos e trechos mais baixos completamente alagados alternavam-se.
Mais tarde, o inevitável. Apesar do veículo “traçado”, ficamos presos. Uma vez que o peito de aço da caminhonete prende no fundo do atoleiro as rodas ficam suspensas e patinam livres não adiantando em nada a tração nas quatro rodas.
Depois de alguns anos de estrada de chão aprendi que não adianta tentar não se sujar em situações como esta. Tem que tirar o tênis e camisa, arregaçar a barra da calça e encarar a lama sem medo se quiser sair do lugar.
Apesar de o carro ser próprio para terrenos ruins, não estávamos aparelhados como deveríamos. Teríamos que possuir conosco materiais como enxadão, pá, facão e machado para casos extremos como este.
A solução foi cavar com a mão mesmo ou com tocos de madeira e procurar pedaços de pau para levantar as rodas do veículo em uma manobra que se chama macaco baiano.
Só quem já enfrentou uma estrada “feia” sabe da dificuldade e da falta que faz o equipamento certo na hora certa.
Os minutos vão passando e o veículo vai andando lentamente, atolando e desatolando em apenas alguns metros. Movimentos repetitivos de cavar, encaixar os pedaços de pau embaixo da roda e empurrar sucedem-se.
Passado esta dificuldade, mais à frente, ficamos presos de novo. Desta vez em uma depressão em que as rodas do veículo patinavam no barro liso e o carro não saía do lugar. E mais uma vez, saímos do carro para todo aquele processo anterior.
As horas se passam e já são por volta das quatro da tarde.
Pensava comigo; já é a segunda vez que ficamos presos e o tal do atoleiro do Bebe nem chegou ainda.
Mais um obstáculo superado e logo mais à frente, presos de novo!
O motorista que recebeu a ordem de que se não conseguir passar era para voltar pondera se vale mesmo à pena continuar. Já se aproximam de 5 horas da tarde e os mosquitos começam a aparecer em quantidade. A idéia de ter que dormir na estrada não agrada ninguém, mas se fosse preciso seria a única alternativa.
Naquela situação tínhamos duas alternativas, ou seguíamos em frente em um imenso atoleiro coberto pelas águas ou voltaríamos para Cuiabá. Após uma rápida votação decidimos que voltaríamos, pois a pior parte da estrada ainda não havia chegado e não nos agradava a idéia de passar a noite em uma estrada no meio do nada, com chuva e cheia de mosquitos.
Desatolamos o carro de ré e seguimos nosso caminho de volta a toda a velocidade. Naquela lama toda, o carro patinava e tinha vezes que nos víamos deslizando de lado. Passamos os atoleiros anteriores a toda, forçando a caminhonete ao máximo sob o risco de alguma avaria, mas Deus estava conosco e permitiu que chegássemos ao posto da reserva particular do Sesc logo ao anoitecer. O carro estava coberto de lama do fundo ao teto. Nós estávamos cansados e sujos, mas felizes por estar em um lugar onde seria possível um banho e uma noite mais agradável.
Cinco horas da manhã; acordo com o dia clareando e os pássaros servindo como meu despertador. Dia tranqüilo e sem chuva. Tínhamos mais alguns trechos difíceis pela frente, mas estávamos voltando para a Cidade o que nos confortava.
Partimos com destino a Cuiabá tranqüilos imaginando como seria a nossa nova tentativa para chegar até a aldeia o que aconteceria mais alguns dias depois.

sábado, 4 de julho de 2009

VOZES SILENCIADAS


Vozes silenciadas

Se estiver sem tempo não continue esta leitura... Abaixo encontra-se uma leitura reflexiva e histórica. Ao ler cada frase procure utilizar o imaginário e aprofundar os sentimentos a medida que prossegue na leitura.



Mais uma tarde de chuva na aldeia chiquitana.
Poucas pessoas vêm à procura do meu serviço odontológico já que me encontro sem diesel à quase duas semanas o que na aldeia significa sem energia elétrica. Consequentemente restaurações usuais ficam impossibilitadas de serem realizadas e somente extrações e restaurações provisórias são feitas.
No tempo vago me ocupo com a minha horta, em conversa fiada com alunos e diretores da escola, cozinhando, escrevendo e com pensamentos diversos sobre a minha família e a vida em si.
Um destes dias estive pensando sobre os próprios chiquitanos, Quem são eles? De onde vieram? Estes pensamentos me fizeram voltar no tempo, mais precisamente no ano de 1542...

Neste ano, os primeiros espanhóis chegam a chiquitania ( atualmente Bolívia e parte do Brasil ) em busca de uma via de comunicação para o território que é hoje o Peru. Estes por sua vez resolvem fundar uma povoação no local como forma de assegurar o caminho encontrado. Logo após resolvem avançar até o rio grande fundando então a cidade de Santa Cruz de La Sierra, um lugar povoado por mais de 20.000 indígenas.
A partir deste momento os indígenas passam a ser escravizados e já em 1561 estima-se que 40 à 60,000 indígenas vivam em regime de servidão. Os que não eram escravizados morriam, seja por conflitos ou por epidemias como a peste avassaladora do séc. XVI, a varíola.
Como não podiam faltar, os missionários também faziam incursões na região e estes, estavam conscientes da enorme responsabilidade que tinham nas mãos. Sua missão era “pacificar” os indígenas.
Imbuídos pelo desejo de salvação e pela fé, acreditavam ter pela frente um trabalho inédito, em que tudo estaria por se fazer em nome e para a glória de Deus.
Já do lado Brasileiro atual, a coroa portuguesa, resolve marcar presença no lado oriental ao saber da existência de missões no lado espanhol.
Em 1712, é fundada Vila Bela ( sudoeste do estado atual de Mato Grosso ), sede da capitania de Mato Grosso.
Mais tarde, com o crescimento do comércio e da população promovido pela descoberta de ouro nas minas do Sutil ( Cuiabá ) e de Vila Bela, muitos latifúndios foram estabelecidos junto às rancharias dos índios. Em 1850, a promulgação da lei de terras, intensificou a ocupação das terras chiquitanas tidas como devolutas. Devolutas significa terras públicas ocupadas por particulares ou não. Devido à estas ocupações e atividades missionárias a língua chiquitana foi sendo esquecida lentamente.
Mais recentemente, um grupo de trabalho indígena, identificou diversas comunidades chiquitanas remanescentes espremidas entre os latifúndios ou ocupando terras tidas como das forças armadas localizadas na área de influência do Gasoduto Bolívia-Mato Grosso. Entre estas comunidades, se encontram as comunidades de Acorizal e Fazendinha para as quais eu trabalho.
Atualmente, a reserva chiquitana nomeada de reserva indígena Portal do Encantado já foi identificada oficialmente e se encontra em processo judicial para a demarcação de suas terras.
Descendentes dos latifundiários invasores e novos invasores fazem ameaças a população indígena local ao sentir a eminência da perda de “suas” terras.
Enquanto isto, a língua chiquitana, a qual esteve em processo de extinção , começa a ser resgatada mesmo que timidamente nas duas escolas locais. Um dos poucos conhecedores da língua no Brasil se foi, morreu, e a sua voz pede socorro. Todos os conhecedores da língua no lado brasileiro estão em idade avançada e começa uma corrida contra o tempo para resgatar a mesma. A língua chiquitana tem pressa, caso contrário, poderá ter sua voz silenciada quisá para sempre.
Só pode existir uma razão para alguém ser contra a causa indígena e a demarcação de suas terras: - A ignorância total dos fatos históricos. Enquanto a ignorância e a ganância prevalecem os índios continuarão sendo ameaçados e sua riqueza cultural e língua continuarão a serem esquecidas. Como bom otimista, vejo um horizonte possível para a conciliação das diversas culturas existentes neste nosso brasil em uma convivência harmoniosa e de bons frutos.
Lutemos pelo fim da ignorância e pela disseminação de fatos históricos como estes tão similares entre as diversas etnias do nosso país. Estórias de ocupação, servidão e mortes. Vamos mudar esta estória, vamos mudar a História...


