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terça-feira, 28 de abril de 2009

NECESSÁRIA


Era uma vez um skatista que conheci na aldeia dos índios Goytacazes. Aldeia quente, muito quente, de aspecto sujo, que às vezes fedia devido ao Vinhoto, vinhaça ou restilo o qual é o resíduo que sobra após a destilação do caldo de cana-de-açúcar. Muitas vezes chovia cinza da cana nas nossas roupas brancas, mas nós gostávamos assim mesmo. Suja, malcheirosa e quente ( sem trocadilhos, por favor!!!) e nós nos divertíamos.
Era festa de república, quartas sem lei e noites no Véio Ladrão. Esse skatista era um dos últimos a sair e ai de quem resolvesse sair antes. Era malhado e vaiado pelos outros e principalmente pelo amigo skatista. Esse era empolgado, ativo, voz ativa, quase um líder natural. Gostava tanto de registrar a história que até pediu para ser fotografado quando foi preso pela primeira e última vez ( pelo menos eu acho que foi a primeira vez e também creio que foi a última, será - interrogação)
Um dia minha vida mudou, e ganhei um presente de Deus. Apesar de ser um presente maravilhoso tive que mudar o estilo de vida e concentrar meus esforços neste presente. Muitos pareciam não entender estes esforços e meu amigo skatista parecia ser um destes. Eu não ligava muito e compreendia o pensamento dos compadres.
Um dia a vida dele mudou, mas não tinha presenciado muito a mudança até que um fato aconteceu. Este amigo passou pela cidade da moqueca, mas foi uma passagem rápida. O relógio marcava nove da noite e já estava por uma passagem rápida no happy hour para dormir as dez.. No outro dia, em plena sexta feira, dia de Skol ele dormiu as nove. Já sonolento e de pijama declarou sua transformação. A princípio estranhei, mas lembrando de um menino pequenino, bem branquinho e de cabelos arrepiados entendi. A mudança desta vez era definitiva. Uma mudança necessária.
Depois deste fato, Jardim da Penha não será mais a mesma. Aliás, ela já não é mais a mesma, quase não se vêem mais skatistas lá. Jardim da Penha mudou também. O skatista vai ficar para história da cidade da moqueca e da cidade dos índios Goytacazes e Tucanos até ressurgir das cinzas outro skatista, desta vez, na cidade de Castelo, branquinho e de cabelos arrepiados.
Como mudei ele mudou. A vida passa a vida nos transforma. Essas transformações não são positivas nem negativas, são necessárias. YEAH!!!!!!!

sábado, 7 de março de 2009

ECOLOGIA TEM LIMITES

Este resumo não está disponível. Clique aqui para ver a postagem.

