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terça-feira, 18 de agosto de 2009

PASSO A PASSO II


Poeira, Mata...
CONTINUANDO MEUS PASSOS.

Às 17h00min horas subo na caçamba da caminhonete S10 do vereador, junto com o filho do secretário de obras de oito anos e a babá dos filhos do mesmo secretário.
A caminhonete estava forrada com um colchão e seguimos com certo conforto, mas não antes de uma chuva ameaçar a nossa tranqüilidade. Felizmente ficou só na ameaça.
À medida que o carro entra na estrada de chão, olho para a nuvem de poeira que ficava para trás, para as fazendas e florestas do trajeto. A lua crescente já despontava no céu ainda claro.
A caminhonete "patrolava" a estrada como dizem por aqui, o que quer dizer que estava rápida e passando por cima de todos os buracos. Isto me fez lembrar muito a minha infância quando meu pai passava por cima de todos os quebra molas da estrada em nossas viagens de família.
A cada buraco maior meu copo decolava meio metro do chão enquanto o menino dormia frente
aos pulos e a babá tentava se acomodar da melhor maneira possível.
A viagem continua o sol se despede, a lua e a escuridão dominam o cenário. A poeira não se vê mais e o barulho do motor e da trepidação do veículo misturava-se com o som dos grilos, sapos e
pererecas.
O carro segue em frente com as corujas (bacuraus) voando rente ao teto do carro tentando desviar do mesmo. Estas corujas ficam geralmente nomeio da estrada à noite, fazendo não me pergunte
o que.
Duas horas de viagem, chego à vila picada bastante cansado e descubro que o ônibus escolar não veio trazer as crianças esta noite. Seu Ailton, o vereador, oferece a sua casa como pouso
esta noite.
Vereador de interior chega a ser até engraçado. Conhece desde a pessoa mais ilustre até o mais pé de chulé da cidade. Bastante
comunicativo acho que como todo vereador deve ser, me leva a um boteco aonde servem comida caseira. Lá, jantamos arroz, feijão e uma costela bastante saborosa, e olha que eu não gosto de carne gordurosa.
Após o jantar, o qual não me foi cobrado, sentamos para tomar uma gelada e jogar conversa fora com seus companheiros.
Este era um boteco típico de interior, feito de madeira e com uma mesa de sinuca velha aonde um grupo de homens se divertia. Aliás, neste tipo de bar praticamente não se vê uma alma feminina, somente homens bebendo , falando alto e esporadicamente um corpo esticado no chão,
o famoso pé inchado, pé de cana, pinguço ou qualquer outro adjetivo que qualifique o indivíduo que ultrapassou os limites do seu corpo através da ingestão excessiva de álcool.
Durante a conversa fico sabendo da história de vila Picada. O vereador ao meu lado de nome Ailton Picada, foi o fundador do local. Iniciou sozinho, ele e a esposa, com uma borracharia na beira da estrada de chão. Após um tempo a borracharia passou a ser um ponto de referência para os fazendeiros e caminhoneiros que trafegavam pela região.
Lutaram mais tarde para trazer energia elétrica para a região, depois para trazer a escola para as crianças das fazendas e devagar a vila foi crescendo.
Hoje, a vila já tem dois mercados, vários bares, energia elétrica, uma serraria de propriedade do vereador, escola e diversas residências.
Apesar de possuir uma caminhonete e uma serraria,a casa de seu Ailton é bastante simples, com chão de cimento cru, parte da estrutura em madeira, fogão a lenha e uma varanda com muito espaço, tipo palhoça. Adormeço na palhoça em uma rede e mais tarde seu Ailton me cede um cobertor.
Levanto-me cedo em uma manhã fria. Tudo leva a crer que o verão começa a se despedir. Alguns me dizem que após os primeiros dias de frio, as chuvas começam a cessar, os mosquitos a diminuir, o frio a aumentar e os carrapatos a chegar. Não saia na mata se não quer ficar coberto por minúsculos carrapatinhos. Para quem trabalha
na roça, sós lamentos, não tem escapatória!!!
O ônibus que vai para o destacamento militar de fortuna,próximo 9 km da aldeia, só passa ao meio dia.
Decido adiantar as coisas e seguir para beira da estrada para pegar uma carona.
Paro debaixo de uma goiabeira e divido meu café da manhã, goiabas, com galinhas ciscando e um bando de pequenos periquitos na copa.
Duas horas de espera na estrada e somente um
veículo em direção contrária.
Desde que o acesso principal à Bolívia foi mudado para San Matias, perto da cidade de Cáceres no Brasil, o movimento da estrada caiu muito, mas volta e meia um caminhão ou uma caminhonete ainda pegam a estrada em direção as fazendas do trajeto.
A fronteira é tão bem guardada que qualquer um, seja a pé ou de carro, passa sem ninguém incomodar.
Mais tarde, como que em um comboio, passam três caminhões.
Minha gandola (jaqueta) camuflada do exército me ajuda a parar o primeiro dos caminhões. Seu destino era uma fazenda próxima ao local para o qual me dirigia. A filha de um fazendeiro, dono de
fazendas de soja no norte do estado estava montando uma fazenda de pecuária no local. Terras virgens, compradas há alguns anos por $150,00 reais o hectare, desmatadas e preparadas para o gado por $300,00 dólares de custo o alqueire ou hectare (não me lembro muito). Isto segundo o meu companheiro de viagem, o caminhoneiro.
A viagem segue por uma hora e meia e a conversa flui até o meu destino. O ponto de parada é uma pequena estrada de acesso para a aldeia.
Agradeço e sigo o meu caminho.
Cinco km me separam da comunidade em uma estrada que atravessa o cerrado e florestas de transição. Somente eu, minha mochila e minha botina na estrada.
À medida que caminho, o dinheiro público vai sendo desperdiçado no meio do caminho. Já poderia estar no posto da aldeia realizando atendimentos e estou aqui, fazendo turismo de aventura devido à lentidão e a incompetência do poder público.
Alguns podem estar se perguntando como posso me sujeitar a tal coisa. Bem, são vários os motivos pelo qual ainda estou aqui. Entre eles estão minha família e a preferência em atender pessoas mais simples à madames da sociedade. É
também um modo de conhecer diversos lugares e outras culturas que a maioria das pessoas comuns da cidade nunca chegarão a conhecer. Lugares aonde só tem acesso quem trabalha no local como o pessoal da Funai, do meio ambiente e o pessoal da saúde.
Enquanto caminho penso nas pessoas que estão na academia pagando para fazer um pouco de esteira para emagrecer, e eu aqui malhando de graça, ou melhor, sendo pago para isto, além de estar
respirando o ar puro e em contato direto com a natureza. Este pensamento me ajuda a seguir em frente feliz!!!
A caminhada está tranqüila, pois é um dia fresco.
Chegando na primeira comunidade indígena, fui informado que a enfermeira se encontra no posto de
saúde e como não há nenhum veículo disponível, pernas para que te quero!!! Mais três quilômetros e meio.
É, MAIS UM POUQUINHO EU CHEGO LÁ. PASSO A PASSO!!!!!

