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domingo, 26 de julho de 2009

MUDANDO AS ESTAÇÕES


MUDANDO AS ESTAÇÕES


As primeiras chuvas de outubro começam a cair novamente. Mais um ciclo da natureza se completa no centro oeste brasileiro. As marcas da secura nas terras pantaneiras apagam-se e o chão volta a ganhar o aspecto encharcado que deu o seu nome.
Minha próxima entrada para a terra dos Bororos e dos Guatós está marcada para a segunda metade do mês de outubro (2006) e a chuva que cai começa a preocupar os coordenadores da organização não governamental para a qual eu trabalho. Não é a toa que o pantanal recebe este nome. Terra difícil de ser domada nesta época do ano, permanecendo cada vez mais encoberta de água à medida que a estação das chuvas avança. Ainda existem trechos secos e precisamos aproveitar ao máximo o período que podemos entrar no território indígena por via terrestre.
Marcamos para o dia 15 de outubro a nossa entrada.
Mochila nas costas, barraca na mão e materiais de trabalho já na carroceria do veículo sinalizam que estou pronto para mais um período de trabalho e aventuras. Apesar de ser fisicamente cansativo e mentalmente estressante devido à distância da família, o trabalho com indígenas tem suas compensações. O aprendizado constante por estar vivendo inserido em uma outra cultura e um outro ambiente nunca deixa a monotonia das quatro paredes do consultório reger o dia a dia. É quase uma aventura constante, com seus riscos e prazeres.
A barraca ao invés da rede serve para enfrentar os mosquitos, constantes nesta época.
A antiga Toyota bandeirantes, acostumada a enfrentar estes terrenos alagados se encontra avariada na oficina sendo o único veículo disponível uma Nissan frontier novinha em folha.
As diversas estradas de acesso ao interior pantanal são estradas de terra. Saindo de Cuiabá seguindo pelo lado oeste do rio Cuiabá temos dois acessos. Um é seguindo pela transpantaneira que é uma estrada em boas condições para uma estrada de terra que leva até porto Jofre, bem na divisa com o estado do Mato Grosso do Sul, o outro acesso é pela estrada que leva até Porto cercado e onde se encontra o Hotel Sesc Pantanal às margens do rio Cuiabá. Este hotel é de ótima qualidade e em parceria com o poder público está asfaltando sua estrada de acesso, mesmo depois da resistência de grupos ambientalistas. Poconé é o município de entrada para estas duas vias. Nenhuma destas alternativas nos leva até o nosso destino, a reserva indígena Perigara, a qual fica do lado leste do rio Cuiabá, às margens do rio São Lourenço.
As únicas vias de acesso por terra até Perigara começam pelo município de Santo Antônio de Leverger. Uma segue por entre as fazendas da região até alcançar o povoado de Joselândia no município de Barão de Melgaço e o outro acesso passa pelo distrito de Mimoso, alcançando mais à frente o mesmo povoado de Joselândia. Apesar de mais longa esta segunda via é a melhor escolha por estar em melhores condições.
Depois de Joselândia, tem o povoado da pimenteira e é a partir daí que a aventura realmente começa.
Carro completamente abarrotado de carga, saímos de Cuiabá de manhã para Santo Antônio de Leverger indo em direção à Mimoso, passando por Joselândia e seguindo até a pimenteira. Até aí o “passeio” foi tranqüilo, apesar da estrada que leva até Joselândia estar em obras e a chuva que a fez virar um sabão. O segredo era maneirar na velocidade e tentar manter o carro na direção certa. Qualquer deslize era ficar preso na vala lateral da estrada. Já que esta estrada cruza terras alagadas, a mesma teve que ser aterrada em alguns metros para que ficasse livre dos constantes alagamentos que ocorrem nesta época do ano.
Pimenteira à vista. Apenas algumas casas, uma pequena escola e muita área de pasto. A última porteira do povoado é o limite entre as estradas razoavelmente transitáveis e a área de rally total. Atravessaremos primeiramente terras de fazendas, depois uma área da reserva ecológica particular do Sesc Pantanal e depois a área da reserva indígena Perigara até o leito do rio São Lourenço onde fica a sede da aldeia. Alguns poucos quilômetros que em dias secos são feitos em duas horas.
Logo após a última porteira da pimenteira, o veículo para, o motorista engata a tração do veículo indicando o início das dificuldades. Neste caso estando em uma frontier é mais vantajoso já que na Toyota bandeirantes, vc tem que saltar do carro para “traçar” o veículo.