PINTADA


PINTADA

Aos olhos do mundo o pantanal é sinônimo de rios fartos, florestas inundadas e animais selvagens, muitos animais selvagens; e foram com estes olhos que adentrei este mundo.
Ao escrever este texto viajo nas minhas memórias e os leitores pegam carona nas mesmas para construírem suas próprias viagens. Não que eu tenha muitos leitores. Calculo que sejam mais ou menos três pelos comentários que recebo em meu blog. Nem a minha esposa o lê. Igualmente a esposa do meu amigo blogueiro Gilberto "Grana no ato". Olhando pelo lado otimista, talvez seja porque minha esposa receba um resumo oral de todos os textos antes de serem publicados.
E por falar em Gilberto, ele é um dos meus leitores e eu dele, um troca-troca, literário, que fique bem claro! Então ele é o meu leitor número um. O meu segundo leitor, ou melhor leitora, é uma amiga que não vejo há anos e que escreveu em um dos comentários que adora meus textos, e isto, percebam, está no plural. Textos! Se escreveu no plural é por que leu mais de um. Já virou minha leitora. O terceiro é um amigo amazônico, guitarrista, dentista e maluco profissional, cujo escreveu que sempre que pode acompanha os meus textos. Já é uma vitória. Os outros são amigos que não fazem comentários e outros que fizeram somente um comentário sem citar que leram outros textos então apesar de terem lido ao menos um dos textos, irei considerar os que tenho certeza que leram mais de um. (Será que a minha mãe leu mais de um?). rsrsrs.
Acredito que a minha esposa esteja entre os que não lêem e uma prova disto será quando ela nem comentar estas linhas ( depois eu digo se ela comentou ou não.).
Bem, mas não é sobre comentários que escreverei e sim sobre viagens.
Voltando.
O pantanal é um ambiente cheio de vida, como já foi dito, e ao se aproximar percebe-se que também é cheio de estórias. Estórias do peixe maior do que a canoa, da sucuri a espreita no barranco ou do dia em que ciclano cutucou a onça com vara curta.
Em uma das minhas primeiras noites de pantanal estávamos sentados, ao entardecer, eu e os poucos habitantes de um local chamado aterradinho. Conversávamos, na beira do rio Cuiabá, à sombra de uma frondosa mangueira e uma leve brisa amenizava o calor do centro oeste brasileiro. A conversa fluía naturalmente e devagar os contos e causos brotavam. Um destes causos foi que na noite anterior, um casal de onça havia brigado justamente bem em frente do posto de saúde. Ouvi este caso com atenção como todos os outros.
O tempo passou e a noite caiu. Entrei no alojamento para dormir.
Mais tarde, naquela noite, acordo com uma vontade louca de ir no banheiro fazer o n° 1. Levanto, sem lanterna, saio tateando as paredes – não se esqueça de que aqui o interruptor não funciona – e como não conhecia bem o lugar ainda e tinha receio de errar e “mijar fora do pinico”, resolvi fazer lá fora para que o risco de errar fosse minimizado.
Lá fora, uma noite de lua iluminava o rio. Uma imagem impressionista linda de Monet, meio mancha meio cor, quase poética, estendia-se á minha á minha frente . Inebriado pela beleza e entorpecido pelo sono, me aliviava tranquilamente. Ahahahah! Nada passava pela minha cabeça além da beleza daquele lugar, até que um urro estarrecedor ecoa bem próximo ao meu mictório orgânico ecológico. Imediatamente me lembro das onças e do fato de terem comentado que elas estavam em época de cio. Quem já viu e ouviu gatos brigando na época de cio sabe bem do que estou falando. Agora, imagina gatos anabolizados de mais de cem quilos; uma insanidade!
Tão rápido quanto veio o primeiro surge o segundo urro, ainda mais forte; e tão rápido quanto veio, a minha vontade de urinar se foi. Cortei o vazamento, botei o “Eduardo Júnior” na casa e “voei” para dentro do posto.