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

PASSO A PASSO


Passo a Passo eu chego lá.
Estamos na véspera da Páscoa de 2005 e todos sabem que se o serviço público já é lento normalmente, em véspera de feriado nem se fala.
Aqui estou eu, separando os medicamentos e materiais da minha próxima viagem em um dos meus dias de folga para conseguir seguir o cronograma de viagem. Se não conseguir hoje, numa sexta feira do dia 18 do mês de março, entraremos na semana do feriado aí não conseguirei mais.
Parte do material que havia pedido nem foi comprado. O dinheiro da compra dos produtos alimentícios ficou emperrado na nossa amiga burocracia e tivemos que desembolsar dinheiro do próprio bolso até que este fosse liberado.
Aos trancos e barrancos conseguimos organizar as coisas e marcar o dia de partida, dia 20 de março,domingo.
Desta vez, devido a falta de veículo do governo para o trabalho, teremos que ir de ônibus.
Algumas horas antes de irmos para a rodoviária, me liga o motorista da nossa equipe falando que eu era a única esperança. Alguém da coordenação solicitou o veículo para uma viagem e este teve que atende-lo. A solução encontrada seria usar meu carro particular para movimentar as caixas.
Achei tudo isto um absurdo,mas como tudo já estava marcado, passagens compradas, respirei fundo e fui pegar as coisas.
Tudo resolvido até a rodoviária, e a enfermeira e o motorista enfrentaram mais uma luta, como levar 20 caixas de medicamentos e materiais até o portão de embarque sem gastar dinheiro do próprio bolso?? A solução foi encenar que a enfermeira estava grávida para tentar conseguir um carrinho que havia disponível para gestantes.
Como nunca fizeram nenhum curso de teatro falharam em seu primeiro teste e tiveram que desembolsar.
Minha passagem estava marcada para as 23h30min. Marquei no último horário para passar mais tempo com a família. O problema estava no horário de chegada ao destino que seria às 04h30min da madrugada da segunda.
Entrei no ônibus, segui viagem, dormi muito bem, acordei na hora exata.
Abri os olhos dentro da rodoviária de Porto
Esperidião. O motorista do ônibus não ligou a luz nem avisou aos passageiros do destino. Se dormisse um pouco mais iria parar em Pontes Lacerda, a qual fica a algumas horas de Porto.
Horário de chegada, 04h30min da manhã, cidade completamente deserta.
Porto é uma cidade pequena com aproximadamente 10000 hab. Em sua zona urbana e destes 10000, não havia uma alma viva vagando por suas ruas neste horário. Ando sem destino como quem quisesse conhecer a cidade. Depois, sento no banco da rodoviária que na verdade é uma esquina de uma lanchonete e espero o dia clarear.
À medida que as horas passam, a cidade acorda. Devagar, o movimento nas ruas aumenta. Espero a padaria abrir para mais um café com leite e pão com presunto e queijo na padaria da esquina.
Para seguir viagem até a aldeia precisamos do nosso Jipe - carro que fica na aldeia para locomoção interna - o qual está na oficina. Andamos até lá e nada de jipe, nada de peças para o conserto. Maravilha, mais um contratempo!!!
A equipe de pesquisa do inseto barbeiro da prefeitura seguirá até a aldeia, mas só a enfermeira consegue embarcar já que só havia vaga para mais um na caminhonete. E lá vai ela, de carona...
Eu e o motorista de área ficamos, já que o secretário de obras garantiu que a peça chegaria na segunda à tarde.
Enquanto esperamos, descanso um pouco no hotelzinho da cidade.
Mais tarde, depois do almoço, seguimos para a oficina e nada!!! Ninguém sabe quando a peça e o carro estarão prontos para viagem.
Um dos vereadores do município está de partida para Vila Picada a qual fica a meio caminho da aldeia. Percebo uma oportunidade! A minha intenção é pegar carona até na vila e depois carona de novo com o ônibus escolar até a comunidade junto com os índios que estudam lá.