Passamos pelo primeiro atoleiro que mais parece uma trilha entre árvores coberta por uma lama fétida. Após este trecho ocorre uma sucessão de diversos atoleiros. É um tal de liga tração, desliga tração que não acaba mais. Na maioria dos trechos a estrada não existia e apenas se via um leito coberto por água em meio à vegetação. O trecho mais conservado era até o limite da reserva do Sesc com a reserva indígena. Passamos até um posto de controle da reserva particular para perguntar sobre as condições das estradas mais à frente e aproveitamos para almoçar já que os guardas florestais, muito gentis, nos ofereceram um churrasco que estavam fazendo. Era dia de feriado.
Ficamos sabendo que as condições das estradas não eram das melhores, mas também não as piores. No dia anterior, os guardas florestais da reserva tiveram que rebocar com um trator, um carro que dormiu em um atoleiro mais à frente. Disseram-nos que dava para passar, mas o pior estava dentro da reserva indígena. Um local que apelidaram de Bebe, o qual é uma grande depressão na estrada que normalmente já é alagada.
Mesmo prevendo dificuldades, resolvemos tentar a sorte. Já tínhamos percorrido mais da metade do caminho, tínhamos que tentar!
Partimos confiantes e passando a divisa das reservas caímos na real. A estrada antes mais larga, estreitasse de tal forma que quase não se vê a trilha dos carros a não ser quando passamos por áreas de campos de vegetação rasteira. Ás vezes me perguntava se realmente estávamos na estrada. Trechos mais altos ainda secos e trechos mais baixos completamente alagados alternavam-se.
Mais tarde, o inevitável. Apesar do veículo “traçado”, ficamos presos. Uma vez que o peito de aço da caminhonete prende no fundo do atoleiro as rodas ficam suspensas e patinam livres não adiantando em nada a tração nas quatro rodas.
Depois de alguns anos de estrada de chão aprendi que não adianta tentar não se sujar em situações como esta. Tem que tirar o tênis e camisa, arregaçar a barra da calça e encarar a lama sem medo se quiser sair do lugar.
Apesar de o carro ser próprio para terrenos ruins, não estávamos aparelhados como deveríamos. Teríamos que possuir conosco materiais como enxadão, pá, facão e machado para casos extremos como este.
A solução foi cavar com a mão mesmo ou com tocos de madeira e procurar pedaços de pau para levantar as rodas do veículo em uma manobra que se chama macaco baiano.
Só quem já enfrentou uma estrada “feia” sabe da dificuldade e da falta que faz o equipamento certo na hora certa.
Os minutos vão passando e o veículo vai andando lentamente, atolando e desatolando em apenas alguns metros. Movimentos repetitivos de cavar, encaixar os pedaços de pau embaixo da roda e empurrar sucedem-se.
Passado esta dificuldade, mais à frente, ficamos presos de novo. Desta vez em uma depressão em que as rodas do veículo patinavam no barro liso e o carro não saía do lugar. E mais uma vez, saímos do carro para todo aquele processo anterior.
As horas se passam e já são por volta das quatro da tarde.
Pensava comigo; já é a segunda vez que ficamos presos e o tal do atoleiro do Bebe nem chegou ainda.
Mais um obstáculo superado e logo mais à frente, presos de novo!
O motorista que recebeu a ordem de que se não conseguir passar era para voltar pondera se vale mesmo à pena continuar. Já se aproximam de 5 horas da tarde e os mosquitos começam a aparecer em quantidade. A idéia de ter que dormir na estrada não agrada ninguém, mas se fosse preciso seria a única alternativa.
Naquela situação tínhamos duas alternativas, ou seguíamos em frente em um imenso atoleiro coberto pelas águas ou voltaríamos para Cuiabá. Após uma rápida votação decidimos que voltaríamos, pois a pior parte da estrada ainda não havia chegado e não nos agradava a idéia de passar a noite em uma estrada no meio do nada, com chuva e cheia de mosquitos.
Desatolamos o carro de ré e seguimos nosso caminho de volta a toda a velocidade. Naquela lama toda, o carro patinava e tinha vezes que nos víamos deslizando de lado. Passamos os atoleiros anteriores a toda, forçando a caminhonete ao máximo sob o risco de alguma avaria, mas Deus estava conosco e permitiu que chegássemos ao posto da reserva particular do Sesc logo ao anoitecer. O carro estava coberto de lama do fundo ao teto. Nós estávamos cansados e sujos, mas felizes por estar em um lugar onde seria possível um banho e uma noite mais agradável.
Cinco horas da manhã; acordo com o dia clareando e os pássaros servindo como meu despertador. Dia tranqüilo e sem chuva. Tínhamos mais alguns trechos difíceis pela frente, mas estávamos voltando para a Cidade o que nos confortava.
Partimos com destino a Cuiabá tranqüilos imaginando como seria a nossa nova tentativa para chegar até a aldeia o que aconteceria mais alguns dias depois.