Com o coração acelerado, parei em frente a tela fiquei a observar. Nada! Nenhuma onça. Perdi um tempo ali e desisti de ver minha amiga pintada.
Já protegido, dormi bem. Não senti mais vontade de ...
No dia seguinte, descobri que ser “calouro” de pantanal também tem os seus trotes. Ao descrever e sonoplastizar o urro para os moradores locais, descobri que a onomatopéia da noite anterior era na verdade proveniente de Jacarés. E eu que nem sabia que jacaré urrava.
A minha vingança viria mais tarde; Jacaré empanado. Uma delícia!
(Aos funcionáiros do Ibama e ativistas ecológicos, declaro que quem matou o jacaré foi um índio, e índio pode, não é?)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

COISAS DE ALDEIA


COISAS DE ALDEIA

Um dos passatempos que mais me dá prazer é o de olhar fotos antigas.
De tempos em tempos, sento eu e minha filha e/ou esposa na frente do computador ( é; álbum de fotografia já virou coisa do passado) e a medida que as fotos passam, comentamos algumas entre risadas e suspiros.
Hoje olhei uma das minhas fotos e lembrei de um fato , no mínimo, inusitado para não dizer bizarro, o qual me remete a mais ou menos um ano atrás.
Os bororos são um povo com uma relação bem íntima com os animais. Não é difícil achar animais selvagens como porco do mato, araras e outros animais vivendo como animais de estimação.
Ao passar por uma das casas bororo, vi uma arara vermelha com o bico deformado que de tão recurvado tinha a sua ponta pressionando a lateral da sua cabeça. E como os bicos das aves funcionam como se fossem seus dentes e como aconteceu de eu me formar odontólogo, ao ver tal cena retruquei inocentemente:
- Leva lá no consultório!
Alguns meses se passaram e o fato para mim já estava esquecido.
Trabalhava atendendo pacientes e o último da fila veio enrolado em um pano como um bebê em um cueiro. Um bela tropa acompanhava o pequeno paciente e eu, julgando pelo alvoroço, já achando que seria alguma fratura dentária.
Ao olhar o rosto do paciente, uma surpresa! Penas vermelho vivo e um bico. Ele nem humano era!
De olhar um tanto assustado, olha para mim como que pedindo cautela. O rosto familiar não era nem rosto familiar e sim cara familiar. Era a arara do bico torto.
Pensei:
- E agora? Veterinário não sou.
Mais um olhar em direção a nossa ilustre paciente e imagino sua dificuldade para manusear ( peraí, manusear não é só para quem tem mãos??), ou melhor “embiquesear”( ficou esquisito!) suculentas castanhas. Seu sofrimento me compadece.
Resolvo:
- Se bico é dente e, neste caso, dente é bico, e ela não me bicar, seu “dente” consertado será. O máximo que poderia acontecer é ter que fazdr um tratamento de canal em uma arara. Acredito que seria o primeiro do planeta.
Ao me aproximar a paciente reluta e reclama com um típico reclamar de arara, AAAAAHHHHRRRR!
Ao ouvir o zunido do motor, a mesma parece aceitar o inevitável. Inicio o tratamento sem a paciente dar nem mais um pio e sem mais nenhum movimento. Penso:
- Isto é que é paciente modelo. Acho que estava começando a entender o que lhe acontecia. Enquanto sua “mãe” a segurava e a confortava eu recortava, esculpia e redelineava seu bico com uma broca 3080. Sem anestesia local, geral ou qualquer tipo de psicotrópico. Nenhuma reclamação.
Alguns minutos depois, estava ela, linda como veio ao mundo, com seu bico novo pronto para destroçar castanhas.
Meu dever ecológico estava cumprido para um mês inteiro..
Mais tarde naquele dia, pensava com os meus botões:
- Realmente , isto são coisas de aldeia! Só espero que o próximo não seja um porco do mato!!!!!rsrsrsrsrrs.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Pari Cachoeira


