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sábado, 14 de fevereiro de 2009

SEXTA FEIRA 13


SEXTA FEIRA 13

Nunca fui um cara superticioso, até então. Até então!!!!
No dia anterior ao dia fatídico o carro tinha quebrado e não havia veículo para me levar ao trabalho, mas considerei isto sorte e não azar.
Acordei às 5:30 da manhã para adiantar uma matéria do curso de especialização que faço pela internet sem ao menos vislumbrar que dia seria hoje. O dia começou bem e até consegui acessar o site do curso e fazer parte das tarefas. E foi só! O dia começou depois das 6:00.
Depois dos afazeres parti para o meu banho matinal e descobri que estava sem sabonete, até aí tudo bem! Usei o sabonete da minha prima e pensei em compra-lo quando fosse no Atacadão, o supermercado mais barato da cidade.( começou com o papo de pobre de novo!)
Parti para o supermercado e depois de pagar percebi que tinha esquecido de comprar o sabonete; até aí tudo bem, nada de ruim!
Saí do supermercado com o motorista da uniselva, o qual me deixou perto da Citylar, onde compraria mais tarde um ventilador. Estava com pressa ,no entanto resolvi passar no camelódromo para comprar uns DVD´s a incríveis R$ 1.25. Impressionante como eles conseguem.( Olha a pobreza aí novamente). Estes dias, assisti a um filme que nem tinha saído nos cinemas ainda, e é claro que a imagem estava uma merda mesmo! Na hora de pagar, me faltou troco. Até aí nada de espantoso!
Parti do camelô, na maior correria pois já me encontrava atrasado e fui para a casa comercial. Cheguei de supetão e mandei na lata; qual o ventilador mais barato que você tem aí? ( Olha o papo de pobre novamente!). Falei isto para ver se acelerava o processo.
Ela respondeu:
- 60 reais.
Falei:
-É este mesmo.
A vendedora perguntou:
- CPF?
Respondi prontamente:
- 13486349873466454467.
Ah! O seu cadastro está desatualizado, vamos atualizar?
Respondi:
- Não estou com pressa, faz no seu nome mesmo. Isto porque sem a atualização o programa não permitia que concluísse a minha venda.
Então digitou:
- Ariadine, ou coisa parecida. Forma de pagamento?
Falei:
- Crédito. ( Ultimamente, sempre pago no crédito. Vc sabe; rende milhas aéreas! Faço isto mesmo sabendo que milhas aéreas são coisas de pobre. Se bem que coisa de pobre seriam milhas terrestres ou milhas pedestres e não aéreas.)
Na hora de pagar lembrei que o cartão de crédito meu estava com a minha esposa maravilhosa, Cinthia, em outro estado. Lembrei que tinha outro cartão que não havia desbloqueado e tentei o 0800 pelo celular para desbloquea-lo o antes do caixa finalizar a venda. Não deu certo! 0800 não se faz pelo celular.
- Pode ser débito, perguntei, já afobado?
Recebi a bela notícia:
- Vc terá que voltar à vendedora para que a mesma efetue a venda novamente e troque a forma de pagamento por débito. Depois dessa eu quase desisti, mas me lembrei do calor e dos mosquitos do pantanal nesta época do ano, respirei fundo e subi as escadas novamente.