FIM


OBS: Dados históricos extraídos da Dissertação de mestrado da lingüista Áurea cavalcante Santana.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Pé de coelho


Pé de coelho
Meu amigo de faculdade está construindo um blog sobre pesca submarina, e por sinal muito bom, e ao vê-lo descrever suas peripécias submarinas, lembrei-me de uma das minhas muitas peripécias na mata, ou melhor no rio. Começa assim:
- É noite de inverno na aldeia de perigara. O calor escaldante e a nuvem incontrolável de mosquitos do verão dão lugar a uma brisa que resfria os ossos e a uma quantidade mais razoável de mosquitos.
Termino de jantar e próximo a uma fogueira aguardo fora do posto de saúde o sono chegar para que possa descansar do dia de trabalho.
Em meio à escuridão ouço vozes. O posto de saúde fica entre o rio e a aldeia, só que a a distância entre as duas é relativamente grande. Tudo que vem da aldeia em direção ao rio tem que passar perto da minha residência no mato, o posto. Quando não estou introspectivo, me agrada jogar conversa fora com os amigos indígenas já que estes possuem estórias muito incomuns para nós da cidade.
Vejo que se aproximam em dois, um com uma sacola na mão e o outro com uma sacola e uma tarrafa. Os cumprimento com um bom boa noite da roça.
- Noooooite! Eles retrucaram com o mesmo cumprimento e completam com um convite inesperado para aquela noite. Vamos pescar(interrogação)
Se eu fosse parar para pensar no que poderia acontecer não teria ido, mas como não gosto de perder uma boa oportunidade de uma experiência cultural rebati na lata, Vamos!!!
Pescaria á noite e em reserva indígena não é somente pescaria sem luz, mas também tem muito risco envolvido. Primeiro, como era inverno o rio estava em seu nível mais baixo, com muitas pedras, antes encobertas pelas águas, brotando como pontas afiadas ou bancos pedregosos no leito do rio. A única coisa que tínhamos para nos guiar era uma lanterna e o conhecimento dos indígenas sobre o trajeto do leito profundo do rio. Outra coisa são os jacarés e onças, os quais são muito mais ativos à noite. Outro detalhe são os mosquitos que também são mais ativos a noite. Com a graça de Deus, os mais perturbadores deles, os mosquitos, não incomodavam tanto aquela noite.
Sem nenhum equipamento de pesca segui até o porto em meio a uma conversa de pescador engraçada em que um contava vantagem sobre o outro de quem pescava mais.
Em sua grande maioria, os indígenas do pantanal não pescam de vara e molinete. É somente carretel, linha, anzol e chumbada. Iria pescar com um carretel emprestado.
Partimos na voadeira de motor 25hp da aldeia, doado pela Funai. O motor ronca e voamos para o nosso destino, seguindo o trajeto curvilíneo do leito profundo do rio na escuridão e desviando das pedras apenas com o pensamento, acredito eu.
Após alguns minutos subindo o rio, paramos em um remanso. Tarrafa na mão, chumbada na boca e em um movimento coreografado em arco lança-se a rede. O artefato é usado para pegar as iscas as quais usaríamos para capturar os peixes maiores que era o que nos interessava mais. Após alguns lances já tínhamos sardinha suficiente para nossa pescaria e então partimos para o nosso ponto de pesca. Este era uma pedreira com um fosso de águas profundas com promessas de pintados e jaús.
Aportamos na pedreira e amarramos o bote nas pedras. Com a lanterna iluminava a escuridão e percebi que minúsculos pontos vermelhos, aos pares , denunciavam que não estávamos sozinhos. Havia Jacarés por todo o lado.
Quem já foi no pantanal em época de seca sabe do que eu estou falando. Uma vez contei mais de 100 jacarés, um após o outro em apenas um dos lados do rio.
Recebi meu equipamento de pesca logo após a chegada. Um carretel de linha grossa, se não me engano 1mm ou mais, uma chumbada pesada e um anzol barra 6, como falam por lá. Como já tinha alguma experiência com linhada pura não me fiz de rogado e imediatamente perfurei a sardinha com o anzol, girei a linha,chumbada e isca para pegar velocidade e liberei tudo, apenas deixando a linha escorregar por entre os dedos suavemente até a isca encontrar a água novamente. Deixo a chumbada fazer o trabalho de levar tudo para o fundo do rio e espero com paciência. O meus companheiros fazem o mesmo, lançam suas iscas e esperam.
Logo vêm as primeiras capturas na linha de meus companheiros, as intragáveis piranhas. Piranha, em minha opinião é quase que uma praga no pantanal. A vantagem de pescar a noite é que a pessoa consegue fugir mais delas, mas mesmo assim ainda se pega piranhas à noite.
Estava quieto e até satisfeito, pois não tinha enfrentado tudo aquilo para pegar piranhas. Mesmo sabendo que se batesse um Jaú muito pesado na minha linha eu não conseguiria segurar na mão,teria ao menos a experiência de tentar.
Por volta de uma hora depois já estávamos com algumas piranhas e uns dois abotoados o qual é um parente do bagre mais conhecido no sul e sudeste por armado. E eu, continuava ali, passando frio e segurando a linha. Nada de peixe! Nem um beliscão. A gozação começa e o pescador iniciante, eu, continua rebatendo as zombarias. Já imaginava sair apenas com a experiência na memória.
De repente um puxão violento acontece na minha linhada. Tento segurar, mas não consigo, pois a linha queimava a pele da palma da minha mão. Deixo-a escorrer por entre os dedos com cuidado até a velocidade da puxada diminuir e então tento recolher a linha. Novamente outra puxada violenta e mais linha se vai. Repito o procedimento várias vezes e cada vez que recolho consigo ganhar um pouco mais de linha do que o peixe consegue puxar. Os indígenas ficam apreensivos e pedem para recolher eles próprios. Digo:
-Não, este é meu! Nem que eu tenha que perder, mas este é meu!
Ao final o grande peixe, já cansado, chega a beira das pedras e os indígenas correm, pegam o porrete que utilizam em pescarias para atordoar peixes grandes e batem na cabeça do grande exemplar.
Atordoado o Jaú é retirado da água. Mais duas porretadas certeiras para terminar o serviço e o som ecoa pelo leito do rio e por entre as árvores da floresta. É o fim!
O Jaú de mais ou menos 7 quilos e quase um metro de peixe se mostra por inteiro. Apesar de pequeno para um Jaú que pode chegar a mais de 100 quilos, é um troféu que retiro das águas e o tão sonhado almoço de amanhã. A malhação dos indígenas acaba e começa a malhação do “homem branco”. Para quem não conhece, o Jaú é um dos peixes mais difíceis e pesados do rio. Peixe robusto e de puxada firme, freqüentemente quando se entoca em locas de pedras ninguém mais tira. É como se fosse o Arnold Schwarzenegger dos rios, grosso e forte, mas não tão saboroso quanto o pintado, a gostosona de Copacabana.
Na volta para casa, orgulhoso e feliz pela experiência, ao olhar os outros peixes em relação ao meu vêm a lembrança das crianças indígenas. Apesar de ninguém passar fome naquele local rico em fauna e flora, imagino a felicidade naqueles rostinhos ao ver um espécime tão bonito e corpulento. As famílias são grandes e um banquete volta e meia não iria fazer mau a ninguém. Penso bem e entrego o troféu aos meus companheiros de pesca. Agradecidos, voltam para as suas casas e eu volto ao meu recinto de descanso com o prêmio apenas na memória. Estou satisfeito!
No próximo mês, só para não falarem que foi sorte de principiante, volto à pescaria com os mesmos figurantes. O protagonista, eu, volto à cena e desta vez com dois exemplares, um pintado e outro Jaú enquanto os outros seguem com seus palmitos, piranhas e abotoados. O mito da sorte de principiante foi quebrado, e enquanto eles discutem o fato, fico eu, procurando em surdina, o pé de coelho escondido nas minhas roupas!