Pari-Cachoeira


Pari-Cachoeira é uma comunidade do Tiquié que já perdeu muito da cultura indígena. Extremamente influenciada pela igreja católica possui uma imensa igreja. Para piorar as coisas, um pelotão de fronteira se instalou no local e a presença dos militares terminou de extinguir o restante de cultura preservada existente. Uma das primeiras cenas avistadas durante a chegada em Pari além das construções da igreja católica são as cachoeiras da "cidade". As primeiras cachoeiras de todo o trajeto do médio Tiquié. Quando o rio está cheio,as
voadeiras cruzam as cachoeiras normalmente; quanto mais o rio vaza, mais difícil fica transpor estas.
Eu costumava passar o final de semana em Pari para poder telefonar para a família em São Gabriel da Cachoeira. Ficava no pólo-base de propriedade da Federação das Organizações indígenas do Rio Negro – FOIRN, localizado na beira do rio nesta comunidade. Sempre encontrava por lá a equipe de enfermagem do pólo ou qualquer outra equipe que estivesse transitando por lá. Durante o dia passeava pelas trilhas e conhecia as cachoeiras dos igarapés adjacentes. O pelotão se encontrava mais no interior da mata e possuía até pista de pouso para os Hércules, helicópteros e outras aeronaves. Atrás do pelotão, duas horas e meia de caminhada, se encontrava uma comunidade Hupda que só a pouco tempo, apesar da proximidade da grande comunidade de Pari, foi contatada pela equipe médica. Em um destes finais de semana, eu e a minha equipe preparamos o material e partimos com a nossa voadeira motor Yamaha de 15 hp.Uma hora e dez minutos separam a comunidade de Pari do pólo base aonde me encontrava que se chama São José II. Durante a viagem, as inúmeras curvas do rio Tiquié, vão dando o contorno a ser seguido por nós até chegar no obstáculo natural que são as cachoeiras de Pari.
Sempre que andava de voadeira andava despreocupado e o colete salva vidas era um artigo pouco usado e quando usado servia mais como almofada de assento já que o banco da voadeira não é nada confortável. Neste dia estava de coturno, calças compridas e camiseta. Havia esquecido o meu colete no pólo de São José II e não sei porque, desta vez logo após verificar que havia esquecido o meu colete fiquei um pouco preocupado. Com o peso do coturno nos pés e a calças ficaria muito mais difícil nadar e o peso dos acessórios serviriam como chumbo me levando diretamente para o fundo no caso de um acidente.
Segui mesmo assim o trajeto. Quando avistamos Pari Cachoeira, notei que o rio estava mais seco do que estava nos dias anteriores. O receio da violência aparente destas cachoeiras era contrabalançado pela experiência do prático nesta região. Já havia cruzado as cachoeiras com um motor de 40 hp, mas com um de 15 hp nunca. Ao anunciar que iríamos cruzá-las minha preocupação aumentou, mas mesmo assim brinquei perguntando se o meu saco de dormir serviria de colete salva vidas. O prático acelera e vai de encontro às águas revoltas. Diminuiu um pouco a velocidade em um remanso logo ao lado do despejo das águas. Tão perto assim as águas se tornaram ainda mais assustadoras. Ondas enormes se formavam ao nosso lado e somente um estreito trecho desta cachoeira era navegável. Naquela hora aquele estreito trecho me parecia intransponível, mas com já havia cruzado aquelas águas sabia que era possível. Acelerando a todo o "vapor" o prático sobe a cachoeira, à medida que sobe noto que o motor não responde direito e durante uns segundos a voadeira
não sobe mais. Aqueles segundos pareciam eternos. Neste momento a preocupação já se transformara em um anúncio de acidente. A proa da voadeira estava no topo da cachoeira e foi quando uma das ondulações que se formavam no topo desta atingiu a proa. A voadeira que seguia seu caminho mesmo que lentamente, agora começava a andar de lado e para trás. Ao olhar para trás para ver se ainda tínhamos alguma chance notei que só um milagre nos impediria de afundar. Três ondas enormes se encontravam em nosso caminho. Já navegando completamente sem controle a favor da correnteza, atingimos a primeira massa de água. Água entrando por todos os lados anuncia o nosso destino. Antes de atingir a segunda onda que era a maior de todas e com certeza viraria a nossa embarcação saltei em direção à margem do rio. Logo após saltar atingi algumas pedras no fundo e me agarrei nelas como quem agarra a sua vida. Escalei algumas pedras na margem e me vi em segurança. Ao checar para ver se os outros também estariam em segurança vejo a voadeira de cabeça para baixo presa nas pedras, vejo o auxiliar de dentista que me acompanhava no remanso com o seu aparelho de som na mão e apoiado em sua bagagem que boiava lutando para se manter na superfície, e vejo também o prático que era o único com colete sendo levado corredeiras abaixo.
Ajudo o ACD a sair da água puxando com as minhas mãos até as margens de pedra e logo após corro para ver se conseguiria salvar o resto das coisas. Como estava, de coturno e calça comprida e não teria coragem de cair com todo este peso na água, tiro estes e de cueca e sem camisa pulo na água novamente para tentar recuperar nossas coisas. A voadeira já havia se desprendido da pedra e o prático já havia agarrado esta mais abaixo. Os dois se encontravam em uma pedra no meio do rio e enquanto isto, nossa única lona descia rio abaixo. Pulo na água e nado de encontro ao nosso barco e o prático. Ao chegar lá este já havia virado o barco, e várias de nossas coisas que ficaram presas em baixo do barco virado estavam em cima da tal pedra. Olho para os meus pertences e fico mais tranqüilo de não ter perdido nada. Ajudo o prático a tirar toda a água do barco e durante este tempo já estava anoitecendo já que chegamos na cachoeira bem na hora do crepúsculo. Com toda a água fora do barco remamos com nossos pratos que conseguimos salvar e remamos até a lona que tinha ficado presa em uma pedra mais abaixo. O motor, todo encharcado, já não funcionava mais. Após salvar a lona remamos até a margem em segurança.
Ofegantes após tanto trabalho descansamos na margem para avaliar as perdas. Roupas completamente molhadas e rancho completamente úmido. Alguns arranhões apenas. A única perda mesmo foi a capa que cobria o motor e a caixa de ferramentas do prático que foram as únicas coisas que não boiaram.
Cansados e encharcados seguimos caminho até o pólo. A voadeira ficou em um porto abaixo da cachoeira. Apesar de cansado estava muito aliviado de não ter acontecido alguma coisa pior. Com as roupas completamente molhadas cheguei no pólo para descansar e encontro nossos amigos de Pari. Mais tarde descubro que acidentes assim são relativamente comuns naquela cachoeira e ouço estórias de diversos outros acidentes semelhantes.
Vou para o meu quarto lá neste pólo que é o consultório dentário e somente de cueca molhada penso sobre o que se passou. Após o acontecido dá até para rir, mas com certeza uma lição ficou disto tudo: - Por mais tranqüilo que um rio seja, este é imprevisível e é sempre bom VESTIR O COLETE SALVA VIDAS.....................