Enquanto isto, o motorista passava por uma manhã funesta de sexta feira 13.
Tinha acabado de pegar o motor Mercury 40hp na oficina e seguiu para o Dsei para pegar o barco e seu reboque. Chegando lá, os dois pneus do reboque rasgados. Isto mesmo, rasgados e não furados! Resultado, pneus novos. Na hora de trocar os pneus, cadê a chave de roda.? ( Não meu amigo, a chave de roda de carro não serve, não.) No mais belo estilo Funasa de improviso, vai o alicate mesmo! Já viu trocar pneu com alicate? Eu nunca vi, mas verifiquei o resultado e até que deu certo. Mas imagina o trabalho.
Na hora de engatar o reboque na caminhonete, o encaixe estava quebrado ( novidade!) e mais uma vez o improviso e o alicate entraram em ação. Porca, parafuso e tudo pronto!
Enquanto isto eu já tinha resolvido minha compra do ventilador em um recorde de 40 minutos e esperava o retorno do motorista em uma calçada do centro da cidade de Cuiabá, no verão, em um dia sem vento e um calor de mais de 40 graus, com certeza!
Até aí quase tudo bem! Entrei no carro e seguimos em direção ao Pantanal.
Cheguei à cidade que é a porta de entrada para o Pantanal Mato grossense de nome Poconé, procurando por um barqueiro de codinome Adílio. O papel dizia:
- Ao chegar em Poconé, vire a sua esquerda na farmácia Pantanal; isto se existisse uma farmácia pantanal. Logo encontrará a rua Pinheiros de Arruda; isto em uma cidade sem placas de ruas. E pare exatamente no número 72, que bem mais tarde descobriria ser 79. Acabamos que achamos o tal Adílio pelo nome mesmo, isto depois de ficar perdido em uma cidade que se consegue achar uma pessoa pelo nome.
Há esta hora já estava calculando chegar ao meu destino final lá pelas 7 horas da noite.
Saímos de Poconé com o barqueiro até as margens do rio Cuiabá, o qual fica a uns 40 km de distância.
Chegando lá os pernilongos nos dão as boas vindas. Uma nuvem, logo depois de uma chuva torrencial!
Estava começando a piorar. E eu ainda não sabia que era sexta feira 13.
Ao retirar a minha bagagem o zíper da minha mala quebra e a coloco em uma sacola para a roupa não cair. ( poverty!)
Barco na água, cadê o tanque de combustível, cadê a mangueira de combustível?
- Ninguém sabia. Resolvido; o tanque seria o galão de combustível mesmo, afinal, filtro pra que? E a mangueira conseguiram emprestada no mais nobre estilo ganbiarra.
Agora sim nós vamos. Aceleração a toda, e nos despedimos do motorista. Tchau!!!!!! Até a volta!
Alguns poucos quilômetros mais tarde, exatamente na segunda curva de rio, o número 13 começa a mostrar a sua força. O motor mostra sinais de falha. Olho para o barqueiro e o mesmo faz sinal negativo com a cabeça. Vamos voltar! Pego o meu celular; fora de área. Pego o celular do barqueiro; sem crédito.( Já vi que a pobreza não é só comigo!) Maravilha! A sexta feira começa a mostrar sua energia.
Aos trancos e barrancos conseguimos voltar e fazer uma ligação à cobrar do celular do barqueiro (a pobreza não me deixa!) e pedimos o motorista para retornar e nos resgatar.
Terminou? Ainda não!
Estávamos sem lona. As compras que antes estavam dentro do carro já se encontravam dentro do barco e para melhorar pegamos outra chuva torrencial molhando todas as caixas as quais as compras estavam.
Depois de acordar de madrugada e chegar a Cuiabá à noite, ainda tínhamos que devolver o barco.
Chegando lá, na hora de retirar o engate; a porca a qual tinha sido apertada com um alicate se recusava a sair. Parecia que a mais forte das chaves havia sido utilizada para apertar tal porca. A solução foi achada minutos depois de muita força e enfrentamento da escuridão com a luminosidade do meu celular. Vamos retirar o engate inteiro da caminhonete.
Cansados e sujos seguimos o rumo de nossas residências. Bem, a residência para a qual eu sigo não é exatamente minha, é da minha prima Otília e seu Marido Pignati. Se bem que já estou utilizando a casa deles já faz tanto tempo que acho que na lei, o quartinho que eu uso já se enquadrou no Uso Capião.(MST)
Pego as minhas tralhas e entro na casa da minha prima com as caixas de compra pesadas e molhadas prestes a rasgar. O motorista segue o seu caminho.
Um dedo de proza e uma cerveja com o meu amigo Pig e na conversa o mesmo me atenta ao fato de que é sexta feira treze. Aí entendi, tudo explicado! E eu querendo sair para trabalhar em uma sexta feira 13. Que ingenuidade!
Vou tomar banho e percebo que deixei minha mala com as minhas cuecas e meias no carro. Com o bicho solto e balançando, fico com insônia e resolvo estudar mais um pouco. O site da especialização estava com problemas.! È o mar não está para peixe não.
Vamos dormir?!
(...Acho melhor botar o colchão no chão já que até meia noite ainda é sexta feira 13!)
Boa Noite.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O SERTANEJO