Passo a passo ainda chego lá. Até a próxima para continuar.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

NO LIMITE


Já que o nome do meu Blog é Crônicas da Floresta, resolvi fazer um pouco de crônica hoje apesar das outras postagens não se enquadrarem em uma crônica.
Domingo passado eu assisti na televisão o programa no limite, só por curiosidade já que passei tempos na floresta, quase no limite e fiquei curioso em saber como os "Braredos" - Brancos - da cidade se sairíam no meio do mato.
Fiquei perplexo ao ver um homenzarão chorar logo após matar uma galinha para comer. A madame ficou tão ruim que passou mal. Será que é nisso que estamos nos transformando na cidade? Será que ele nunca comeu uma galinha? É brincadeira!
Agora estou curioso para saber se até o final do programa, ele não se declarará homosexual. Ou será que isto é reflexo de muito tempo inserido no concreto sem qualquer outro tipo de experiência.
Antigamente os homens eram mais embrutecidos iguais aos nordestinos do sertão ou os índios da floresta, agora já existem os homosexuais( nada contra), os bisexuais, os pan sexuais e agora os mais contemporâneos metrosexuais.
Antigamente eu criava meus cravos como se fossem bichinhos de estimação e agora que represento uma empresa farmacêutica que tem em uma de suas preocupações o ramo da estética, estou fazendo até peeling para não sair mau na foto.
Acho que quando eu começar a chorar por causa de uma galinha será a hora de me preocupar e passar mais uma temporada na floresta para recuperar a macheza!!!!
Ainda não é a hora!!!!!!


Eduardo Ottoni fez peeling com ácido glicólico a 30%, mas como é macho, em vez de ficar 5 minutos com a cara ardendo ficou 15 e agora está com a cara toda ferida....
O apresentador de no limite é viado.

domingo, 2 de agosto de 2009

BOCA SECA


BOCA SECA

Na crônica anterior foi a vez das chuvas em território pantaneiro. Nesta elas chegaram em território chiquitano.