Por uma vida melhor


Por Uma Vida Melhor

Mais uma viagem de trabalho à Cucuí,contudo não foi menos marcante que as outras. Desta vez tive a oportunidade de testemunhar uma estória de vida triste que começa mais ou menos assim:
- Mais uma família se desfaz. A difícil arte de viver em matrimônio e dividir uma intimidade tão grande com outra pessoa às vezes completamente diferente, mais uma vez cria obstáculos tão grandes que a convivência em conjunto torna-se inviável. Os filhos gerados desta união confundem-se e sofrem por ver aquela família que lhe parecia perfeita se desmembrar. Na época ela tinha apenas 17 anos. A imaturidade da idade era compensada pelos calos adquiridos durante toda a infância e adolescência de criança pobre do interior Amazônico. Separada a pouco tempo do marido, mais uma vez em sua vida, ela se vê sem alternativas de como criar os filhos no meio de uma crise econômica tão grande como desta época.A Amazônia é ao mesmo tempo uma terra de pobreza e riquezas, oportunidades e desilusões. Muitas pessoas enxergaram no brilho de um metal amarelo chamado ouro um portal para os dias de glória, uma chance de mudar de vida, de sair da pobreza para a riqueza. Como muitos, Jaciara, vamos chamá-la assim, viu neste brilho uma chance de poder mudar e dar uma vida melhor aos seus filhos e a si mesma. A febre do ouro é forte, e mesmo grávida do ex-marido resolve arriscar-se como cozinheira em um garimpo na Venezuela.O deslocamento da sua cidade natal, São Gabriel da Cachoeira, até o porto do garimpo na Venezuela é demorado. Dias se passam e o desconforto da pequena embarcação deixa seu corpo dolorido. Finalmente chegam no tal porto. Como se não bastasse a parte mais difícil da viagem apenas começara. Às oito horas de caminhada, que separam o porto do garimpo ao local de
garimpagem encravado no meio da mata Venezuelana foram feitas por meio de trilhas aonde os aclives e os declives se alternam de tal maneira que o corpo já cansado da viagem, ficasse anestesiado com o peso da bagagem apesar do pequeno volume de roupas que possuía. Naquela trilha, 5 quilos pesavam como 30 kg. A umidade da floresta a sufocava e a respiração ofegante só era interrompida por pensamentos breves, mas encorajadores de que aquilo era só uma provação para um futuro promissor que a aguardava. À medida que subia o frio tomava o lugar do calor. Mesmo assim o suor escorria pela sua face. Ao chegar no local, a imagem do local a emudece. Homens em buracos enormes, cobertos de lama cavam a terra. Apesar do frio a lama parece servir de cobertor e o trabalho pesado ajuda a esquentar gerando calor em seus corpos. Homens com suas batéias e caixas de garimpo procuram encontrar um
pedaço de terra que dê bamburro (grande quantidade de ouro). Árvores centenárias vão ao chão dando lugar a poças de lama gigantescas. A floresta sucumbe ao poder destruidor da raça humana. Apesar da visão grotesca à frente de seus olhos, está segura de que seu futuro está aqui. Assume seu posto de cozinheira e nos momentos de folga utiliza a bateia alheia para conseguir algumas gramas a mais de ouro par si própria. Ao completar quatro meses de gravidez, ainda trabalhava. Uma das escavações a atraía mais do que as outras. Havia uma grande quantidade de ouro naquele buraco, mas este não estava mais sendo usado já que uma grande pedra ameaçava a rolar. O magnetismo do metal foi mais forte. Seus sonhos estavam se concretizando com a boa quantidade de ouro que havia conseguido e a possibilidade de conseguir mais e mais, a cegava diante dos riscos. Um dia, pegou a bateia e entrou naquele buraco enorme. Os pensamentos corriam em sua mente e apenas alguns minutos arriscando-se poderiam lhe valer mais algumas gramas de ouro. Enquanto recolhia mais ouro seus sonhos aumentavam. De repente, um estrondo! Ao olhar para cima vê seus sonhos desabarem junto com aquela pedra e mais alguma quantidade de terra. O instinto de sobrevivência lhe vem à tona e a fazem se movimentar pela sua vida. Não havia mais tempo! Seus sonhos desabaram com toda a força que eles tinham, junto com aquela pedra bem na área da sua cintura. Alguns dizem que logo após o acidente, já morta, ainda parecia procurar um meio de sair dali e sobreviver. Devia estar pensando, eu sou tão jovem! Ainda não é minha hora! Quero encontrar meus filhos! Quero sair daqui! Não adiantou! O peso era muito grande e esmagou-lhe a sua vida e a vida que estava dentro de seu útero à espera de nascer. O caminho de volta para casa não foi tão cansativo para ela. Carregada pelos seus dois parentes do garimpo, não mais teria que andar. O corpo já não mais sentia as dores ao ficar horas no chão duro da voadeira (barco de alumínio). Enquanto isto, seu corpo aumentava de volume já que os gases da putrefação faziam pressão sobre a sua pele. Foi aí que eu, Eduardo e ela, Jaciara - Vamos chamá-la assim - nos encontramos. Aqui na fronteira do Brasil com a Venezuela, no posto da polícia federal. Sua face de cor arroxeada deixava transparecer a difícil vida pregressa que levara. Apesar da vida difícil, estava claro que não deixava de se cuidar. Ela era vaidosa! Mesmo morta via-se sobrancelhas bem feitas e pintadas, e a marca do batom borrado misturado ao sangue que outrora escorrera da sua boca e nariz.
Vi seus sonhos ruírem naquela face moribunda e naquele corpo putrefato. De volta para casa, "Jaciara", de origem indígena, voltaria com a voadeira do distrito no qual eu trabalho de encontro aos seus filhos. As poucas gramas de ouro conseguidas - total de 200g - nestes meses de trabalho serviriam para amenizar a perda e dar um pouco mais de conforto a sua família durante pelo menos um tempo.
Já Jaciara, junto com seus sonhos, teria que se despedir de seus parentes da pior forma possível e quem sabe, conseguir uma vida melhor em outro plano perto de outros parentes que também já se foram.Poucos conseguiram o tão sonhado sucesso prometido pelo ouro, muitos não. Muitos acabaram igual Jaciara, sem sucesso, sem sonhos, sem vida................