O SERTANEJO

Chacoalhando em uma estrada de terra, chapéu de palha na cabeça e
chinelo de borracha no pé, segue o sertanejo. A cada solavanco
passado e presente entrelaçam-se em sua mente.
Após uma breve visita à cidade mais próxima para sacar a
aposentadoria o mesmo volta a sua humilde casa de barro batido em
armação de vara de taboca, esteios de tronco de aroeira, cobertura de
palha de indaiá e chão de terra batida. Com a comida quase faltando
em sua casa e apenas o resto de uma colheita de milho ainda no cesto,
o seu dinheiro é a principal fonte de renda entre os filhos que ainda
permanecem ao seu redor, uns casados outros não. A maioria trocou o
campo pela ilusão de uma vida melhor na cidade grande.
As pernas e braços mais fracos não permitem a mesma destreza da
juventude com o machado e a enxada, mas sua força parece inesgotável e
contrariando tudo se entrega ao trabalho pesado da roça.
Apesar do fardo pesado e da pele sulcada pelo sol e o tempo, seu
sorriso, dentre os dentes estragados, desperta uma alegria sincera. A
mão escreve o nome devagar sobre o papel branco indicando seu pouco
estudo na escola dos homens, mas os calos destas ressaltam sua
formatura na escola da vida, como um diploma que pudesse ser impresso
na pele do mesmo modo que uma tatuagem.
O sertanejo é com uma escultura lapidada pelo tempo. Quem o olha com
indiferença vê apenas uma figura humilde sem muita importância, mas
quem se atém aos detalhes, desvenda sua imagem complexa e consegue
enxergar além, a sua luta e sua grande importância.
No seu radinho de pilha, à luz da lamparina de querosene ou à luz das
estrelas. A música chorosa ecoa pelos campos e pelas matas. A música
fala da sua vida, da sua lida e de seus amores. Em um ambiente
rústico de poucas mulheres, aquela que marca fica registrada em seu
coração. Apesar da música chorosa o tocar, é a alegria sua
característica marcante.
Quem não entende o sertanejo não entende a sua música e a ignora ou a
despreza.
Quem não entende o sertanejo, nunca apertou um "punhado" de terra na
mão com o devido respeito que se deve a ela.
Quem senta com o sertanejo para uma conversa de coração aberto se
despe de preconceitos e abre sua visão para o que está nas entrelinhas
de seu palavriado carregado.
Minha visão romântica não me impede de ver o que não vale a pena ser
contado. Detalhes de menor importância dentre a sua importância.
Quem come um prato de comida nunca pensa em sua origem no campo, o
campo do sertanejo, da sua terra e de seus amores.
O que é vida para nós da cidade é a vida do sertanejo.

BIEN VENIDOS


Bien venidos
( relembrando o passado)

Evo Morales ganha grande destaque na mídia Brasileira nos tempos
atuais. O clima de Brasil Versus Bolívia inflama. Isto me faz lembrar
de um passeio que fui obrigado a fazer pela Bolívia e que me veio
agora na memória...........