terça-feira, 28 de abril de 2009

NECESSÁRIA


Era uma vez um skatista que conheci na aldeia dos índios Goytacazes. Aldeia quente, muito quente, de aspecto sujo, que às vezes fedia devido ao Vinhoto, vinhaça ou restilo o qual é o resíduo que sobra após a destilação do caldo de cana-de-açúcar. Muitas vezes chovia cinza da cana nas nossas roupas brancas, mas nós gostávamos assim mesmo. Suja, malcheirosa e quente ( sem trocadilhos, por favor!!!) e nós nos divertíamos.
Era festa de república, quartas sem lei e noites no Véio Ladrão. Esse skatista era um dos últimos a sair e ai de quem resolvesse sair antes. Era malhado e vaiado pelos outros e principalmente pelo amigo skatista. Esse era empolgado, ativo, voz ativa, quase um líder natural. Gostava tanto de registrar a história que até pediu para ser fotografado quando foi preso pela primeira e última vez ( pelo menos eu acho que foi a primeira vez e também creio que foi a última, será - interrogação)
Um dia minha vida mudou, e ganhei um presente de Deus. Apesar de ser um presente maravilhoso tive que mudar o estilo de vida e concentrar meus esforços neste presente. Muitos pareciam não entender estes esforços e meu amigo skatista parecia ser um destes. Eu não ligava muito e compreendia o pensamento dos compadres.
Um dia a vida dele mudou, mas não tinha presenciado muito a mudança até que um fato aconteceu. Este amigo passou pela cidade da moqueca, mas foi uma passagem rápida. O relógio marcava nove da noite e já estava por uma passagem rápida no happy hour para dormir as dez.. No outro dia, em plena sexta feira, dia de Skol ele dormiu as nove. Já sonolento e de pijama declarou sua transformação. A princípio estranhei, mas lembrando de um menino pequenino, bem branquinho e de cabelos arrepiados entendi. A mudança desta vez era definitiva. Uma mudança necessária.
Depois deste fato, Jardim da Penha não será mais a mesma. Aliás, ela já não é mais a mesma, quase não se vêem mais skatistas lá. Jardim da Penha mudou também. O skatista vai ficar para história da cidade da moqueca e da cidade dos índios Goytacazes e Tucanos até ressurgir das cinzas outro skatista, desta vez, na cidade de Castelo, branquinho e de cabelos arrepiados.
Como mudei ele mudou. A vida passa a vida nos transforma. Essas transformações não são positivas nem negativas, são necessárias. YEAH!!!!!!!

sábado, 7 de março de 2009

ECOLOGIA TEM LIMITES


ECOLOGIA TEM LIMITES

Lia um artigo falando sobre que a crise financeira global atual no qual estava escrito que a crise de hoje é derivada de um conjunto de fatores. Existe a crise financeira, a energética e o aquecimento global e que para resolvermos uma teremos que resolver todas.
Enquanto lia o artigo a natureza pantaneira me rodeava, literalmente (mais tarde eu explico)
Ao perceber a natureza me rondando lembrei de uma palavra muito usada nos dias atuais: - Ecologia.
Hoje, muitos defendem a natureza a qualquer custo. São os ecochatos, os quais consideram que não se pode matar nem um mosquito. Muitos ecochatos estão dentro de organizações ecológicas – talvez a minoria - como o greenpeace, WWF (World Wildlife foundation) e até a Fuck for Forest. Não se assuste você que sabe inglês, é isso mesmo. Fuck for Forest! Pessoas que transam – acho que é só desculpa pra F...- em prol das florestas. Concordo plenamente com a preocupação ecológica e até com a fudelança – desculpe o palavreado- ecológica. Ambos fazem bem e a segunda opção deve fazer melhor ainda, pelo menos para eles.
Enquanto pensava nisto a natureza me circulava e eu já demonstrava sinais de irritação. Lembro o leitor que estou em pleno pantanal, na época das águas, final da piracema e início do período liberado para a pesca, quando os rios ficam movimentados novamente lembrando rodovias. Quem conhece sabe, é o céu e o inferno na terra ao mesmo tempo!
Enquanto isso a natureza já me irritava profundamente, e o pensamento ecológico já tinha ido para perto de onde Judas perdeu as botas.
Saí do posto para fazer fogo e fumaça para ver se a natureza largava do meu pé, mas lá fora a natureza se encontrava mais forte e onipresente. Que óbvio!
Ao mesmo tempo em que pegava a madeira seca a natureza me emagrecia algumas micro gramas por segundo. Debatia-me que nem um lunático e me açoitava com uma camisa utilizada especificamente para afastar a natureza de mim.
Acendo o fogo e um cidadão local aparece sem camisa e exclama:
- Vooti, tem demais de mosquito! Em um típico sotaque do pantanal.
Ao mesmo tempo pensei, e o que vc está fazendo sem camisa? Se bem que camisa não adianta de nada neste caso.
Neste momento o meu respeito pela natureza já havia virado ódio, ódio profundo, tão abissal que chegava a ser um sentimento meio demoníaco. Meu desejo era acabar com aquela espécie, extermínio, genocídio. Se tivesse um
navio petroleiro abarrotado de inseticida, naquela hora, teria intoxicado o pantanal inteiro só para ter alguns minutos de paz. E olha que não sou muito fã de inseticida.
Pensei em todos aqueles que são vetores de doenças. Aedes, Phlebotomus intermediu, Anopheles, ou seja todos aqueles hematófagos. Transmitem Febre amarela, Malária, Leishmaniose, Dengue entre outras. Minha raiva aumentou.
Tentei aliviar o ódio, em meio a picadas e fumaça, imaginando que são seres que fazem parte de alguma cadeia alimentar. Não consegui! Só consegui imaginar que eu fazia parte da cadeia alimentar deles, mas eles de nenhuma. O único bicho que já vi comendo um pernilongo foi uma formiga, e ainda assim por que já estava morto; e convenhamos, alimento para formigas aqui é o que não falta.
Não havia jeito! Já havia julgado e condenado à espécie, e o veredicto era a morte. Era o inquisidor entomológico e o executor da pena, mas me encontrava despreparado para tal. Não tinha armas a não ser meu pano de abano. Fui para a guerra despreparado.
Entrei no posto em meio a fumaça e parte da natureza me acompanhou. Desisti do extermínio. Minha única defesa eram movimentos repetitivos e alternados da minha camisa a tira colo, a qual batia em minhas costas, minhas pernas, minha cabeça, meus braços e em tudo quanto é lugar do corpo humano, afastando provisoriamente os mosquitos e queimando calorias simultaneamente. Olhando-me no espelho, a imagem era de cascão e suas mosquinhas voando sobre sua cabeça, só que estas “moscas” são moscas vampiro.
Quanto mais me debatia mais me cansava e o cansaço estava me fazendo ficar mais calmo ou pelo menos aceitar a situação. No segundo dia já mais tranquilo e no terceiro já havia virado quase pantaneiro. Já andava sem camisa lá fora – entre as 10 da manhã e 5 da tarde, caso contrário seria louco – e com minha camisa de abano a tira colo. Digo quase pantaneiro, pois iguais a eles não serei nunca. Crianças e adultos, sem camisa, conversam sentados com os mosquitos em volta como se fosse à coisa mais natural possível.
Quando voltar ao pantanal nesta época virei preparado, ou não. Como todo ano, acho que não será necessário detetizar a floresta e não levarei o inseticida; até depois, o ódio me fazer arrepender e tudo acalmar novamente depois.
Se quiser queimar calorias e emagrecer vem pra cá!
Espera aí, estou vendo que os pantaneiros estão fechando suas portas. Dia em que pantaneira fecha as portas dá medo de ir lá fora. Deixa eu me esconder!
Tem algum ecochato aí? Fuck you! Se quiser te dou até o endereço:
http://www.fuckforforest.com/side-meny.html
Bom proveito!!!