sábado, 4 de julho de 2009

VOZES SILENCIADAS


Vozes silenciadas

Se estiver sem tempo não continue esta leitura... Abaixo encontra-se uma leitura reflexiva e histórica. Ao ler cada frase procure utilizar o imaginário e aprofundar os sentimentos a medida que prossegue na leitura.



Mais uma tarde de chuva na aldeia chiquitana.
Poucas pessoas vêm à procura do meu serviço odontológico já que me encontro sem diesel à quase duas semanas o que na aldeia significa sem energia elétrica. Consequentemente restaurações usuais ficam impossibilitadas de serem realizadas e somente extrações e restaurações provisórias são feitas.
No tempo vago me ocupo com a minha horta, em conversa fiada com alunos e diretores da escola, cozinhando, escrevendo e com pensamentos diversos sobre a minha família e a vida em si.
Um destes dias estive pensando sobre os próprios chiquitanos, Quem são eles? De onde vieram? Estes pensamentos me fizeram voltar no tempo, mais precisamente no ano de 1542...

Neste ano, os primeiros espanhóis chegam a chiquitania ( atualmente Bolívia e parte do Brasil ) em busca de uma via de comunicação para o território que é hoje o Peru. Estes por sua vez resolvem fundar uma povoação no local como forma de assegurar o caminho encontrado. Logo após resolvem avançar até o rio grande fundando então a cidade de Santa Cruz de La Sierra, um lugar povoado por mais de 20.000 indígenas.
A partir deste momento os indígenas passam a ser escravizados e já em 1561 estima-se que 40 à 60,000 indígenas vivam em regime de servidão. Os que não eram escravizados morriam, seja por conflitos ou por epidemias como a peste avassaladora do séc. XVI, a varíola.
Como não podiam faltar, os missionários também faziam incursões na região e estes, estavam conscientes da enorme responsabilidade que tinham nas mãos. Sua missão era “pacificar” os indígenas.
Imbuídos pelo desejo de salvação e pela fé, acreditavam ter pela frente um trabalho inédito, em que tudo estaria por se fazer em nome e para a glória de Deus.
Já do lado Brasileiro atual, a coroa portuguesa, resolve marcar presença no lado oriental ao saber da existência de missões no lado espanhol.
Em 1712, é fundada Vila Bela ( sudoeste do estado atual de Mato Grosso ), sede da capitania de Mato Grosso.
Mais tarde, com o crescimento do comércio e da população promovido pela descoberta de ouro nas minas do Sutil ( Cuiabá ) e de Vila Bela, muitos latifúndios foram estabelecidos junto às rancharias dos índios. Em 1850, a promulgação da lei de terras, intensificou a ocupação das terras chiquitanas tidas como devolutas. Devolutas significa terras públicas ocupadas por particulares ou não. Devido à estas ocupações e atividades missionárias a língua chiquitana foi sendo esquecida lentamente.
Mais recentemente, um grupo de trabalho indígena, identificou diversas comunidades chiquitanas remanescentes espremidas entre os latifúndios ou ocupando terras tidas como das forças armadas localizadas na área de influência do Gasoduto Bolívia-Mato Grosso. Entre estas comunidades, se encontram as comunidades de Acorizal e Fazendinha para as quais eu trabalho.
Atualmente, a reserva chiquitana nomeada de reserva indígena Portal do Encantado já foi identificada oficialmente e se encontra em processo judicial para a demarcação de suas terras.
Descendentes dos latifundiários invasores e novos invasores fazem ameaças a população indígena local ao sentir a eminência da perda de “suas” terras.
Enquanto isto, a língua chiquitana, a qual esteve em processo de extinção , começa a ser resgatada mesmo que timidamente nas duas escolas locais. Um dos poucos conhecedores da língua no Brasil se foi, morreu, e a sua voz pede socorro. Todos os conhecedores da língua no lado brasileiro estão em idade avançada e começa uma corrida contra o tempo para resgatar a mesma. A língua chiquitana tem pressa, caso contrário, poderá ter sua voz silenciada quisá para sempre.
Só pode existir uma razão para alguém ser contra a causa indígena e a demarcação de suas terras: - A ignorância total dos fatos históricos. Enquanto a ignorância e a ganância prevalecem os índios continuarão sendo ameaçados e sua riqueza cultural e língua continuarão a serem esquecidas. Como bom otimista, vejo um horizonte possível para a conciliação das diversas culturas existentes neste nosso brasil em uma convivência harmoniosa e de bons frutos.
Lutemos pelo fim da ignorância e pela disseminação de fatos históricos como estes tão similares entre as diversas etnias do nosso país. Estórias de ocupação, servidão e mortes. Vamos mudar esta estória, vamos mudar a História...


FIM


OBS: Dados históricos extraídos da Dissertação de mestrado da lingüista Áurea cavalcante Santana.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Pé de coelho