Caminhando em meio à floresta da reserva dos índios Chiquitanos o sol
começa a se esconder atrás das copas das árvores mais altas em um
crepúsculo meio vermelho, meio laranja, impressionante. A
luminosidade começa a minguar e as minhas pupilas a dilatar buscando
algum facho de luz que me permita identificar os objetos a minha frente.
Caminho puxando uma bicicleta carregada com o meu mochilão de 75
litros
. A estrada que uso foi aberta há alguns anos atrás para ligar
as duas aldeias que atendo, Acorizal e fazendinha, o posto de saúde e
um destacamento militar aonde se encontra o único telefone público do
local e o único ponto de ônibus para a cidade mais próxima a qual fica
a 140 km. O destacamento fica a sete quilômetros do posto de saúde por
uma via sinuosa, esburacada e cheia de subidas e descidas. Marcho
por esta via, a pé, já que o veículo da FUNASA se encontra avariado, o
que já virou rotina, e nos dirigimos ao destacamento onde
descansarei até o dia seguinte para pegar o ônibus até Porto
Esperidião e logo após Cuiabá.
O sol se foi, e a única fonte luminosa que me acompanha é a lua
crescente que me guia pelas trevas. As imagens são distorcidas pela
escuridão, mas claras o suficiente para continuar o trajeto.
Cansado, já no quinto quilômetro de caminhada noturna, já nos
caminhos finais após o limite da reserva indígena, ouvi um barulho
de motor. Pelo barulho sugere-se algum veículo entre um caminhão e um
ônibus. A esperança de uma carona se acende.
Minutos depois, dois faróis brilham na penumbra e o veículo,
um ônibus, começa a se aproximar.
Imagino a surpresa do motorista ao ver a imagem de duas pessoas e sua
bicicleta carregada, em meio à estrada escura no meio da mata.
Após os limites da reserva existem fazendas e o motorista do ônibus
estava transportando estudantes até suas casas após uma tarde de
estudos na escola mais próxima, 21 km, aproximadamente, do local onde
estava.
Acenei para o ônibus parar e pedi encarecidamente por uma carona
sabendo que o mesmo irá repousar no destacamento também.
O motorista, sabendo da dificuldade da região, atende prontamente e
até fica feliz em ter uma companhia para jogar conversa fora no
caminho de volta das fazendas.
Alguns podem pensar no perigo que se encontra nestas estradas. Onças,
lobos guarás entre outros, mas o que realmente me preocupa é pisar em
alguma cobra desavisada em meio às sombras da noite. O resto dos
animais, geralmente, só de sentir o cheiro, ouvir sua voz, batem em
retirada, pois não pretendem enfrentar o mais perigoso dos bichos, o
bicho homem.
Mais tranqüilo e menos pesado segui o caminho até o
destacamento.
Após uma conversa rápida com o sargento, que é o comandante local, o
mesmo me permite dormir no alojamento destinado aos oficiais em
trânsito. São três tipos de alojamentos. O alojamento para tenentes
é uma suíte com duas camas, o alojamento para sargentos é um quarto
grande com seis camas e um banheiro espaçoso e o quarto dos soldados é
um quase galpão, com diversas camas e o banheiro fora do alojamento.
Tudo devidamente hierarquizado como mandam as premissas do exército.
Soldado sofre!!!!!!!!
Durmo no alojamento dos soldados que apesar de parecer precário tem
uma cama muito confortável e a enfermeira da equipe, a qual me acompanhava, claro, sendo mulher e mais frágil, dorme na suíte dos tenentes.
Sem reclamações, apago depois de um banho gelado no banheiro dos
soldados. Aliás, em termos de banho, aqui, não existe hierarquia. Não
importa qual o seu cargo o banho é frio mesmo, pois o gerador de
energia a diesel não agüentaria tanto consumo de energia em vários
chuveiros ao mesmo tempo. Chegou-se a conclusão que ninguém seria
privilegiado com o banho quente.
Na cidade costumamos não ter a noção de quanto um chuveiro elétrico
consome de energia e aprendi isto ao tentar instalar um chuveiro
elétrico no posto de saúde. Ao ligar o chuveiro as luzes praticamente
se apagam de tanta energia que o chuveiro puxa e mais tarde
descobrimos, argüindo os mais experientes, que o risco de queimar o
gerador é grande.
Acordo com o sol entrando pelas frestas da parede de madeira e da
janela do quarto. Ao nascer do sol como todos aqui. O costume
de dormir cedo e acordar cedo é verídico no interior. Muitos acordam
antes do sol.
Acordo bem disposto e feliz na esperança de poder voltar para casa e
rever a minha esposa e filha e me dirijo para o ponto de ônibus após uma
breve conversa com alguns soldados e cabos amigos.
Seu horário habitual é às 08h00min AM. Espero esperançoso e o
horário já passa das 08h00min. Subitamente, o telefone público em
frente ao ponto de ônibus toca. Um dos possíveis passageiros atende
ao telefone e repassa a execrável notícia de que o ônibus se encontra
avariado. Pensei, será que este ônibus é da FUNASA, brincando!
Bem, o único meio de deslocamento em território brasileiro havia se
perdido. Ônibus agora só no dia seguinte...
Decidido a ir para a casa de qualquer jeito, nem que seja de carona,
coisa difícil aqui neste poeirão de Deus. Resolvi pegar a rota
alternativa.
A fronteira Brasil-Bolívia ficava apenas a dois quilômetros de
distância. Perto da fronteira existe um ponto de ônibus, e este
ônibus vai até a cidade de San Matias, centenas de quilômetros à
frente, mas ainda beirando a fronteira Brasileira.
Decidimos que este seria nosso itinerário. Partindo do destacamento
de fortuna de carona em uma moto, chegando até a cidade de Ascensión
de la frontera aonde se pega o ônibus, seguindo margeando a fronteira
Brasil-Bolívia até a cidade de San Matias e daí pegando um táxi até a
fronteira brasileira, de lá pegando uma Van até a cidade brasileira de
Cáceres e logo após, mais outro ônibus até Cuiabá. Trajeto cansativo
e único.
Saio do Brasil com um sentimento de aventura no peito indo de
encontro ao país desconhecido. Meu portunhol está tão afiado quanto
lâmina de barbear velha e não espero ter que usa-lo em nenhuma
situação aonde se precise de mais de duas frases.
A região é muito conhecida pelo intenso movimento de traficantes de
drogas procurando um acesso mais fácil ao Brasil, importante