PINTADA


PINTADA

Aos olhos do mundo o pantanal é sinônimo de rios fartos, florestas inundadas e animais selvagens, muitos animais selvagens; e foram com estes olhos que adentrei este mundo.
Ao escrever este texto viajo nas minhas memórias e os leitores pegam carona nas mesmas para construírem suas próprias viagens. Não que eu tenha muitos leitores. Calculo que sejam mais ou menos três pelos comentários que recebo em meu blog. Nem a minha esposa o lê. Igualmente a esposa do meu amigo blogueiro Gilberto "Grana no ato". Olhando pelo lado otimista, talvez seja porque minha esposa receba um resumo oral de todos os textos antes de serem publicados.
E por falar em Gilberto, ele é um dos meus leitores e eu dele, um troca-troca, literário, que fique bem claro! Então ele é o meu leitor número um. O meu segundo leitor, ou melhor leitora, é uma amiga que não vejo há anos e que escreveu em um dos comentários que adora meus textos, e isto, percebam, está no plural. Textos! Se escreveu no plural é por que leu mais de um. Já virou minha leitora. O terceiro é um amigo amazônico, guitarrista, dentista e maluco profissional, cujo escreveu que sempre que pode acompanha os meus textos. Já é uma vitória. Os outros são amigos que não fazem comentários e outros que fizeram somente um comentário sem citar que leram outros textos então apesar de terem lido ao menos um dos textos, irei considerar os que tenho certeza que leram mais de um. (Será que a minha mãe leu mais de um?). rsrsrs.
Acredito que a minha esposa esteja entre os que não lêem e uma prova disto será quando ela nem comentar estas linhas ( depois eu digo se ela comentou ou não.).
Bem, mas não é sobre comentários que escreverei e sim sobre viagens.
Voltando.
O pantanal é um ambiente cheio de vida, como já foi dito, e ao se aproximar percebe-se que também é cheio de estórias. Estórias do peixe maior do que a canoa, da sucuri a espreita no barranco ou do dia em que ciclano cutucou a onça com vara curta.
Em uma das minhas primeiras noites de pantanal estávamos sentados, ao entardecer, eu e os poucos habitantes de um local chamado aterradinho. Conversávamos, na beira do rio Cuiabá, à sombra de uma frondosa mangueira e uma leve brisa amenizava o calor do centro oeste brasileiro. A conversa fluía naturalmente e devagar os contos e causos brotavam. Um destes causos foi que na noite anterior, um casal de onça havia brigado justamente bem em frente do posto de saúde. Ouvi este caso com atenção como todos os outros.
O tempo passou e a noite caiu. Entrei no alojamento para dormir.
Mais tarde, naquela noite, acordo com uma vontade louca de ir no banheiro fazer o n° 1. Levanto, sem lanterna, saio tateando as paredes – não se esqueça de que aqui o interruptor não funciona – e como não conhecia bem o lugar ainda e tinha receio de errar e “mijar fora do pinico”, resolvi fazer lá fora para que o risco de errar fosse minimizado.
Lá fora, uma noite de lua iluminava o rio. Uma imagem impressionista linda de Monet, meio mancha meio cor, quase poética, estendia-se á minha á minha frente . Inebriado pela beleza e entorpecido pelo sono, me aliviava tranquilamente. Ahahahah! Nada passava pela minha cabeça além da beleza daquele lugar, até que um urro estarrecedor ecoa bem próximo ao meu mictório orgânico ecológico. Imediatamente me lembro das onças e do fato de terem comentado que elas estavam em época de cio. Quem já viu e ouviu gatos brigando na época de cio sabe bem do que estou falando. Agora, imagina gatos anabolizados de mais de cem quilos; uma insanidade!
Tão rápido quanto veio o primeiro surge o segundo urro, ainda mais forte; e tão rápido quanto veio, a minha vontade de urinar se foi. Cortei o vazamento, botei o “Eduardo Júnior” na casa e “voei” para dentro do posto.
Com o coração acelerado, parei em frente a tela fiquei a observar. Nada! Nenhuma onça. Perdi um tempo ali e desisti de ver minha amiga pintada.
Já protegido, dormi bem. Não senti mais vontade de ...
No dia seguinte, descobri que ser “calouro” de pantanal também tem os seus trotes. Ao descrever e sonoplastizar o urro para os moradores locais, descobri que a onomatopéia da noite anterior era na verdade proveniente de Jacarés. E eu que nem sabia que jacaré urrava.
A minha vingança viria mais tarde; Jacaré empanado. Uma delícia!
(Aos funcionáiros do Ibama e ativistas ecológicos, declaro que quem matou o jacaré foi um índio, e índio pode, não é?)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