Pé de coelho
Meu amigo de faculdade está construindo um blog sobre pesca submarina, e por sinal muito bom, e ao vê-lo descrever suas peripécias submarinas, lembrei-me de uma das minhas muitas peripécias na mata, ou melhor no rio. Começa assim:
- É noite de inverno na aldeia de perigara. O calor escaldante e a nuvem incontrolável de mosquitos do verão dão lugar a uma brisa que resfria os ossos e a uma quantidade mais razoável de mosquitos.
Termino de jantar e próximo a uma fogueira aguardo fora do posto de saúde o sono chegar para que possa descansar do dia de trabalho.
Em meio à escuridão ouço vozes. O posto de saúde fica entre o rio e a aldeia, só que a a distância entre as duas é relativamente grande. Tudo que vem da aldeia em direção ao rio tem que passar perto da minha residência no mato, o posto. Quando não estou introspectivo, me agrada jogar conversa fora com os amigos indígenas já que estes possuem estórias muito incomuns para nós da cidade.
Vejo que se aproximam em dois, um com uma sacola na mão e o outro com uma sacola e uma tarrafa. Os cumprimento com um bom boa noite da roça.
- Noooooite! Eles retrucaram com o mesmo cumprimento e completam com um convite inesperado para aquela noite. Vamos pescar(interrogação)
Se eu fosse parar para pensar no que poderia acontecer não teria ido, mas como não gosto de perder uma boa oportunidade de uma experiência cultural rebati na lata, Vamos!!!
Pescaria á noite e em reserva indígena não é somente pescaria sem luz, mas também tem muito risco envolvido. Primeiro, como era inverno o rio estava em seu nível mais baixo, com muitas pedras, antes encobertas pelas águas, brotando como pontas afiadas ou bancos pedregosos no leito do rio. A única coisa que tínhamos para nos guiar era uma lanterna e o conhecimento dos indígenas sobre o trajeto do leito profundo do rio. Outra coisa são os jacarés e onças, os quais são muito mais ativos à noite. Outro detalhe são os mosquitos que também são mais ativos a noite. Com a graça de Deus, os mais perturbadores deles, os mosquitos, não incomodavam tanto aquela noite.
Sem nenhum equipamento de pesca segui até o porto em meio a uma conversa de pescador engraçada em que um contava vantagem sobre o outro de quem pescava mais.
Em sua grande maioria, os indígenas do pantanal não pescam de vara e molinete. É somente carretel, linha, anzol e chumbada. Iria pescar com um carretel emprestado.
Partimos na voadeira de motor 25hp da aldeia, doado pela Funai. O motor ronca e voamos para o nosso destino, seguindo o trajeto curvilíneo do leito profundo do rio na escuridão e desviando das pedras apenas com o pensamento, acredito eu.
Após alguns minutos subindo o rio, paramos em um remanso. Tarrafa na mão, chumbada na boca e em um movimento coreografado em arco lança-se a rede. O artefato é usado para pegar as iscas as quais usaríamos para capturar os peixes maiores que era o que nos interessava mais. Após alguns lances já tínhamos sardinha suficiente para nossa pescaria e então partimos para o nosso ponto de pesca. Este era uma pedreira com um fosso de águas profundas com promessas de pintados e jaús.
Aportamos na pedreira e amarramos o bote nas pedras. Com a lanterna iluminava a escuridão e percebi que minúsculos pontos vermelhos, aos pares , denunciavam que não estávamos sozinhos. Havia Jacarés por todo o lado.
Quem já foi no pantanal em época de seca sabe do que eu estou falando. Uma vez contei mais de 100 jacarés, um após o outro em apenas um dos lados do rio.