Olhando através da janela do meu consultório, vejo gotas de chuva caírem, a princípio um pouco tímidas, mas logo depois desabam em uma forte chuva.
O cheiro de terra molhada percorre as minhas narinas me fazendo lembrar dos tempos de campos verdes e um sorriso discreto se estampa em meu rosto.
Fazem 3 meses que a última gota de chuva caiu em solo chiquitano. O córrego da onça, antes fonte de preocupações e palco de cenas engraçadas já não preocupava mais. Seu solo seco tal qual solo nordestino em tempos de seca levanta poeira o que não lembra em nada a lama fétida dos tempos das águas no qual o nosso veículo atolava frequentemente.
A paisagem transfigurada da natureza local mostra a importância da água para a vida e demonstra também o quanto a mesma natureza é sábia. Para evitar a perda de água pela transpiração as folhas secam e caem fazendo com que as árvores pareçam mortas. Os pequenos arbustos secam por completo e até desaparecem, mas raízes robustas guardam sua fonte vital esperando justamente estes primeiras gosta que caem agora pela minha janela.
Nos tempos de seca a paisagem é pálida e embaçada. O ar é contaminado pela fumaça das queimadas as quais são herança de uma agricultura medieval e da ânsia do homem em transformar florestas em pastos. A fumaça e a poeira pairam no ar irritando os olhos de muitos e causando doenças respiratórias em outros.
Diversas vezes, noticiários anunciam que a umidade do ar é crítica ( menor que 20 % ) e chega a níveis de 9 a 12 %. Com esta umidade os lábios ressecam e a mucosa do nariz chega a sangrar. Apesar de sentir pouco os efeitos da poeira, fumaça e baixa umidade relativa do ar o número de atendimentos nos postos de saúde contradizem o que meu corpo fala.
As “ondas” repentinas de frio seco completam o quadro.
Mas nem tudo são males no inverno do sudoeste do Mato Grosso.
No meio dos tons pastéis florecem o ipê e a carijó. Cores vivas como o roxo e o amarelo brilhante se destacam. Ipês brancos dão o meio tom na paisagem diante dos meus olhos. As cores trazem a alegria de volta e mais uma vez mãe natureza dá um show de sabedoria adquirida nos milhões de anos de evolução. Algumas plantas florecem no meio da seca, formam suas sementes no final desta para que , com o início das águas, as mesmas possam germinar.
Caminhar na mata nesta época é tarefa fácil já que somente as árvores estão de pé. O difícil é não ser notado aonde em cada passo que se dá, galhos e folhas secas denunciam em bom som a sua presença. Qualquer animal maior é ouvido a distância.
Os tempos de seca são tempos de caça fácil já que a pouca água e a pouca comida limitam o seu território. Qualquer fonte de água ou árvore frutífera que tenha frutos, o que são poucas, pode ser um bom ponto de ”espera”. Caça-se caminhando pelas fontes de água remanescentes ou “esperando” à noite geralmente em uma rede armada a alguns metros acima do solo perto de uma fonte de comida.
Enquanto a chuva cai, lembranças da seca e dos tempos de chuva se misturam em minha memória.
Alguns dias após a primeira chuva, cai a segunda, e como em um passe de mágica tudo se transforma novamente. A vegetação rebrota com uma rapidez incrível e em poucos dias a paisagem outrora pálida volta aos seus tons verdes.
O som da mata também ganha um reforço poderoso com as chuvas. Antes adormecidas, as cigarras dão o acorde maior nas florestas suprimindo o som dos jaós, siriemas, macacos bugios e japuíras que dominavam o som das florestas na época da seca.
Com as águas, o ar começa a limpar, a vida a se mostrar, a lama a se formar e os mosquitos e cobras, os quais não deixaram nenhuma saudade nos tempos de seca, a reaparecer. O ciclo se completa!!!!!!!!
Ano a ano a natureza nos dá a chance de aprendermos com ela, e ainda assim temos dificuldades como um aluno que reprova um ano após o outro...