consumidor de seu principal produto, a Cocaína.
Já na Bolívia, distraído no ponto de ônibus, ouço o veículo de
transporte chegar. Um ônibus alto, de rodas enormes, creio que para
enfrentar as centenas de quilômetros de seu trajeto sobre estrada de
terra. Subindo as escadas do ônibus pergunto o preço da passagem:
- Quanto custa?
- Vinte e oito bolivianos.
Ufa! Não precisei de mais de duas frases.
Nesta época, o real era o equivalente a quase três bolivianos sendo
isto 28 bolivianos custaram-me 10 reais.
Viagem tranqüila por entre a paisagem de parte do cerrado Boliviano e
mais à frente do pantanal boliviano. Viagem interessante e comprida.
Três horas de viagem se passaram e nosso ônibus foi parado pela
polícia de narcóticos boliviana apelidada de leopardos. Todos foram
para fora do ônibus e obrigados a mostrar a identidade enquanto o
mesmo era revistado.
Por volta de vinte minutos depois anunciou-se que fora encontrada em
nosso veículo uma substância controlada e que todos deveriam
dirigir-se ao comando na cidade de San Matias.
Logo após a partida do veículo em direção ao comando da polícia um
dos leopardos pediu a minha identidade, a da enfermeira e de mais dois
viajantes. Pensei comigo que deveria ser pelo fato de sermos brasileiros.
Com a consciência tranqüila sigo viajem até San Matias.
Chegando ao comando o comandante da operação anuncia que foi
encontrado um pacote de cocaína em baixo de um dos bancos, e adivinha
de baixo de qual banco estava?! Isto mesmo, debaixo do meu banco.
Os dois principais acusados eramos eu e a enfermeira.
Comunico com o meu excelente espanhol de quinta categoria que somos um
dentista e uma enfermeira do posto de saúde dos índios Chiquitanos no
Brasil. Na Bolívia é onde está a maioria dos indígenas chiquitanos
tanto que a região que nos encontramos é conhecida como chiquitania.
Um diálogo se estabelece precariamente entre eu, a enfermeira e o
comandante da operação. Já se passaram muito além das duas frases que
pretendia gastar com o meu portunhol e as frases começam a ficar
confusas para eles e para mim. Com um movimento o comandante agacha e
pega o pacote envolto por uma espécie de meia calça feminina,
que se encontra no chão, logo abaixo do meu assento.
Todos os passageiros são obrigados a saltar do ônibus e seguir para o
comando sendo que os principais suspeitos, entre eles, eu e mais uns
cinco e a enfermeira, são separados dos demais.
A revista geral do ônibus se reinicia. Tamancos femininos são
furados em sua parte inferior com uma espécie de saca rolha e
cheirados logo a seguir. A enfermeira é encaminhada para
interrogatório enquanto aguardo em uma mesa próxima.
Sinto uma ponta de nervosismo, mas ao mesmo tempo tranqüilidade já que
não tenho nada a dever. Após o inquérito a enfermeira já está com
cara de quem está prestes a desabar em lágrimas e tento tranqüiliza-la
da melhor forma possível. Não se conseguiu estabelecer um contato
proveitoso com a enfermeira e foi requisitado um tradutor. A pessoa
que a interrogava não conseguia entender o português.
Já passava das duas da tarde e nada de almoço. Seguia-se a revista
do ônibus. Cada batata, cada cebola, cada peça de roupa era
minimamente esmiuçada. Sacos de batata eram derrubados no chão e
batata por batata era apalpada, cheirada, algumas perfuradas com o
instrumento similar a um saca rolhas e cheiradas logo a seguir e
alguns exemplares de cada saco eram contados em fatias. Tudo bem
lento!!!
A polícia boliviana prontificou-se a ir comprar o almoço das pessoas
que ainda permaneciam em averiguação. Demos o dinheiro e eles
trouxeram um litro de leite, banana e batata fritas extremamente
gordurosas, um pouco de arroz, uma coxa e asa de frango fritos.
Algum tempo se passou e percebi que não éramos mais as principais
suspeitas. Algumas pessoas eram completamente revistadas, tinham seu
estômago apalpado e nós apenas permanecíamos ali, esperando. Todos
os principais suspeitos eram obrigados a ingerir 1 litro de leite
inteiro, inclusive eu. Depois fui informado, não sei se ao certo,
que forçam a ingestão do leite, pois quem ingeriu cápsulas de drogas
rejeita a ingestão com medo de que as mesmas se rompam dentro do
organismo.
O sol já se inclinava no horizonte a ponto de invadir a varanda na
qual me encontrava. A conversa já rolava mais solta e já até
combinava com o capitão de o mesmo fazer um tratamento dentário no
posto indígena que atendia. Aprendia um pouco de espanhol a cada
frase da nossa conversação.
Cinco da tarde e finalmente todos os pertences terminaram de ser
revistados. O capitão olha para mim e para enfermeira e sinaliza que
nós estamos liberados. Agradecemos e nos despedimos. Após nossa
saída, ainda permaneceram ali três indivíduos.
Procuramos um táxi e de novo, o espanhol precário teve que entrar em
ação. Perguntei o preço, o mesmo me respondeu e após outras frases o
me perguntou se eu era brasileiro, isto em português. Para
minha surpresa o taxista era brasileiro e trabalhava na Bolívia. Já
me sentindo em casa, a conversa fica mais à vontade.
Passamos por trecho da cidade de San Matias a que me parece uma
cidadezinha bem precária de ruas não pavimentadas população
visivelmente de origem indígena e pobre. Não me interessei em
permanecer mais ali, pois já deveria estar no Brasil horas atrás.
Seguimos em frente, sem olhar para trás.
Ainda teríamos um trecho grande pela frente, mas após a fronteira
brasileira tudo é "em casa" e muito mais fácil.
Sem surpresas, chego em casa várias horas em atraso, mas o que
importava naquela hora era apenas o fato de ter chegado. Corremos um
grande risco de conseguir um visto de permanência obrigatório na
Bolívia por um bom tempo e nos livramos disto. Quem sabe um dia,
ainda não visito este país em uma visita mais amistosa. De qualquer
maneira, aprendi que, na Bolívia sempre desconfie e sempre olhe
debaixo do banco antes de sentar e antes do veículo parar por qualquer
motivo... Sempre alerta!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Hasta luego..................................