COISAS DE ALDEIA


COISAS DE ALDEIA

Um dos passatempos que mais me dá prazer é o de olhar fotos antigas.
De tempos em tempos, sento eu e minha filha e/ou esposa na frente do computador ( é; álbum de fotografia já virou coisa do passado) e a medida que as fotos passam, comentamos algumas entre risadas e suspiros.
Hoje olhei uma das minhas fotos e lembrei de um fato , no mínimo, inusitado para não dizer bizarro, o qual me remete a mais ou menos um ano atrás.
Os bororos são um povo com uma relação bem íntima com os animais. Não é difícil achar animais selvagens como porco do mato, araras e outros animais vivendo como animais de estimação.
Ao passar por uma das casas bororo, vi uma arara vermelha com o bico deformado que de tão recurvado tinha a sua ponta pressionando a lateral da sua cabeça. E como os bicos das aves funcionam como se fossem seus dentes e como aconteceu de eu me formar odontólogo, ao ver tal cena retruquei inocentemente:
- Leva lá no consultório!
Alguns meses se passaram e o fato para mim já estava esquecido.
Trabalhava atendendo pacientes e o último da fila veio enrolado em um pano como um bebê em um cueiro. Um bela tropa acompanhava o pequeno paciente e eu, julgando pelo alvoroço, já achando que seria alguma fratura dentária.
Ao olhar o rosto do paciente, uma surpresa! Penas vermelho vivo e um bico. Ele nem humano era!
De olhar um tanto assustado, olha para mim como que pedindo cautela. O rosto familiar não era nem rosto familiar e sim cara familiar. Era a arara do bico torto.
Pensei:
- E agora? Veterinário não sou.
Mais um olhar em direção a nossa ilustre paciente e imagino sua dificuldade para manusear ( peraí, manusear não é só para quem tem mãos??), ou melhor “embiquesear”( ficou esquisito!) suculentas castanhas. Seu sofrimento me compadece.
Resolvo:
- Se bico é dente e, neste caso, dente é bico, e ela não me bicar, seu “dente” consertado será. O máximo que poderia acontecer é ter que fazdr um tratamento de canal em uma arara. Acredito que seria o primeiro do planeta.
Ao me aproximar a paciente reluta e reclama com um típico reclamar de arara, AAAAAHHHHRRRR!
Ao ouvir o zunido do motor, a mesma parece aceitar o inevitável. Inicio o tratamento sem a paciente dar nem mais um pio e sem mais nenhum movimento. Penso:
- Isto é que é paciente modelo. Acho que estava começando a entender o que lhe acontecia. Enquanto sua “mãe” a segurava e a confortava eu recortava, esculpia e redelineava seu bico com uma broca 3080. Sem anestesia local, geral ou qualquer tipo de psicotrópico. Nenhuma reclamação.
Alguns minutos depois, estava ela, linda como veio ao mundo, com seu bico novo pronto para destroçar castanhas.
Meu dever ecológico estava cumprido para um mês inteiro..
Mais tarde naquele dia, pensava com os meus botões:
- Realmente , isto são coisas de aldeia! Só espero que o próximo não seja um porco do mato!!!!!rsrsrsrsrrs.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Pari Cachoeira


Pari-Cachoeira


Pari-Cachoeira é uma comunidade do Tiquié que já perdeu muito da cultura indígena. Extremamente influenciada pela igreja católica possui uma imensa igreja. Para piorar as coisas, um pelotão de fronteira se instalou no local e a presença dos militares terminou de extinguir o restante de cultura preservada existente. Uma das primeiras cenas avistadas durante a chegada em Pari além das construções da igreja católica são as cachoeiras da "cidade". As primeiras cachoeiras de todo o trajeto do médio Tiquié. Quando o rio está cheio,as
voadeiras cruzam as cachoeiras normalmente; quanto mais o rio vaza, mais difícil fica transpor estas.
Eu costumava passar o final de semana em Pari para poder telefonar para a família em São Gabriel da Cachoeira. Ficava no pólo-base de propriedade da Federação das Organizações indígenas do Rio Negro – FOIRN, localizado na beira do rio nesta comunidade. Sempre encontrava por lá a equipe de enfermagem do pólo ou qualquer outra equipe que estivesse transitando por lá. Durante o dia passeava pelas trilhas e conhecia as cachoeiras dos igarapés adjacentes. O pelotão se encontrava mais no interior da mata e possuía até pista de pouso para os Hércules, helicópteros e outras aeronaves. Atrás do pelotão, duas horas e meia de caminhada, se encontrava uma comunidade Hupda que só a pouco tempo, apesar da proximidade da grande comunidade de Pari, foi contatada pela equipe médica. Em um destes finais de semana, eu e a minha equipe preparamos o material e partimos com a nossa voadeira motor Yamaha de 15 hp.Uma hora e dez minutos separam a comunidade de Pari do pólo base aonde me encontrava que se chama São José II. Durante a viagem, as inúmeras curvas do rio Tiquié, vão dando o contorno a ser seguido por nós até chegar no obstáculo natural que são as cachoeiras de Pari.
Sempre que andava de voadeira andava despreocupado e o colete salva vidas era um artigo pouco usado e quando usado servia mais como almofada de assento já que o banco da voadeira não é nada confortável. Neste dia estava de coturno, calças compridas e camiseta. Havia esquecido o meu colete no pólo de São José II e não sei porque, desta vez logo após verificar que havia esquecido o meu colete fiquei um pouco preocupado. Com o peso do coturno nos pés e a calças ficaria muito mais difícil nadar e o peso dos acessórios serviriam como chumbo me levando diretamente para o fundo no caso de um acidente.
Segui mesmo assim o trajeto. Quando avistamos Pari Cachoeira, notei que o rio estava mais seco do que estava nos dias anteriores. O receio da violência aparente destas cachoeiras era contrabalançado pela experiência do prático nesta região. Já havia cruzado as cachoeiras com um motor de 40 hp, mas com um de 15 hp nunca. Ao anunciar que iríamos cruzá-las minha preocupação aumentou, mas mesmo assim brinquei perguntando se o meu saco de dormir serviria de colete salva vidas. O prático acelera e vai de encontro às águas revoltas. Diminuiu um pouco a velocidade em um remanso logo ao lado do despejo das águas. Tão perto assim as águas se tornaram ainda mais assustadoras. Ondas enormes se formavam ao nosso lado e somente um estreito trecho desta cachoeira era navegável. Naquela hora aquele estreito trecho me parecia intransponível, mas com já havia cruzado aquelas águas sabia que era possível. Acelerando a todo o "vapor" o prático sobe a cachoeira, à medida que sobe noto que o motor não responde direito e durante uns segundos a voadeira
não sobe mais. Aqueles segundos pareciam eternos. Neste momento a preocupação já se transformara em um anúncio de acidente. A proa da voadeira estava no topo da cachoeira e foi quando uma das ondulações que se formavam no topo desta atingiu a proa. A voadeira que seguia seu caminho mesmo que lentamente, agora começava a andar de lado e para trás. Ao olhar para trás para ver se ainda tínhamos alguma chance notei que só um milagre nos impediria de afundar. Três ondas enormes se encontravam em nosso caminho. Já navegando completamente sem controle a favor da correnteza, atingimos a primeira massa de água. Água entrando por todos os lados anuncia o nosso destino. Antes de atingir a segunda onda que era a maior de todas e com certeza viraria a nossa embarcação saltei em direção à margem do rio. Logo após saltar atingi algumas pedras no fundo e me agarrei nelas como quem agarra a sua vida. Escalei algumas pedras na margem e me vi em segurança. Ao checar para ver se os outros também estariam em segurança vejo a voadeira de cabeça para baixo presa nas pedras, vejo o auxiliar de dentista que me acompanhava no remanso com o seu aparelho de som na mão e apoiado em sua bagagem que boiava lutando para se manter na superfície, e vejo também o prático que era o único com colete sendo levado corredeiras abaixo.
Ajudo o ACD a sair da água puxando com as minhas mãos até as margens de pedra e logo após corro para ver se conseguiria salvar o resto das coisas. Como estava, de coturno e calça comprida e não teria coragem de cair com todo este peso na água, tiro estes e de cueca e sem camisa pulo na água novamente para tentar recuperar nossas coisas. A voadeira já havia se desprendido da pedra e o prático já havia agarrado esta mais abaixo. Os dois se encontravam em uma pedra no meio do rio e enquanto isto, nossa única lona descia rio abaixo. Pulo na água e nado de encontro ao nosso barco e o prático. Ao chegar lá este já havia virado o barco, e várias de nossas coisas que ficaram presas em baixo do barco virado estavam em cima da tal pedra. Olho para os meus pertences e fico mais tranqüilo de não ter perdido nada. Ajudo o prático a tirar toda a água do barco e durante este tempo já estava anoitecendo já que chegamos na cachoeira bem na hora do crepúsculo. Com toda a água fora do barco remamos com nossos pratos que conseguimos salvar e remamos até a lona que tinha ficado presa em uma pedra mais abaixo. O motor, todo encharcado, já não funcionava mais. Após salvar a lona remamos até a margem em segurança.
Ofegantes após tanto trabalho descansamos na margem para avaliar as perdas. Roupas completamente molhadas e rancho completamente úmido. Alguns arranhões apenas. A única perda mesmo foi a capa que cobria o motor e a caixa de ferramentas do prático que foram as únicas coisas que não boiaram.
Cansados e encharcados seguimos caminho até o pólo. A voadeira ficou em um porto abaixo da cachoeira. Apesar de cansado estava muito aliviado de não ter acontecido alguma coisa pior. Com as roupas completamente molhadas cheguei no pólo para descansar e encontro nossos amigos de Pari. Mais tarde descubro que acidentes assim são relativamente comuns naquela cachoeira e ouço estórias de diversos outros acidentes semelhantes.
Vou para o meu quarto lá neste pólo que é o consultório dentário e somente de cueca molhada penso sobre o que se passou. Após o acontecido dá até para rir, mas com certeza uma lição ficou disto tudo: - Por mais tranqüilo que um rio seja, este é imprevisível e é sempre bom VESTIR O COLETE SALVA VIDAS.....................