FIM

domingo, 26 de julho de 2009

MUDANDO AS ESTAÇÕES


MUDANDO AS ESTAÇÕES


As primeiras chuvas de outubro começam a cair novamente. Mais um ciclo da natureza se completa no centro oeste brasileiro. As marcas da secura nas terras pantaneiras apagam-se e o chão volta a ganhar o aspecto encharcado que deu o seu nome.
Minha próxima entrada para a terra dos Bororos e dos Guatós está marcada para a segunda metade do mês de outubro (2006) e a chuva que cai começa a preocupar os coordenadores da organização não governamental para a qual eu trabalho. Não é a toa que o pantanal recebe este nome. Terra difícil de ser domada nesta época do ano, permanecendo cada vez mais encoberta de água à medida que a estação das chuvas avança. Ainda existem trechos secos e precisamos aproveitar ao máximo o período que podemos entrar no território indígena por via terrestre.
Marcamos para o dia 15 de outubro a nossa entrada.
Mochila nas costas, barraca na mão e materiais de trabalho já na carroceria do veículo sinalizam que estou pronto para mais um período de trabalho e aventuras. Apesar de ser fisicamente cansativo e mentalmente estressante devido à distância da família, o trabalho com indígenas tem suas compensações. O aprendizado constante por estar vivendo inserido em uma outra cultura e um outro ambiente nunca deixa a monotonia das quatro paredes do consultório reger o dia a dia. É quase uma aventura constante, com seus riscos e prazeres.
A barraca ao invés da rede serve para enfrentar os mosquitos, constantes nesta época.
A antiga Toyota bandeirantes, acostumada a enfrentar estes terrenos alagados se encontra avariada na oficina sendo o único veículo disponível uma Nissan frontier novinha em folha.
As diversas estradas de acesso ao interior pantanal são estradas de terra. Saindo de Cuiabá seguindo pelo lado oeste do rio Cuiabá temos dois acessos. Um é seguindo pela transpantaneira que é uma estrada em boas condições para uma estrada de terra que leva até porto Jofre, bem na divisa com o estado do Mato Grosso do Sul, o outro acesso é pela estrada que leva até Porto cercado e onde se encontra o Hotel Sesc Pantanal às margens do rio Cuiabá. Este hotel é de ótima qualidade e em parceria com o poder público está asfaltando sua estrada de acesso, mesmo depois da resistência de grupos ambientalistas. Poconé é o município de entrada para estas duas vias. Nenhuma destas alternativas nos leva até o nosso destino, a reserva indígena Perigara, a qual fica do lado leste do rio Cuiabá, às margens do rio São Lourenço.
As únicas vias de acesso por terra até Perigara começam pelo município de Santo Antônio de Leverger. Uma segue por entre as fazendas da região até alcançar o povoado de Joselândia no município de Barão de Melgaço e o outro acesso passa pelo distrito de Mimoso, alcançando mais à frente o mesmo povoado de Joselândia. Apesar de mais longa esta segunda via é a melhor escolha por estar em melhores condições.
Depois de Joselândia, tem o povoado da pimenteira e é a partir daí que a aventura realmente começa.
Carro completamente abarrotado de carga, saímos de Cuiabá de manhã para Santo Antônio de Leverger indo em direção à Mimoso, passando por Joselândia e seguindo até a pimenteira. Até aí o “passeio” foi tranqüilo, apesar da estrada que leva até Joselândia estar em obras e a chuva que a fez virar um sabão. O segredo era maneirar na velocidade e tentar manter o carro na direção certa. Qualquer deslize era ficar preso na vala lateral da estrada. Já que esta estrada cruza terras alagadas, a mesma teve que ser aterrada em alguns metros para que ficasse livre dos constantes alagamentos que ocorrem nesta época do ano.
Pimenteira à vista. Apenas algumas casas, uma pequena escola e muita área de pasto. A última porteira do povoado é o limite entre as estradas razoavelmente transitáveis e a área de rally total. Atravessaremos primeiramente terras de fazendas, depois uma área da reserva ecológica particular do Sesc Pantanal e depois a área da reserva indígena Perigara até o leito do rio São Lourenço onde fica a sede da aldeia. Alguns poucos quilômetros que em dias secos são feitos em duas horas.
Logo após a última porteira da pimenteira, o veículo para, o motorista engata a tração do veículo indicando o início das dificuldades. Neste caso estando em uma frontier é mais vantajoso já que na Toyota bandeirantes, vc tem que saltar do carro para “traçar” o veículo.