domingo, 18 de janeiro de 2009

OS SONACIREMA


SONACIREMA

Desde o começo dos estudos dos sonacirema muitas dúvidas ainda persistem sobre sua cultura e modo de vida. Seu modo de vida peculiar lhe confere muitas características únicas muitas delas ainda obscuras para a ciência e antropologia contemporânea.
Esta população possui uma religiosidade singular a qual pode ser observada nos seus diversos rituais e Deuses.
Em suas moradias feitas basicamente de uma mistura de pedra, barro e madeira, existem diversos compartimentos, cada qual com a sua função sendo que muitos dos mesmos são dedicados a Deuses. Muitas ocas Sonacirema possuem altares aonde se cultuam imagens em um rito solitário e de difícil compreensão. Em alguns dias predeterminados, a população sonacirema reúne-se para um ritual religioso conjunto na oca ritual denominada Ajergi, mas ainda assim nada sociável. Cada um adora o Deus superior sonacirema de maneira individual e a sua maneira, deixando o cerimonial praticamente do mesmo modo que entrou, introspectivo. Apesar de religiosos, os sonacirema possuem uma vida muito individualista. Ainda permanece uma incógnita como a sociedade sonacirema persiste existindo até os dias atuais devido a sua característica individualista e egoísta.
Diversas residências são bem próximas umas das outras, no entanto a população fora do núcleo clânico ( familiar) mal se comunica. Apesar de se encontrarem com certa freqüência, a comunicação estabelece-se através de gestos curtos, palavras ou sentenças também curtas proferidas com os olhos voltados para baixo ou para cima. Acredita-se que este ritual determine um sistema de castas onde os que olham para baixo são de uma casta inferior e os que olham para cima são de uma casta superior. O sistema de castas não é definido espiritualmente como na índia, e sim através de embates silenciosos realizados no cotidiano, podendo durar anos, aonde o sonacirema que obtém maior influência social sobe um ou vários degraus na escala de castas. Muitas vezes esta influência é obtida através de comportamentos condenados por nós civilizados, mas considerados normais pelos sonacirema. Estes são principalmente a dissimulação e a traição. Esta característica comportamental deixa dúvidas quando a evolução espiritual e social dos sonacirema.
Esta população possui a peculiaridade de mutilarem seus corpos no intuito de demonstrar beleza e exuberância. Um dos compartimentos das ocas sonacirema é destinado ao culto do Deus Osicran que é o Deus da beleza. Adornos são introduzidos na pele e sob a pele gerando ao mesmo tempo dor e satisfação. Pinturas no rosto e corpo são feitas diariamente para cultuar o Deus da beleza e com a função secundária de atrair o sexo oposto. Sem estes artifícios, os sonaciremas consideram-se invisíveis ao olhar do outro.
Os sonacirema que não se enquadram no padrão social rígido, isolam-se em suas ocas clânicas e permanecem adorando um outro Deus chamado Oasivelet. Fazem isto de maneira ininterrupta. Acreditamos que isto seja uma forma de autopunição ritual como forma de se redimir da sua situação fora dos padrões sociais. A imagem de Oasivelet permanece em um altar em um dos cômodos da moradia e é representado pela forma retangular. Este, apesar de não ser o ser supremo, é o mais popular e adorado Deus Sonacirema.
Os jovens que se enquadram no padrão sonacirema reúnem-se em uma oca ritual denominada Setaob. Dependendo da população local existem mais de uma Setaob. Na Setaob, ao som de músicas incompreensíveis e bebidas alucinógenas, os jovens movimentam-se ritimadamente de forma sistemática e repetitiva em um padrão ainda não descrito perfeitamente pela antropologia contemporânea. Acredita-se que este seja o local para um tipo de ritual do acasalamento sonacirema aonde o acasalamento em si ocorre em outro local denominado Letom.
Os casais sonacirema, ao dar a luz, modificam completamente seu comportamento social. Os mesmos deixam de freqüentar muitas ocas rituais e muitos invertem o sistema hierárquico do senso comum baseado na dicotomia idade/experiência, e passam a viver sob a autoridade e desejos do mais novo membro clânico. Em muitos clâns sonacirema houveram desmantelamentos sociais devido a adoção desta inversão.
O sistema de saúde sonacirema é muito primitivo. É baseado em ocas rituais chamadas Latipsoh, exclusivas para pajelanças e curandeirismos. Os pajés reúnem-se em castas próprias e consideram-se seres divinos com poderes especiais. Observa-se na maioria dos pajés uma falta de interesse pela cura real e um grande interesse pelos retornos provenientes dos serviços, seja este retorno social ou material. Muitos pajés exigem um retorno muito maior do que seus pacientes podem dar, desconsiderando as castas inferiores e subjulgando-as através de punições sociais e/ou econômicas.
A casta dos pajés subdivide-se em microgrupos onde cada um é responsável por uma parte do corpo. Existem pajés de nariz, pajé da pele, pajé do dente, pajé dos pés e de toda parte existente no corpo humano, ignorando a visão holística do paciente como um ser humano carente de necessidades físicas, sociais e psicológicas.
Bem, como podemos observar, a sociedade sonacirema é bastante primitiva e deixa dúvidas quanto a sua evolução e posterior existência. Muitos de seus traços característicos permanecem ocultos, mas quem sabe, a luz de mais estudos nos desvendará que a verdade já estava sob nossos olhos e que realmente os sonacirema somos nós americanos.
Glossário
1. Sonacirema = Americanos
2. Latipsoh = Hospital
3. Oãsivelet = Televisão
4. Ajergi = Igreja
5. Osicran = narciso
6. Setaob = Boates