Por uma vida melhor


Por Uma Vida Melhor

Mais uma viagem de trabalho à Cucuí,contudo não foi menos marcante que as outras. Desta vez tive a oportunidade de testemunhar uma estória de vida triste que começa mais ou menos assim:
- Mais uma família se desfaz. A difícil arte de viver em matrimônio e dividir uma intimidade tão grande com outra pessoa às vezes completamente diferente, mais uma vez cria obstáculos tão grandes que a convivência em conjunto torna-se inviável. Os filhos gerados desta união confundem-se e sofrem por ver aquela família que lhe parecia perfeita se desmembrar. Na época ela tinha apenas 17 anos. A imaturidade da idade era compensada pelos calos adquiridos durante toda a infância e adolescência de criança pobre do interior Amazônico. Separada a pouco tempo do marido, mais uma vez em sua vida, ela se vê sem alternativas de como criar os filhos no meio de uma crise econômica tão grande como desta época.A Amazônia é ao mesmo tempo uma terra de pobreza e riquezas, oportunidades e desilusões. Muitas pessoas enxergaram no brilho de um metal amarelo chamado ouro um portal para os dias de glória, uma chance de mudar de vida, de sair da pobreza para a riqueza. Como muitos, Jaciara, vamos chamá-la assim, viu neste brilho uma chance de poder mudar e dar uma vida melhor aos seus filhos e a si mesma. A febre do ouro é forte, e mesmo grávida do ex-marido resolve arriscar-se como cozinheira em um garimpo na Venezuela.O deslocamento da sua cidade natal, São Gabriel da Cachoeira, até o porto do garimpo na Venezuela é demorado. Dias se passam e o desconforto da pequena embarcação deixa seu corpo dolorido. Finalmente chegam no tal porto. Como se não bastasse a parte mais difícil da viagem apenas começara. Às oito horas de caminhada, que separam o porto do garimpo ao local de
garimpagem encravado no meio da mata Venezuelana foram feitas por meio de trilhas aonde os aclives e os declives se alternam de tal maneira que o corpo já cansado da viagem, ficasse anestesiado com o peso da bagagem apesar do pequeno volume de roupas que possuía. Naquela trilha, 5 quilos pesavam como 30 kg. A umidade da floresta a sufocava e a respiração ofegante só era interrompida por pensamentos breves, mas encorajadores de que aquilo era só uma provação para um futuro promissor que a aguardava. À medida que subia o frio tomava o lugar do calor. Mesmo assim o suor escorria pela sua face. Ao chegar no local, a imagem do local a emudece. Homens em buracos enormes, cobertos de lama cavam a terra. Apesar do frio a lama parece servir de cobertor e o trabalho pesado ajuda a esquentar gerando calor em seus corpos. Homens com suas batéias e caixas de garimpo procuram encontrar um
pedaço de terra que dê bamburro (grande quantidade de ouro). Árvores centenárias vão ao chão dando lugar a poças de lama gigantescas. A floresta sucumbe ao poder destruidor da raça humana. Apesar da visão grotesca à frente de seus olhos, está segura de que seu futuro está aqui. Assume seu posto de cozinheira e nos momentos de folga utiliza a bateia alheia para conseguir algumas gramas a mais de ouro par si própria. Ao completar quatro meses de gravidez, ainda trabalhava. Uma das escavações a atraía mais do que as outras. Havia uma grande quantidade de ouro naquele buraco, mas este não estava mais sendo usado já que uma grande pedra ameaçava a rolar. O magnetismo do metal foi mais forte. Seus sonhos estavam se concretizando com a boa quantidade de ouro que havia conseguido e a possibilidade de conseguir mais e mais, a cegava diante dos riscos. Um dia, pegou a bateia e entrou naquele buraco enorme. Os pensamentos corriam em sua mente e apenas alguns minutos arriscando-se poderiam lhe valer mais algumas gramas de ouro. Enquanto recolhia mais ouro seus sonhos aumentavam. De repente, um estrondo! Ao olhar para cima vê seus sonhos desabarem junto com aquela pedra e mais alguma quantidade de terra. O instinto de sobrevivência lhe vem à tona e a fazem se movimentar pela sua vida. Não havia mais tempo! Seus sonhos desabaram com toda a força que eles tinham, junto com aquela pedra bem na área da sua cintura. Alguns dizem que logo após o acidente, já morta, ainda parecia procurar um meio de sair dali e sobreviver. Devia estar pensando, eu sou tão jovem! Ainda não é minha hora! Quero encontrar meus filhos! Quero sair daqui! Não adiantou! O peso era muito grande e esmagou-lhe a sua vida e a vida que estava dentro de seu útero à espera de nascer. O caminho de volta para casa não foi tão cansativo para ela. Carregada pelos seus dois parentes do garimpo, não mais teria que andar. O corpo já não mais sentia as dores ao ficar horas no chão duro da voadeira (barco de alumínio). Enquanto isto, seu corpo aumentava de volume já que os gases da putrefação faziam pressão sobre a sua pele. Foi aí que eu, Eduardo e ela, Jaciara - Vamos chamá-la assim - nos encontramos. Aqui na fronteira do Brasil com a Venezuela, no posto da polícia federal. Sua face de cor arroxeada deixava transparecer a difícil vida pregressa que levara. Apesar da vida difícil, estava claro que não deixava de se cuidar. Ela era vaidosa! Mesmo morta via-se sobrancelhas bem feitas e pintadas, e a marca do batom borrado misturado ao sangue que outrora escorrera da sua boca e nariz.
Vi seus sonhos ruírem naquela face moribunda e naquele corpo putrefato. De volta para casa, "Jaciara", de origem indígena, voltaria com a voadeira do distrito no qual eu trabalho de encontro aos seus filhos. As poucas gramas de ouro conseguidas - total de 200g - nestes meses de trabalho serviriam para amenizar a perda e dar um pouco mais de conforto a sua família durante pelo menos um tempo.
Já Jaciara, junto com seus sonhos, teria que se despedir de seus parentes da pior forma possível e quem sabe, conseguir uma vida melhor em outro plano perto de outros parentes que também já se foram.Poucos conseguiram o tão sonhado sucesso prometido pelo ouro, muitos não. Muitos acabaram igual Jaciara, sem sucesso, sem sonhos, sem vida................