Recebi meu equipamento de pesca logo após a chegada. Um carretel de linha grossa, se não me engano 1mm ou mais, uma chumbada pesada e um anzol barra 6, como falam por lá. Como já tinha alguma experiência com linhada pura não me fiz de rogado e imediatamente perfurei a sardinha com o anzol, girei a linha,chumbada e isca para pegar velocidade e liberei tudo, apenas deixando a linha escorregar por entre os dedos suavemente até a isca encontrar a água novamente. Deixo a chumbada fazer o trabalho de levar tudo para o fundo do rio e espero com paciência. O meus companheiros fazem o mesmo, lançam suas iscas e esperam.
Logo vêm as primeiras capturas na linha de meus companheiros, as intragáveis piranhas. Piranha, em minha opinião é quase que uma praga no pantanal. A vantagem de pescar a noite é que a pessoa consegue fugir mais delas, mas mesmo assim ainda se pega piranhas à noite.
Estava quieto e até satisfeito, pois não tinha enfrentado tudo aquilo para pegar piranhas. Mesmo sabendo que se batesse um Jaú muito pesado na minha linha eu não conseguiria segurar na mão,teria ao menos a experiência de tentar.
Por volta de uma hora depois já estávamos com algumas piranhas e uns dois abotoados o qual é um parente do bagre mais conhecido no sul e sudeste por armado. E eu, continuava ali, passando frio e segurando a linha. Nada de peixe! Nem um beliscão. A gozação começa e o pescador iniciante, eu, continua rebatendo as zombarias. Já imaginava sair apenas com a experiência na memória.
De repente um puxão violento acontece na minha linhada. Tento segurar, mas não consigo, pois a linha queimava a pele da palma da minha mão. Deixo-a escorrer por entre os dedos com cuidado até a velocidade da puxada diminuir e então tento recolher a linha. Novamente outra puxada violenta e mais linha se vai. Repito o procedimento várias vezes e cada vez que recolho consigo ganhar um pouco mais de linha do que o peixe consegue puxar. Os indígenas ficam apreensivos e pedem para recolher eles próprios. Digo:
-Não, este é meu! Nem que eu tenha que perder, mas este é meu!
Ao final o grande peixe, já cansado, chega a beira das pedras e os indígenas correm, pegam o porrete que utilizam em pescarias para atordoar peixes grandes e batem na cabeça do grande exemplar.
Atordoado o Jaú é retirado da água. Mais duas porretadas certeiras para terminar o serviço e o som ecoa pelo leito do rio e por entre as árvores da floresta. É o fim!
O Jaú de mais ou menos 7 quilos e quase um metro de peixe se mostra por inteiro. Apesar de pequeno para um Jaú que pode chegar a mais de 100 quilos, é um troféu que retiro das águas e o tão sonhado almoço de amanhã. A malhação dos indígenas acaba e começa a malhação do “homem branco”. Para quem não conhece, o Jaú é um dos peixes mais difíceis e pesados do rio. Peixe robusto e de puxada firme, freqüentemente quando se entoca em locas de pedras ninguém mais tira. É como se fosse o Arnold Schwarzenegger dos rios, grosso e forte, mas não tão saboroso quanto o pintado, a gostosona de Copacabana.
Na volta para casa, orgulhoso e feliz pela experiência, ao olhar os outros peixes em relação ao meu vêm a lembrança das crianças indígenas. Apesar de ninguém passar fome naquele local rico em fauna e flora, imagino a felicidade naqueles rostinhos ao ver um espécime tão bonito e corpulento. As famílias são grandes e um banquete volta e meia não iria fazer mau a ninguém. Penso bem e entrego o troféu aos meus companheiros de pesca. Agradecidos, voltam para as suas casas e eu volto ao meu recinto de descanso com o prêmio apenas na memória. Estou satisfeito!
No próximo mês, só para não falarem que foi sorte de principiante, volto à pescaria com os mesmos figurantes. O protagonista, eu, volto à cena e desta vez com dois exemplares, um pintado e outro Jaú enquanto os outros seguem com seus palmitos, piranhas e abotoados. O mito da sorte de principiante foi quebrado, e enquanto eles discutem o fato, fico eu, procurando em surdina, o pé de coelho escondido nas minhas roupas!