Os sonacirema foi modificado e adaptado do texto Nacirema de autor ignorado.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Nos tempos da fazenda do Vovô


Nos tempos da fazenda do Vovô


Ainda me lembro que uma das grandes alegrias minhas da infância, da época em que freqüentava a fazenda do meu avô, era andar na carroceria da caminhonete, mais precisamente a carinhosamente chamada Jabiraca.
Era uma daquelas antigas Toyotas Bandeirantes que na época já era antiga. Cheia de buracos na lataria que apelidamos de sistema de refrigeração e um sistema de freio avançadíssimo para a época o qual se aproxima do sistema ABS de hoje. O freio só funcionava a partir da terceira bombada no pedal, não parava de imediato.
Apesar dos defeitos nós amávamos e ainda posso sentir o vento da bahia batendo no meu rosto enquanto aquela caminhonete sem freio descia a ladeira com algumas crianças na carroceria. Mas isto são coisas do tempo quando ninguém havia notado a presença do cinto de segurança nos veículos. Tempo de pessoas despreocupadas e famílias enormes.
Mais recentemente, vivi uma experiência que me vez relembrar nitidamente os tempos da fazenda do vovô.
Rio São Lourenço, Mato Grosso, Brasil.
Cortávamos suas águas velozmente em um barco de alumínio de 8 metros e motor de popa Mercury 40Hp. Época de início das cheias quando as nuvens sempre ameaçam desabar sobre suas cabeças e pedaços de troncos de árvores descem o rio rodando em um balé sincronizado, ávidos para pegar uma hélice submersa pelo meio do caminho.
O marrom da seca dá lugar ao mais vivo verde possível e o ciclo seca-cheia novamente tem seu início e a vida agradece.
Já estávamos a pouco menos de uma hora subindo o rio, da aldeia São Benedito para a aldeia de Perigara, e avistamos o porto da aldeia. Cumprimentamos os habitantes da única família que mora na beira do rio, com o costumeiro aceno de mãos e seguimos para o porto.
Ao desembarcarmos, tudo tranqüilo. Pego parte das minhas tralhas e sigo até o posto caminhando sobre a grama baixa aparada pelos dentes ruminantes dos bois e cavalos dos indígenas.
Mais a frente uma movimentação anormal começa. Um grupo de índios segue para o porto enquanto um grupo grande de mulheres olha de longe, curiosas, os acontecimentos. O barqueiro havia ficado no porto para desembarcar os tonéis de diesel e gasolina.
Volto para pegar mais um pouco da bagagem alheio aos acontecimentos, mas já imaginando que algum fato ocorria. A enfermeira passa por mim e exclama:
- Eles vão prender o barco!!!
Minha mente racional não se abala e enquanto carrego caixas, malas e mais caixas para o posto de saúde, calculo as possibilidades. A primeira é eles prenderem só o barco e o motor e liberar a equipe. A segunda é prenderem barco, motor e segurarem a equipe até conseguirem o que querem, o que não é somente o motor com certeza! Em ambos os casos, o veículo de saída, no caso o barco, já não estava mais disponível e a idéia de passar o natal na aldeia não me agradava em nada. A única certeza minha era que até o dia 17 de dezembro teria que estar em Cuiabá para pegar meu vôo para Vitória, custasse o que custasse. Estava disposto até a pegar uma canoa para chegar a tempo em Vix.
O único trecho de saída por terra era uma estrada de mais ou menos 20 km de extensão em meio à mata virgem e lama até o primeiro vestígio de civilização, um dos postos avançados da reserva particular do SESC. Se fosse necessário percorreria a pé estes quilômetros saindo de madrugada até o posto do sesc e de lá pediria uma carona ou andaria mais um pouco até o vilarejo mais próximo e de lá o mundo. De qualquer maneira, não foi preciso utilizar tanto cálculo. Ficou decidido que o motor e barco ficariam como forma de pressão para a visita do chefe dos serviços de saúde, no caso o chefe do Distrito Sanitário Especial Indígena Cuiabá, e nós voltaríamos com o carro da Funai dirigindo por um chefe de posto indígena, dois dias antes do planejado. Maravilha, a emenda saiu melhor que o soneto!