TEMÍVEL CASTANHO


TEMÍVEL CASTANHO

Mais uma aventura nas entranhas da Amazônia. Divirtam-se!!!!!!
A artéria do noroeste amazônico, o rio Negro, é a principal via de transporte para o interior cheio de vida desta região. Dele partem artérias menores que são seus afluentes até chegar aos capilares da floresta, os igarapés.
Nosso destino já estava traçado, e lá pelo dia 07 de setembro de 2003,
faríamos todo o caminho até chegar a estes capilares. Primeiro subiríamos o
Rio Negro até o ponto aonde ele se encontra com a foz do Rio Uaupés, que é um muito importante e habitat de grande parte das etnias da região. Seguiríamos caminho através do Uaupés e entraríamos em outro afluente importante, o Rio Tiquié. Rio Tiquié, casa da etnia mais respeitada e influente, os Tukanos. Estes estão no topo da hierarquia das etnias segundo a mitologia regional indígena.
Rio de inúmeras curvas, alguns dizem que são 300 o total de curvas, o que faz dobrar o tempo de viagem. Rio de cor castanha, diferente dos demais rios da região de cor predominantemente negra.
Até o nosso destino, o pólo-base de São José II neste mesmo rio, foram 1 dia e meio de viagem pernoitando no rio Uaupés, no pólo-base de Taraquá. Ao chegarmos em São José II, muito cansados da viagem, nos deparamos com os 92 degraus de escada , encravada na beira do rio por onde teríamos que levar todos os nossos pertences até o topo. Material como rancho, botija de gás, roupas, material odontológico e galões de gasolina que teríamos que subir até o pólo. Quase enfartei quando vi aquilo. Mais tarde soube que muitas das comunidades que atenderia no rio Tiquié se encontravam no topo de elevações muito parecidas com aquelas. Tentei aliviar o pensamento dizendo que seria uma boa oportunidade para fazer exercícios.
Antes da viagem para o Tiquié já me prepararam que aquela era uma das áreas mais extensas e difíceis de toda a área do distrito de saúde indígena, mas não devido ao rio Tiquié, e sim a um igarapé de nome Castanho, o temível castanho e outros igarapés. Descobrimos mais tarde que este curso de água é a razão pela qual o Tiquié tem suas águas de cor castanha já que este deságua no rio em questão.
Na primeira oportunidade após um descanso estratégico, conversamos com a equipe médica para verificar as condições do igarapé e checar se seria possível seguir todo o seu trajeto. Se conseguíssemos chegar até a última comunidade seríamos a primeira equipe odontológica a chegar por via fluvial para o atendimento. As outras viagens foram feitas em missões aéreas.
As comunidades deste igarapé são de origem diferente da dos Tukanos, ribeirinhos do Tiquié. Em sua maioria são Yohupdas, que junto com os Hupdas da margem direita do rio Tiquié e os Dow, no Rio Negro, formam o tronco lingüístico Maku, ou melhor dizendo, Japurá -Uaupés. Maku é um termo pejorativo considerado ofensivo por eles e que a tradução deste é evitada. Possuem esta denominação de Japurá - Uaupés já que vivem entre os rios Japurá, afluente do Solimões e o grande Rio Uaupés. São povos seminômades, exímios caçadores e conhecidos por muitos como os "senhores dos caminhos". Transitam entre suas comunidades e chegam a passar dias andando na floresta. Vivem no interior da floresta, afastados das margens dos grandes rios, ao contrário da maioria das etnias da região.
Trabalhar com saúde indígena sem possuir um conhecimento prévio do modo de vida destes povos e a sua cultura é ignorar todo um povo e suas tradições, é o mesmo que pedir para que seu trabalho não seja bem vindo na região. Através de um curso de antropologia, leitura sobre a região e a área aonde iria trabalhar e conversas com amigos passei a conhecer e respeitar o modo de vida deles e assim creio eu que passei a ser respeitado por eles. Pode acreditar que se eles não forem com a sua cara, exigirão nos conselhos distritais que a sua pessoa se retire de lá.
Voltando aos Yohupdas, são uma etnia mais arredia, que pouco se interessa pela influência e arrogância de nós "brancos". O contato mais freqüente com esta etnia está apenas começando e eles ainda são um pouco desconfiados.