terça-feira, 28 de abril de 2009

NECESSÁRIA


Era uma vez um skatista que conheci na aldeia dos índios Goytacazes. Aldeia quente, muito quente, de aspecto sujo, que às vezes fedia devido ao Vinhoto, vinhaça ou restilo o qual é o resíduo que sobra após a destilação do caldo de cana-de-açúcar. Muitas vezes chovia cinza da cana nas nossas roupas brancas, mas nós gostávamos assim mesmo. Suja, malcheirosa e quente ( sem trocadilhos, por favor!!!) e nós nos divertíamos.
Era festa de república, quartas sem lei e noites no Véio Ladrão. Esse skatista era um dos últimos a sair e ai de quem resolvesse sair antes. Era malhado e vaiado pelos outros e principalmente pelo amigo skatista. Esse era empolgado, ativo, voz ativa, quase um líder natural. Gostava tanto de registrar a história que até pediu para ser fotografado quando foi preso pela primeira e última vez ( pelo menos eu acho que foi a primeira vez e também creio que foi a última, será - interrogação)
Um dia minha vida mudou, e ganhei um presente de Deus. Apesar de ser um presente maravilhoso tive que mudar o estilo de vida e concentrar meus esforços neste presente. Muitos pareciam não entender estes esforços e meu amigo skatista parecia ser um destes. Eu não ligava muito e compreendia o pensamento dos compadres.
Um dia a vida dele mudou, mas não tinha presenciado muito a mudança até que um fato aconteceu. Este amigo passou pela cidade da moqueca, mas foi uma passagem rápida. O relógio marcava nove da noite e já estava por uma passagem rápida no happy hour para dormir as dez.. No outro dia, em plena sexta feira, dia de Skol ele dormiu as nove. Já sonolento e de pijama declarou sua transformação. A princípio estranhei, mas lembrando de um menino pequenino, bem branquinho e de cabelos arrepiados entendi. A mudança desta vez era definitiva. Uma mudança necessária.
Depois deste fato, Jardim da Penha não será mais a mesma. Aliás, ela já não é mais a mesma, quase não se vêem mais skatistas lá. Jardim da Penha mudou também. O skatista vai ficar para história da cidade da moqueca e da cidade dos índios Goytacazes e Tucanos até ressurgir das cinzas outro skatista, desta vez, na cidade de Castelo, branquinho e de cabelos arrepiados.
Como mudei ele mudou. A vida passa a vida nos transforma. Essas transformações não são positivas nem negativas, são necessárias. YEAH!!!!!!!

sábado, 7 de março de 2009

ECOLOGIA TEM LIMITES

Este resumo não está disponível. Clique aqui para ver a postagem.