Passamos pelo primeiro atoleiro que mais parece uma trilha entre árvores coberta por uma lama fétida. Após este trecho ocorre uma sucessão de diversos atoleiros. É um tal de liga tração, desliga tração que não acaba mais. Na maioria dos trechos a estrada não existia e apenas se via um leito coberto por água em meio à vegetação. O trecho mais conservado era até o limite da reserva do Sesc com a reserva indígena. Passamos até um posto de controle da reserva particular para perguntar sobre as condições das estradas mais à frente e aproveitamos para almoçar já que os guardas florestais, muito gentis, nos ofereceram um churrasco que estavam fazendo. Era dia de feriado.
Ficamos sabendo que as condições das estradas não eram das melhores, mas também não as piores. No dia anterior, os guardas florestais da reserva tiveram que rebocar com um trator, um carro que dormiu em um atoleiro mais à frente. Disseram-nos que dava para passar, mas o pior estava dentro da reserva indígena. Um local que apelidaram de Bebe, o qual é uma grande depressão na estrada que normalmente já é alagada.
Mesmo prevendo dificuldades, resolvemos tentar a sorte. Já tínhamos percorrido mais da metade do caminho, tínhamos que tentar!
Partimos confiantes e passando a divisa das reservas caímos na real. A estrada antes mais larga, estreitasse de tal forma que quase não se vê a trilha dos carros a não ser quando passamos por áreas de campos de vegetação rasteira. Ás vezes me perguntava se realmente estávamos na estrada. Trechos mais altos ainda secos e trechos mais baixos completamente alagados alternavam-se.
Mais tarde, o inevitável. Apesar do veículo “traçado”, ficamos presos. Uma vez que o peito de aço da caminhonete prende no fundo do atoleiro as rodas ficam suspensas e patinam livres não adiantando em nada a tração nas quatro rodas.
Depois de alguns anos de estrada de chão aprendi que não adianta tentar não se sujar em situações como esta. Tem que tirar o tênis e camisa, arregaçar a barra da calça e encarar a lama sem medo se quiser sair do lugar.
Apesar de o carro ser próprio para terrenos ruins, não estávamos aparelhados como deveríamos. Teríamos que possuir conosco materiais como enxadão, pá, facão e machado para casos extremos como este.
A solução foi cavar com a mão mesmo ou com tocos de madeira e procurar pedaços de pau para levantar as rodas do veículo em uma manobra que se chama macaco baiano.
Só quem já enfrentou uma estrada “feia” sabe da dificuldade e da falta que faz o equipamento certo na hora certa.
Os minutos vão passando e o veículo vai andando lentamente, atolando e desatolando em apenas alguns metros. Movimentos repetitivos de cavar, encaixar os pedaços de pau embaixo da roda e empurrar sucedem-se.
Passado esta dificuldade, mais à frente, ficamos presos de novo. Desta vez em uma depressão em que as rodas do veículo patinavam no barro liso e o carro não saía do lugar. E mais uma vez, saímos do carro para todo aquele processo anterior.
As horas se passam e já são por volta das quatro da tarde.
Pensava comigo; já é a segunda vez que ficamos presos e o tal do atoleiro do Bebe nem chegou ainda.
Mais um obstáculo superado e logo mais à frente, presos de novo!
O motorista que recebeu a ordem de que se não conseguir passar era para voltar pondera se vale mesmo à pena continuar. Já se aproximam de 5 horas da tarde e os mosquitos começam a aparecer em quantidade. A idéia de ter que dormir na estrada não agrada ninguém, mas se fosse preciso seria a única alternativa.
Naquela situação tínhamos duas alternativas, ou seguíamos em frente em um imenso atoleiro coberto pelas águas ou voltaríamos para Cuiabá. Após uma rápida votação decidimos que voltaríamos, pois a pior parte da estrada ainda não havia chegado e não nos agradava a idéia de passar a noite em uma estrada no meio do nada, com chuva e cheia de mosquitos.
Desatolamos o carro de ré e seguimos nosso caminho de volta a toda a velocidade. Naquela lama toda, o carro patinava e tinha vezes que nos víamos deslizando de lado. Passamos os atoleiros anteriores a toda, forçando a caminhonete ao máximo sob o risco de alguma avaria, mas Deus estava conosco e permitiu que chegássemos ao posto da reserva particular do Sesc logo ao anoitecer. O carro estava coberto de lama do fundo ao teto. Nós estávamos cansados e sujos, mas felizes por estar em um lugar onde seria possível um banho e uma noite mais agradável.
Cinco horas da manhã; acordo com o dia clareando e os pássaros servindo como meu despertador. Dia tranqüilo e sem chuva. Tínhamos mais alguns trechos difíceis pela frente, mas estávamos voltando para a Cidade o que nos confortava.
Partimos com destino a Cuiabá tranqüilos imaginando como seria a nossa nova tentativa para chegar até a aldeia o que aconteceria mais alguns dias depois.