TEMÍVEL CASTANHO


TEMÍVEL CASTANHO

Mais uma aventura nas entranhas da Amazônia. Divirtam-se!!!!!!
A artéria do noroeste amazônico, o rio Negro, é a principal via de transporte para o interior cheio de vida desta região. Dele partem artérias menores que são seus afluentes até chegar aos capilares da floresta, os igarapés.
Nosso destino já estava traçado, e lá pelo dia 07 de setembro de 2003,
faríamos todo o caminho até chegar a estes capilares. Primeiro subiríamos o
Rio Negro até o ponto aonde ele se encontra com a foz do Rio Uaupés, que é um muito importante e habitat de grande parte das etnias da região. Seguiríamos caminho através do Uaupés e entraríamos em outro afluente importante, o Rio Tiquié. Rio Tiquié, casa da etnia mais respeitada e influente, os Tukanos. Estes estão no topo da hierarquia das etnias segundo a mitologia regional indígena.
Rio de inúmeras curvas, alguns dizem que são 300 o total de curvas, o que faz dobrar o tempo de viagem. Rio de cor castanha, diferente dos demais rios da região de cor predominantemente negra.
Até o nosso destino, o pólo-base de São José II neste mesmo rio, foram 1 dia e meio de viagem pernoitando no rio Uaupés, no pólo-base de Taraquá. Ao chegarmos em São José II, muito cansados da viagem, nos deparamos com os 92 degraus de escada , encravada na beira do rio por onde teríamos que levar todos os nossos pertences até o topo. Material como rancho, botija de gás, roupas, material odontológico e galões de gasolina que teríamos que subir até o pólo. Quase enfartei quando vi aquilo. Mais tarde soube que muitas das comunidades que atenderia no rio Tiquié se encontravam no topo de elevações muito parecidas com aquelas. Tentei aliviar o pensamento dizendo que seria uma boa oportunidade para fazer exercícios.
Antes da viagem para o Tiquié já me prepararam que aquela era uma das áreas mais extensas e difíceis de toda a área do distrito de saúde indígena, mas não devido ao rio Tiquié, e sim a um igarapé de nome Castanho, o temível castanho e outros igarapés. Descobrimos mais tarde que este curso de água é a razão pela qual o Tiquié tem suas águas de cor castanha já que este deságua no rio em questão.
Na primeira oportunidade após um descanso estratégico, conversamos com a equipe médica para verificar as condições do igarapé e checar se seria possível seguir todo o seu trajeto. Se conseguíssemos chegar até a última comunidade seríamos a primeira equipe odontológica a chegar por via fluvial para o atendimento. As outras viagens foram feitas em missões aéreas.
As comunidades deste igarapé são de origem diferente da dos Tukanos, ribeirinhos do Tiquié. Em sua maioria são Yohupdas, que junto com os Hupdas da margem direita do rio Tiquié e os Dow, no Rio Negro, formam o tronco lingüístico Maku, ou melhor dizendo, Japurá -Uaupés. Maku é um termo pejorativo considerado ofensivo por eles e que a tradução deste é evitada. Possuem esta denominação de Japurá - Uaupés já que vivem entre os rios Japurá, afluente do Solimões e o grande Rio Uaupés. São povos seminômades, exímios caçadores e conhecidos por muitos como os "senhores dos caminhos". Transitam entre suas comunidades e chegam a passar dias andando na floresta. Vivem no interior da floresta, afastados das margens dos grandes rios, ao contrário da maioria das etnias da região.
Trabalhar com saúde indígena sem possuir um conhecimento prévio do modo de vida destes povos e a sua cultura é ignorar todo um povo e suas tradições, é o mesmo que pedir para que seu trabalho não seja bem vindo na região. Através de um curso de antropologia, leitura sobre a região e a área aonde iria trabalhar e conversas com amigos passei a conhecer e respeitar o modo de vida deles e assim creio eu que passei a ser respeitado por eles. Pode acreditar que se eles não forem com a sua cara, exigirão nos conselhos distritais que a sua pessoa se retire de lá.
Voltando aos Yohupdas, são uma etnia mais arredia, que pouco se interessa pela influência e arrogância de nós "brancos". O contato mais freqüente com esta etnia está apenas começando e eles ainda são um pouco desconfiados.
Iniciamos nossa jornada rumo ao interior do igarapé alguns dias após a nossa chegada em São José II. No mapa dava para ter uma certa noção da grande extensão deste igarapé, mas de maneira alguma conseguiria imaginar o que estava por vir olhando apenas no mapa. Logo na foz do nosso amigo, Castanho, a cor castanha do curso de sua água se acentua e um boto nos recepciona o que denuncia a quantidade maior de vida animal presente no local. Os animais selvagens, devido a um maior número de habitantes nas margens dos grandes rios, são caçados em maior número, e por isso adentram o interior da floresta na tentativa de se protegerem. Era para aonde nós estávamos indo, na direção dos animais. Não é a toa que o maior número de acidentes com animais peçonhentos se encontram nas populações Yohupda e Hupda.
Jararacas são freqüentes e a tão temível surucucu se encontram na região. Esta última só se encontra bem no coração das florestas e você, não queira encontrar numa destas. Cobra que chega a medir alguns metros, extremamente agressiva, de comportamento territorial ou seja, se alguém invadir seu território e esta não estiver de bom humor no dia, ela é que vai te buscar, sem que você precise sequer passar perto. Dá o bote uma vez e espera; se a "presa", no caso você, se mexer é outro bote na certa. Possui veneno que tanto dá necrose tecidual quanto tem ação neurotóxica e é aí que mora o perigo. Em grande parte das mortes ocorridas por animais peçonhentos, a responsável é a surucucu . Pior do que ela só a coral, que parece uma cobra de brinquedo, não dá o bote, possui a boca pequena e não consegue abocanhar áreas grandes, mas se for picado por uma delas, no dedo ou no calcanhar, e não tiver socorro por perto é melhor já ir cavando a própria cova, por que dentro de umas duas horas já deve estar conversando com o nosso Senhor todo poderoso, ou com o rival dele.
Após as nossas boas vindas dadas pelo boto, outro elemento muito importante nos igarapés já mostra que está lá para atrapalhar, atrasar ou impedir nosso caminho até o final do igarapé. Nossa voadeira, agora menor que a anterior e com um motor 15 HP, atinge um tronco submerso nas águas turvas do castanho, sem maiores danos. À medida que adentramos o igarapé a vida se revela de diversas formas durante o trajeto. Mais botos, cor de rosa ou não, lontras (ariranhas), araras, papagaios e aves de diversos tipos estão nos acompanhando nesta jornada. Quanto mais entramos mais estreito o igarapé fica.