PINTADA


PINTADA

Aos olhos do mundo o pantanal é sinônimo de rios fartos, florestas inundadas e animais selvagens, muitos animais selvagens; e foram com estes olhos que adentrei este mundo.
Ao escrever este texto viajo nas minhas memórias e os leitores pegam carona nas mesmas para construírem suas próprias viagens. Não que eu tenha muitos leitores. Calculo que sejam mais ou menos três pelos comentários que recebo em meu blog. Nem a minha esposa o lê. Igualmente a esposa do meu amigo blogueiro Gilberto "Grana no ato". Olhando pelo lado otimista, talvez seja porque minha esposa receba um resumo oral de todos os textos antes de serem publicados.
E por falar em Gilberto, ele é um dos meus leitores e eu dele, um troca-troca, literário, que fique bem claro! Então ele é o meu leitor número um. O meu segundo leitor, ou melhor leitora, é uma amiga que não vejo há anos e que escreveu em um dos comentários que adora meus textos, e isto, percebam, está no plural. Textos! Se escreveu no plural é por que leu mais de um. Já virou minha leitora. O terceiro é um amigo amazônico, guitarrista, dentista e maluco profissional, cujo escreveu que sempre que pode acompanha os meus textos. Já é uma vitória. Os outros são amigos que não fazem comentários e outros que fizeram somente um comentário sem citar que leram outros textos então apesar de terem lido ao menos um dos textos, irei considerar os que tenho certeza que leram mais de um. (Será que a minha mãe leu mais de um?). rsrsrs.
Acredito que a minha esposa esteja entre os que não lêem e uma prova disto será quando ela nem comentar estas linhas ( depois eu digo se ela comentou ou não.).
Bem, mas não é sobre comentários que escreverei e sim sobre viagens.
Voltando.
O pantanal é um ambiente cheio de vida, como já foi dito, e ao se aproximar percebe-se que também é cheio de estórias. Estórias do peixe maior do que a canoa, da sucuri a espreita no barranco ou do dia em que ciclano cutucou a onça com vara curta.
Em uma das minhas primeiras noites de pantanal estávamos sentados, ao entardecer, eu e os poucos habitantes de um local chamado aterradinho. Conversávamos, na beira do rio Cuiabá, à sombra de uma frondosa mangueira e uma leve brisa amenizava o calor do centro oeste brasileiro. A conversa fluía naturalmente e devagar os contos e causos brotavam. Um destes causos foi que na noite anterior, um casal de onça havia brigado justamente bem em frente do posto de saúde. Ouvi este caso com atenção como todos os outros.
O tempo passou e a noite caiu. Entrei no alojamento para dormir.
Mais tarde, naquela noite, acordo com uma vontade louca de ir no banheiro fazer o n° 1. Levanto, sem lanterna, saio tateando as paredes – não se esqueça de que aqui o interruptor não funciona – e como não conhecia bem o lugar ainda e tinha receio de errar e “mijar fora do pinico”, resolvi fazer lá fora para que o risco de errar fosse minimizado.
Lá fora, uma noite de lua iluminava o rio. Uma imagem impressionista linda de Monet, meio mancha meio cor, quase poética, estendia-se á minha á minha frente . Inebriado pela beleza e entorpecido pelo sono, me aliviava tranquilamente. Ahahahah! Nada passava pela minha cabeça além da beleza daquele lugar, até que um urro estarrecedor ecoa bem próximo ao meu mictório orgânico ecológico. Imediatamente me lembro das onças e do fato de terem comentado que elas estavam em época de cio. Quem já viu e ouviu gatos brigando na época de cio sabe bem do que estou falando. Agora, imagina gatos anabolizados de mais de cem quilos; uma insanidade!
Tão rápido quanto veio o primeiro surge o segundo urro, ainda mais forte; e tão rápido quanto veio, a minha vontade de urinar se foi. Cortei o vazamento, botei o “Eduardo Júnior” na casa e “voei” para dentro do posto.
Com o coração acelerado, parei em frente a tela fiquei a observar. Nada! Nenhuma onça. Perdi um tempo ali e desisti de ver minha amiga pintada.
Já protegido, dormi bem. Não senti mais vontade de ...
No dia seguinte, descobri que ser “calouro” de pantanal também tem os seus trotes. Ao descrever e sonoplastizar o urro para os moradores locais, descobri que a onomatopéia da noite anterior era na verdade proveniente de Jacarés. E eu que nem sabia que jacaré urrava.
A minha vingança viria mais tarde; Jacaré empanado. Uma delícia!
(Aos funcionáiros do Ibama e ativistas ecológicos, declaro que quem matou o jacaré foi um índio, e índio pode, não é?)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