sábado, 4 de julho de 2009

VOZES SILENCIADAS


Vozes silenciadas

Se estiver sem tempo não continue esta leitura... Abaixo encontra-se uma leitura reflexiva e histórica. Ao ler cada frase procure utilizar o imaginário e aprofundar os sentimentos a medida que prossegue na leitura.



Mais uma tarde de chuva na aldeia chiquitana.
Poucas pessoas vêm à procura do meu serviço odontológico já que me encontro sem diesel à quase duas semanas o que na aldeia significa sem energia elétrica. Consequentemente restaurações usuais ficam impossibilitadas de serem realizadas e somente extrações e restaurações provisórias são feitas.
No tempo vago me ocupo com a minha horta, em conversa fiada com alunos e diretores da escola, cozinhando, escrevendo e com pensamentos diversos sobre a minha família e a vida em si.
Um destes dias estive pensando sobre os próprios chiquitanos, Quem são eles? De onde vieram? Estes pensamentos me fizeram voltar no tempo, mais precisamente no ano de 1542...

Neste ano, os primeiros espanhóis chegam a chiquitania ( atualmente Bolívia e parte do Brasil ) em busca de uma via de comunicação para o território que é hoje o Peru. Estes por sua vez resolvem fundar uma povoação no local como forma de assegurar o caminho encontrado. Logo após resolvem avançar até o rio grande fundando então a cidade de Santa Cruz de La Sierra, um lugar povoado por mais de 20.000 indígenas.
A partir deste momento os indígenas passam a ser escravizados e já em 1561 estima-se que 40 à 60,000 indígenas vivam em regime de servidão. Os que não eram escravizados morriam, seja por conflitos ou por epidemias como a peste avassaladora do séc. XVI, a varíola.
Como não podiam faltar, os missionários também faziam incursões na região e estes, estavam conscientes da enorme responsabilidade que tinham nas mãos. Sua missão era “pacificar” os indígenas.
Imbuídos pelo desejo de salvação e pela fé, acreditavam ter pela frente um trabalho inédito, em que tudo estaria por se fazer em nome e para a glória de Deus.
Já do lado Brasileiro atual, a coroa portuguesa, resolve marcar presença no lado oriental ao saber da existência de missões no lado espanhol.
Em 1712, é fundada Vila Bela ( sudoeste do estado atual de Mato Grosso ), sede da capitania de Mato Grosso.
Mais tarde, com o crescimento do comércio e da população promovido pela descoberta de ouro nas minas do Sutil ( Cuiabá ) e de Vila Bela, muitos latifúndios foram estabelecidos junto às rancharias dos índios. Em 1850, a promulgação da lei de terras, intensificou a ocupação das terras chiquitanas tidas como devolutas. Devolutas significa terras públicas ocupadas por particulares ou não. Devido à estas ocupações e atividades missionárias a língua chiquitana foi sendo esquecida lentamente.
Mais recentemente, um grupo de trabalho indígena, identificou diversas comunidades chiquitanas remanescentes espremidas entre os latifúndios ou ocupando terras tidas como das forças armadas localizadas na área de influência do Gasoduto Bolívia-Mato Grosso. Entre estas comunidades, se encontram as comunidades de Acorizal e Fazendinha para as quais eu trabalho.
Atualmente, a reserva chiquitana nomeada de reserva indígena Portal do Encantado já foi identificada oficialmente e se encontra em processo judicial para a demarcação de suas terras.
Descendentes dos latifundiários invasores e novos invasores fazem ameaças a população indígena local ao sentir a eminência da perda de “suas” terras.
Enquanto isto, a língua chiquitana, a qual esteve em processo de extinção , começa a ser resgatada mesmo que timidamente nas duas escolas locais. Um dos poucos conhecedores da língua no Brasil se foi, morreu, e a sua voz pede socorro. Todos os conhecedores da língua no lado brasileiro estão em idade avançada e começa uma corrida contra o tempo para resgatar a mesma. A língua chiquitana tem pressa, caso contrário, poderá ter sua voz silenciada quisá para sempre.
Só pode existir uma razão para alguém ser contra a causa indígena e a demarcação de suas terras: - A ignorância total dos fatos históricos. Enquanto a ignorância e a ganância prevalecem os índios continuarão sendo ameaçados e sua riqueza cultural e língua continuarão a serem esquecidas. Como bom otimista, vejo um horizonte possível para a conciliação das diversas culturas existentes neste nosso brasil em uma convivência harmoniosa e de bons frutos.
Lutemos pelo fim da ignorância e pela disseminação de fatos históricos como estes tão similares entre as diversas etnias do nosso país. Estórias de ocupação, servidão e mortes. Vamos mudar esta estória, vamos mudar a História...