Paramos na comunidade de Santa Rosa, de origem Tukana, para pedir ajuda ao agente de saúde indígena daquele local. Ninguém da minha equipe havia entrado no castanho antes e nós precisaríamos dele mais tarde como tradutor da língua, já que os Yohupda em geral não falam o português. O agente de saúde, Anacleto, concorda em seguir viagem conosco.
Passando a comunidade de Trovão, na metade do caminho, o igarapé , que antes era até razoavelmente largo, estreita-se de tal forma que certos trechos possuem pouco mais do que a largura da voadeira. A luta entre a floresta e o rio se torna evidente. A floresta tentando retomar o que foi tomado pelo leito do rio e o rio por sua vez na tentativa de resistir a esta ação. Troncos de árvores grandes deitam-se sobre seu leito, árvores menores e suas copas pedem espaço para poderem alcançar um raio de sol sequer naquele cobertor de folhas densas que são as folhas das árvores de maior porte. E os habitantes destas copas e troncos, à medida que passamos insistem em pegar uma carona. Aranhas, besouros, kabas (um tipo de marimbondo) e até sapos caem nas nossas cabeças cada vez que a voadeira toca em uma destas copas. Passando por baixo de troncos e às vezes até por cima destes a ponto de termos que empurrar a voadeira ou a cortar os troncos menores com um machado, abrimos caminho entre a vegetação e as curvas do igarapé. Aliás, muitas curvas! Estas formam um labirinto de pequenas entradas em que o caminho correto a seguir só é denunciado pelo suave movimento da correnteza.
Paramos na beira para um almoço breve e 10 horas depois de nosso início de jornada conseguimos chegar à inatingível São Felipe. Após alguns tombos, do auxiliar e do AIS, na água e muitos troncos depois, chegamos ao nosso destino. Apesar desta ser a comunidade mais distante de todas elas, ela é de origem Yepamaçan que são parentes dos Tukanos. A recepção foi calorosa com um jantar de quinhanpira (peixe com pimenta), curadá (um tipo de beiju feito de goma de tapioca, delicioso!) e farinha. A culinária local é basicamente constituída destes elementos e outros derivados da mandioca e mais algumas frutas e caças da região. Como não tem geladeira, a caça e a pesca, são conservadas moqueadas, ou seja, ficam a noite inteira debaixo de uma fogueira em brasa aonde desidratam e desta maneira consegue-se conservar a comida por mais tempo. Algumas das comidas locais apesar de bastante simples são muito saborosas. A paca moqueada ou cozida é uma delícia e o jacaré é outra especiaria que vale a pena saborear. Larvas de Kaba, apesar da aparência, também são saborosas e deixam um gostinho doce na boca.
Dormimos em uma maloca, completamente aberta, em uma noite fria. Se não fosse meu saco de dormir a noite não teria sido boa. Pela manhã, atendimento tranqüilo e pude exercitar um pouco do meu Tukano, já que necessitar do tradutor toda hora em que você precisa falar alguma coisa é muito cansativo.
Terminado o atendimento arrumamos nossas coisas para a jornada de volta. Paramos na comunidade Hupda de Guadalupe para atendimento. Casas bem simples e 2 pessoas para o atendimento. Após o atendimento voltamos para o igarapé para continuarmos a viagem. O caminho de volta parecia ser outro. O nível de água do igarapé havia subido um pouco o que muda o perfil do trajeto. Troncos que antes estavam aparentes agora estavam submersos, troncos que antes havíamos passado por baixo, agora teríamos que cruzar por cima. Em um destes troncos que a voadeira passou por cima, foi a minha vez de dar um mergulho nas águas do igarapé. Cortando alguns galhos com o meu facão, ou terçado, que é um termo mais usado localmente, perdi o equilíbrio e caí. Todo encharcado seguimos caminho.
A partir deste instante, parece que Boraró, o terrível espírito das florestas que ataca as pessoas com dardos e flechas mágicas, acordou. O céu, antes claro, se tornou cinza. O vento começou a soprar forte, o que na Amazônia sempre indica que vem tempestade por aí. As copas das árvores mais altas começaram a balançar furiosamente. O ranger dos troncos encostando uns nos outros soa alto e a imaginação começa a trabalhar vendo uma daquelas árvores gigantescas caindo sobre a minha cabeça. Gotas grossas começam a cair e logo após o céu desaba produzindo aquelas chuvas que só o equador pode produzir. Eu que já estava todo encharcado me molhei mais um pouco. A viagem com aquela chuva que chega a machucar pareceu não ter fim. Mas como quase todas as chuvas torrenciais por aqui, após alguns muitos minutos já haveria se extinguido e a próxima comunidade para o atendimento já estava próxima.
São Joaquim era esta próxima comunidade. Originalmente de etnia Yohupda eles se abrigavam em casas minúsculas de palha sem parede e com quase nenhum pertence à vista, somente uma pequena fogueira no centro de cada casa, alguns cestos e algumas redes eram vistos. Desembarcamos na comunidade e a chuva resolve nos perturbar de novo. Abrigo-me em uma das cabanas e tenho como companhia um gato, um cachorro e meu auxiliar. A chuva continua caindo forte, e as goteiras da casa aparecem e me fazem pensar como aquelas pessoas dormem ali em uma noite fria e chuvosa. Ao mesmo tempo em que a brasa é soprada pelo vento e ganha força, a goteira que cai sobre o centro da mesma a faz diminuir de intensidade.
O tempo passa e a chuva se vai do mesmo jeito que chegou, em um piscar de olhos. O atendimento é feito em uma casa com telhado de zinco tão cheio de furos que mais parece uma peneira. Ainda bem que a chuva se foi! Seguimos caminho logo após o atendimento para pernoitar na comunidade de Trovão.
No pé de uma serra esta comunidade de ares serranos nos recebe com a tão famosa e consumida quinhampira, de queimar os lábios. À noite, atamos nossa rede em uma escola feita de barro e madeira. Trovão era a última comunidade do Castanho a possuir radiofonia. Ao deitarmos na rede podíamos ouvir o “mosaico “ lingüístico do rádio. Baniwas, Tukanos, Wananos, Karapanãs, Barés e tantas outras etnias se comunicam através do único meio de comunicação entre eles aqui na floresta, o rádio. A comunicação é feita na língua nativa e a interferência de uma rádio colombiana na freqüência complica ainda mais o entendimento das línguas. O sono vem e adormeço na rede quentinha dentro do meu saco de dormir.
Após esta comunidade as coisas se tornam mais fáceis, e os outros dias passamos sem maiores problemas. Final de semana, e finalmente chegamos no pólo base. Descanso para variar um pouco, para me preparar para a próxima semana, em que teremos que enfrentar o igarapé Taraquá, a caminhada mais longa do médio Tiquié..............