COISAS DE ALDEIA


COISAS DE ALDEIA

Um dos passatempos que mais me dá prazer é o de olhar fotos antigas.
De tempos em tempos, sento eu e minha filha e/ou esposa na frente do computador ( é; álbum de fotografia já virou coisa do passado) e a medida que as fotos passam, comentamos algumas entre risadas e suspiros.
Hoje olhei uma das minhas fotos e lembrei de um fato , no mínimo, inusitado para não dizer bizarro, o qual me remete a mais ou menos um ano atrás.
Os bororos são um povo com uma relação bem íntima com os animais. Não é difícil achar animais selvagens como porco do mato, araras e outros animais vivendo como animais de estimação.
Ao passar por uma das casas bororo, vi uma arara vermelha com o bico deformado que de tão recurvado tinha a sua ponta pressionando a lateral da sua cabeça. E como os bicos das aves funcionam como se fossem seus dentes e como aconteceu de eu me formar odontólogo, ao ver tal cena retruquei inocentemente:
- Leva lá no consultório!
Alguns meses se passaram e o fato para mim já estava esquecido.
Trabalhava atendendo pacientes e o último da fila veio enrolado em um pano como um bebê em um cueiro. Um bela tropa acompanhava o pequeno paciente e eu, julgando pelo alvoroço, já achando que seria alguma fratura dentária.
Ao olhar o rosto do paciente, uma surpresa! Penas vermelho vivo e um bico. Ele nem humano era!
De olhar um tanto assustado, olha para mim como que pedindo cautela. O rosto familiar não era nem rosto familiar e sim cara familiar. Era a arara do bico torto.
Pensei:
- E agora? Veterinário não sou.
Mais um olhar em direção a nossa ilustre paciente e imagino sua dificuldade para manusear ( peraí, manusear não é só para quem tem mãos??), ou melhor “embiquesear”( ficou esquisito!) suculentas castanhas. Seu sofrimento me compadece.
Resolvo:
- Se bico é dente e, neste caso, dente é bico, e ela não me bicar, seu “dente” consertado será. O máximo que poderia acontecer é ter que fazdr um tratamento de canal em uma arara. Acredito que seria o primeiro do planeta.
Ao me aproximar a paciente reluta e reclama com um típico reclamar de arara, AAAAAHHHHRRRR!
Ao ouvir o zunido do motor, a mesma parece aceitar o inevitável. Inicio o tratamento sem a paciente dar nem mais um pio e sem mais nenhum movimento. Penso:
- Isto é que é paciente modelo. Acho que estava começando a entender o que lhe acontecia. Enquanto sua “mãe” a segurava e a confortava eu recortava, esculpia e redelineava seu bico com uma broca 3080. Sem anestesia local, geral ou qualquer tipo de psicotrópico. Nenhuma reclamação.
Alguns minutos depois, estava ela, linda como veio ao mundo, com seu bico novo pronto para destroçar castanhas.
Meu dever ecológico estava cumprido para um mês inteiro..
Mais tarde naquele dia, pensava com os meus botões:
- Realmente , isto são coisas de aldeia! Só espero que o próximo não seja um porco do mato!!!!!rsrsrsrsrrs.