Iniciamos nossa jornada rumo ao interior do igarapé alguns dias após a nossa chegada em São José II. No mapa dava para ter uma certa noção da grande extensão deste igarapé, mas de maneira alguma conseguiria imaginar o que estava por vir olhando apenas no mapa. Logo na foz do nosso amigo, Castanho, a cor castanha do curso de sua água se acentua e um boto nos recepciona o que denuncia a quantidade maior de vida animal presente no local. Os animais selvagens, devido a um maior número de habitantes nas margens dos grandes rios, são caçados em maior número, e por isso adentram o interior da floresta na tentativa de se protegerem. Era para aonde nós estávamos indo, na direção dos animais. Não é a toa que o maior número de acidentes com animais peçonhentos se encontram nas populações Yohupda e Hupda.
Jararacas são freqüentes e a tão temível surucucu se encontram na região. Esta última só se encontra bem no coração das florestas e você, não queira encontrar numa destas. Cobra que chega a medir alguns metros, extremamente agressiva, de comportamento territorial ou seja, se alguém invadir seu território e esta não estiver de bom humor no dia, ela é que vai te buscar, sem que você precise sequer passar perto. Dá o bote uma vez e espera; se a "presa", no caso você, se mexer é outro bote na certa. Possui veneno que tanto dá necrose tecidual quanto tem ação neurotóxica e é aí que mora o perigo. Em grande parte das mortes ocorridas por animais peçonhentos, a responsável é a surucucu . Pior do que ela só a coral, que parece uma cobra de brinquedo, não dá o bote, possui a boca pequena e não consegue abocanhar áreas grandes, mas se for picado por uma delas, no dedo ou no calcanhar, e não tiver socorro por perto é melhor já ir cavando a própria cova, por que dentro de umas duas horas já deve estar conversando com o nosso Senhor todo poderoso, ou com o rival dele.
Após as nossas boas vindas dadas pelo boto, outro elemento muito importante nos igarapés já mostra que está lá para atrapalhar, atrasar ou impedir nosso caminho até o final do igarapé. Nossa voadeira, agora menor que a anterior e com um motor 15 HP, atinge um tronco submerso nas águas turvas do castanho, sem maiores danos. À medida que adentramos o igarapé a vida se revela de diversas formas durante o trajeto. Mais botos, cor de rosa ou não, lontras (ariranhas), araras, papagaios e aves de diversos tipos estão nos acompanhando nesta jornada. Quanto mais entramos mais estreito o igarapé fica.
Paramos na comunidade de Santa Rosa, de origem Tukana, para pedir ajuda ao agente de saúde indígena daquele local. Ninguém da minha equipe havia entrado no castanho antes e nós precisaríamos dele mais tarde como tradutor da língua, já que os Yohupda em geral não falam o português. O agente de saúde, Anacleto, concorda em seguir viagem conosco.
Passando a comunidade de Trovão, na metade do caminho, o igarapé , que antes era até razoavelmente largo, estreita-se de tal forma que certos trechos possuem pouco mais do que a largura da voadeira. A luta entre a floresta e o rio se torna evidente. A floresta tentando retomar o que foi tomado pelo leito do rio e o rio por sua vez na tentativa de resistir a esta ação. Troncos de árvores grandes deitam-se sobre seu leito, árvores menores e suas copas pedem espaço para poderem alcançar um raio de sol sequer naquele cobertor de folhas densas que são as folhas das árvores de maior porte. E os habitantes destas copas e troncos, à medida que passamos insistem em pegar uma carona. Aranhas, besouros, kabas (um tipo de marimbondo) e até sapos caem nas nossas cabeças cada vez que a voadeira toca em uma destas copas. Passando por baixo de troncos e às vezes até por cima destes a ponto de termos que empurrar a voadeira ou a cortar os troncos menores com um machado, abrimos caminho entre a vegetação e as curvas do igarapé. Aliás, muitas curvas! Estas formam um labirinto de pequenas entradas em que o caminho correto a seguir só é denunciado pelo suave movimento da correnteza.
Paramos na beira para um almoço breve e 10 horas depois de nosso início de jornada conseguimos chegar à inatingível São Felipe. Após alguns tombos, do auxiliar e do AIS, na água e muitos troncos depois, chegamos ao nosso destino. Apesar desta ser a comunidade mais distante de todas elas, ela é de origem Yepamaçan que são parentes dos Tukanos. A recepção foi calorosa com um jantar de quinhanpira (peixe com pimenta), curadá (um tipo de beiju feito de goma de tapioca, delicioso!) e farinha. A culinária local é basicamente constituída destes elementos e outros derivados da mandioca e mais algumas frutas e caças da região. Como não tem geladeira, a caça e a pesca, são conservadas moqueadas, ou seja, ficam a noite inteira debaixo de uma fogueira em brasa aonde desidratam e desta maneira consegue-se conservar a comida por mais tempo. Algumas das comidas locais apesar de bastante simples são muito saborosas. A paca moqueada ou cozida é uma delícia e o jacaré é outra especiaria que vale a pena saborear. Larvas de Kaba, apesar da aparência, também são saborosas e deixam um gostinho doce na boca.