FIM


OBS: Dados históricos extraídos da Dissertação de mestrado da lingüista Áurea cavalcante Santana.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Pé de coelho


Pé de coelho
Meu amigo de faculdade está construindo um blog sobre pesca submarina, e por sinal muito bom, e ao vê-lo descrever suas peripécias submarinas, lembrei-me de uma das minhas muitas peripécias na mata, ou melhor no rio. Começa assim:
- É noite de inverno na aldeia de perigara. O calor escaldante e a nuvem incontrolável de mosquitos do verão dão lugar a uma brisa que resfria os ossos e a uma quantidade mais razoável de mosquitos.
Termino de jantar e próximo a uma fogueira aguardo fora do posto de saúde o sono chegar para que possa descansar do dia de trabalho.
Em meio à escuridão ouço vozes. O posto de saúde fica entre o rio e a aldeia, só que a a distância entre as duas é relativamente grande. Tudo que vem da aldeia em direção ao rio tem que passar perto da minha residência no mato, o posto. Quando não estou introspectivo, me agrada jogar conversa fora com os amigos indígenas já que estes possuem estórias muito incomuns para nós da cidade.
Vejo que se aproximam em dois, um com uma sacola na mão e o outro com uma sacola e uma tarrafa. Os cumprimento com um bom boa noite da roça.
- Noooooite! Eles retrucaram com o mesmo cumprimento e completam com um convite inesperado para aquela noite. Vamos pescar(interrogação)
Se eu fosse parar para pensar no que poderia acontecer não teria ido, mas como não gosto de perder uma boa oportunidade de uma experiência cultural rebati na lata, Vamos!!!
Pescaria á noite e em reserva indígena não é somente pescaria sem luz, mas também tem muito risco envolvido. Primeiro, como era inverno o rio estava em seu nível mais baixo, com muitas pedras, antes encobertas pelas águas, brotando como pontas afiadas ou bancos pedregosos no leito do rio. A única coisa que tínhamos para nos guiar era uma lanterna e o conhecimento dos indígenas sobre o trajeto do leito profundo do rio. Outra coisa são os jacarés e onças, os quais são muito mais ativos à noite. Outro detalhe são os mosquitos que também são mais ativos a noite. Com a graça de Deus, os mais perturbadores deles, os mosquitos, não incomodavam tanto aquela noite.
Sem nenhum equipamento de pesca segui até o porto em meio a uma conversa de pescador engraçada em que um contava vantagem sobre o outro de quem pescava mais.
Em sua grande maioria, os indígenas do pantanal não pescam de vara e molinete. É somente carretel, linha, anzol e chumbada. Iria pescar com um carretel emprestado.
Partimos na voadeira de motor 25hp da aldeia, doado pela Funai. O motor ronca e voamos para o nosso destino, seguindo o trajeto curvilíneo do leito profundo do rio na escuridão e desviando das pedras apenas com o pensamento, acredito eu.
Após alguns minutos subindo o rio, paramos em um remanso. Tarrafa na mão, chumbada na boca e em um movimento coreografado em arco lança-se a rede. O artefato é usado para pegar as iscas as quais usaríamos para capturar os peixes maiores que era o que nos interessava mais. Após alguns lances já tínhamos sardinha suficiente para nossa pescaria e então partimos para o nosso ponto de pesca. Este era uma pedreira com um fosso de águas profundas com promessas de pintados e jaús.
Aportamos na pedreira e amarramos o bote nas pedras. Com a lanterna iluminava a escuridão e percebi que minúsculos pontos vermelhos, aos pares , denunciavam que não estávamos sozinhos. Havia Jacarés por todo o lado.
Quem já foi no pantanal em época de seca sabe do que eu estou falando. Uma vez contei mais de 100 jacarés, um após o outro em apenas um dos lados do rio.
Recebi meu equipamento de pesca logo após a chegada. Um carretel de linha grossa, se não me engano 1mm ou mais, uma chumbada pesada e um anzol barra 6, como falam por lá. Como já tinha alguma experiência com linhada pura não me fiz de rogado e imediatamente perfurei a sardinha com o anzol, girei a linha,chumbada e isca para pegar velocidade e liberei tudo, apenas deixando a linha escorregar por entre os dedos suavemente até a isca encontrar a água novamente. Deixo a chumbada fazer o trabalho de levar tudo para o fundo do rio e espero com paciência. O meus companheiros fazem o mesmo, lançam suas iscas e esperam.
Logo vêm as primeiras capturas na linha de meus companheiros, as intragáveis piranhas. Piranha, em minha opinião é quase que uma praga no pantanal. A vantagem de pescar a noite é que a pessoa consegue fugir mais delas, mas mesmo assim ainda se pega piranhas à noite.
Estava quieto e até satisfeito, pois não tinha enfrentado tudo aquilo para pegar piranhas. Mesmo sabendo que se batesse um Jaú muito pesado na minha linha eu não conseguiria segurar na mão,teria ao menos a experiência de tentar.
Por volta de uma hora depois já estávamos com algumas piranhas e uns dois abotoados o qual é um parente do bagre mais conhecido no sul e sudeste por armado. E eu, continuava ali, passando frio e segurando a linha. Nada de peixe! Nem um beliscão. A gozação começa e o pescador iniciante, eu, continua rebatendo as zombarias. Já imaginava sair apenas com a experiência na memória.
De repente um puxão violento acontece na minha linhada. Tento segurar, mas não consigo, pois a linha queimava a pele da palma da minha mão. Deixo-a escorrer por entre os dedos com cuidado até a velocidade da puxada diminuir e então tento recolher a linha. Novamente outra puxada violenta e mais linha se vai. Repito o procedimento várias vezes e cada vez que recolho consigo ganhar um pouco mais de linha do que o peixe consegue puxar. Os indígenas ficam apreensivos e pedem para recolher eles próprios. Digo:
-Não, este é meu! Nem que eu tenha que perder, mas este é meu!
Ao final o grande peixe, já cansado, chega a beira das pedras e os indígenas correm, pegam o porrete que utilizam em pescarias para atordoar peixes grandes e batem na cabeça do grande exemplar.
Atordoado o Jaú é retirado da água. Mais duas porretadas certeiras para terminar o serviço e o som ecoa pelo leito do rio e por entre as árvores da floresta. É o fim!
O Jaú de mais ou menos 7 quilos e quase um metro de peixe se mostra por inteiro. Apesar de pequeno para um Jaú que pode chegar a mais de 100 quilos, é um troféu que retiro das águas e o tão sonhado almoço de amanhã. A malhação dos indígenas acaba e começa a malhação do “homem branco”. Para quem não conhece, o Jaú é um dos peixes mais difíceis e pesados do rio. Peixe robusto e de puxada firme, freqüentemente quando se entoca em locas de pedras ninguém mais tira. É como se fosse o Arnold Schwarzenegger dos rios, grosso e forte, mas não tão saboroso quanto o pintado, a gostosona de Copacabana.
Na volta para casa, orgulhoso e feliz pela experiência, ao olhar os outros peixes em relação ao meu vêm a lembrança das crianças indígenas. Apesar de ninguém passar fome naquele local rico em fauna e flora, imagino a felicidade naqueles rostinhos ao ver um espécime tão bonito e corpulento. As famílias são grandes e um banquete volta e meia não iria fazer mau a ninguém. Penso bem e entrego o troféu aos meus companheiros de pesca. Agradecidos, voltam para as suas casas e eu volto ao meu recinto de descanso com o prêmio apenas na memória. Estou satisfeito!
No próximo mês, só para não falarem que foi sorte de principiante, volto à pescaria com os mesmos figurantes. O protagonista, eu, volto à cena e desta vez com dois exemplares, um pintado e outro Jaú enquanto os outros seguem com seus palmitos, piranhas e abotoados. O mito da sorte de principiante foi quebrado, e enquanto eles discutem o fato, fico eu, procurando em surdina, o pé de coelho escondido nas minhas roupas!