Dormimos em uma maloca, completamente aberta, em uma noite fria. Se não fosse meu saco de dormir a noite não teria sido boa. Pela manhã, atendimento tranqüilo e pude exercitar um pouco do meu Tukano, já que necessitar do tradutor toda hora em que você precisa falar alguma coisa é muito cansativo.
Terminado o atendimento arrumamos nossas coisas para a jornada de volta. Paramos na comunidade Hupda de Guadalupe para atendimento. Casas bem simples e 2 pessoas para o atendimento. Após o atendimento voltamos para o igarapé para continuarmos a viagem. O caminho de volta parecia ser outro. O nível de água do igarapé havia subido um pouco o que muda o perfil do trajeto. Troncos que antes estavam aparentes agora estavam submersos, troncos que antes havíamos passado por baixo, agora teríamos que cruzar por cima. Em um destes troncos que a voadeira passou por cima, foi a minha vez de dar um mergulho nas águas do igarapé. Cortando alguns galhos com o meu facão, ou terçado, que é um termo mais usado localmente, perdi o equilíbrio e caí. Todo encharcado seguimos caminho.
A partir deste instante, parece que Boraró, o terrível espírito das florestas que ataca as pessoas com dardos e flechas mágicas, acordou. O céu, antes claro, se tornou cinza. O vento começou a soprar forte, o que na Amazônia sempre indica que vem tempestade por aí. As copas das árvores mais altas começaram a balançar furiosamente. O ranger dos troncos encostando uns nos outros soa alto e a imaginação começa a trabalhar vendo uma daquelas árvores gigantescas caindo sobre a minha cabeça. Gotas grossas começam a cair e logo após o céu desaba produzindo aquelas chuvas que só o equador pode produzir. Eu que já estava todo encharcado me molhei mais um pouco. A viagem com aquela chuva que chega a machucar pareceu não ter fim. Mas como quase todas as chuvas torrenciais por aqui, após alguns muitos minutos já haveria se extinguido e a próxima comunidade para o atendimento já estava próxima.
São Joaquim era esta próxima comunidade. Originalmente de etnia Yohupda eles se abrigavam em casas minúsculas de palha sem parede e com quase nenhum pertence à vista, somente uma pequena fogueira no centro de cada casa, alguns cestos e algumas redes eram vistos. Desembarcamos na comunidade e a chuva resolve nos perturbar de novo. Abrigo-me em uma das cabanas e tenho como companhia um gato, um cachorro e meu auxiliar. A chuva continua caindo forte, e as goteiras da casa aparecem e me fazem pensar como aquelas pessoas dormem ali em uma noite fria e chuvosa. Ao mesmo tempo em que a brasa é soprada pelo vento e ganha força, a goteira que cai sobre o centro da mesma a faz diminuir de intensidade.
O tempo passa e a chuva se vai do mesmo jeito que chegou, em um piscar de olhos. O atendimento é feito em uma casa com telhado de zinco tão cheio de furos que mais parece uma peneira. Ainda bem que a chuva se foi! Seguimos caminho logo após o atendimento para pernoitar na comunidade de Trovão.
No pé de uma serra esta comunidade de ares serranos nos recebe com a tão famosa e consumida quinhampira, de queimar os lábios. À noite, atamos nossa rede em uma escola feita de barro e madeira. Trovão era a última comunidade do Castanho a possuir radiofonia. Ao deitarmos na rede podíamos ouvir o “mosaico “ lingüístico do rádio. Baniwas, Tukanos, Wananos, Karapanãs, Barés e tantas outras etnias se comunicam através do único meio de comunicação entre eles aqui na floresta, o rádio. A comunicação é feita na língua nativa e a interferência de uma rádio colombiana na freqüência complica ainda mais o entendimento das línguas. O sono vem e adormeço na rede quentinha dentro do meu saco de dormir.
Após esta comunidade as coisas se tornam mais fáceis, e os outros dias passamos sem maiores problemas. Final de semana, e finalmente chegamos no pólo base. Descanso para variar um pouco, para me preparar para a próxima semana, em que teremos que enfrentar o igarapé Taraquá, a caminhada mais longa do médio Tiquié..............