Com a volta já marcada fico tranquilo e desempenho minhas funções de dentista normalmente.
No dia D, ou melhor, dia V ( de volta) embalamos nossos pertences e esperamos a caminhonete. Os primeiros a entrar fomos eu , a enfermeira e a técnica de enfermagem. Tudo Beleza! Bem acomodados e bagageiro já quase lotado.
Passamos no posto da Funai e entra a diretora da escola gestante com seis meses. Opa começou a apertar! Logo depois entra mais uma indígena com a sua filhinha. Lá vai o único homem para a carroceria, adivinha quem, eu! E logo depois mais um indígena que seria o acompanhante de uma paciente a qual já estava em tratamento em Cuiabá. Pronto! Ferrou! Só sobrou a carroceria, caçamba, a parte traseira do veículo e já tinha pressentido que quem tinha tomado na parte traseira tinha sido eu. E ainda teria que dividir a parte traseira, já apertada, com o índio. Sem duplo sentido, por favor!!!
Meu companheiro de carroceria é uma das peças mais hilárias da aldeia. Chegou devagar, pulou na carroceria sem nenhum murmuro e a primeira coisa que ele falou sorrindo foi:
- “Vamo tomá uma gelada já, já!!!!”
O carro acelerou e partimos para enfrentar as seis horas de estrada de chão até uma cidadezinha chamada Santo Antônio de Leveger, distante algumas dezenas de quilômetros da capital, e o restante seria de asfalto.
Sentados na borda da tampa traseira da carroceria e segurando na corda que amarrava a carga adentramos o pior trecho da estrada. Havia chovido faz uns três dias e a estrada se encontrava em um misto de lama e poeira formada pelos três últimos dias de sol escaldante.
A cada solavanco grande, meu amigo limitava-se a emitir sons do tipo:
- Ai, Ai! Ui!
E nos maiores era:
- Ave Maria! Dói demais!
Dizia num típico e engraçado sotaque pantaneiro, olhando para mim e com um sorriso quase gargalhada no rosto.
E a cada dez minutos continuava:
- Vamos tomar uma gelada já, já!
O sorriso, o vento no rosto e até os solavancos foram me fazendo voltar no tempo da fazenda do vovô quando crianças ainda se divertiam sem o mínimo de conforto. Mais do que os sorrisos foi a atitude frente a situação que me impressionou.
E como num passe de mágica tudo se transformou! Voltei a infância!
Nos atoleiros me imaginava surfando ou montando cavalo Xucro em festa de rodeio. O vento no rosto passou a ser carinho; a poeira passou a ser fator físico de proteção solar de altíssima eficácia; os solavancos foram seguidos de risadas; os respingos de lama transformaram-se em pintura de guerra. A natureza, nunca a vi tão verde, tão fresca e tão próxima. A chuva virava refresco e a gelada... Ah, a gelada passou a ser uma em cada parada.
E assim seguiu e uma viagem de seis horas transformou-se em oito.
Cheguei ao meu ponto de apoio em Cuiabá (a casa da minha prima) parecendo uma escultura barroca. O cabelo agora tinha luzes e estava armado com a ajuda de um poderoso laquê orgânico biodegradável, a poeira, em um penteado que mesclava Elvis Presley e Amado Batista.
Mais do que dores nas costas e no abdômen tirei desta viagem. Recordei da minha infância e reaprendi que a atitude frente a uma situação é muitas vezes a direção que a situação toma.
No final, esta foi uma das melhores viagens que já fiz e estou até pensando que nas próximas, mesmo com espaço, eu irei no bagageiro.
- Quer fazer esta viagem comigo???????? rsrsrsrrsrs

domingo, 7 de dezembro de 2008

Vida no Xaraiés


Vida no Xaraiés

Aqui me encontro no meio dos 250 mil kilômetros quadrados de extensão
da maior planície alagada do mundo. Meu destino é a aldeia de
Perigara. Nada do que me diziam, nada do que eu li me prepararam
para o que estou vendo agora.
Há alguma horas atrás, saí da rodovia transpantaneira, estrada de
terra bem conservada e suas mil e uma pontes, para o rio Cuiabá.
Desço junto com o rio, lentamente, na minha voadeira carregada e
motor 25 hp. Os antigos bororos do rio perigara, mais conhecido como
São Lourenço, são os meus guias neste labirinto imprevisível de águas
paradas e correntes, temporárias ou permanentes. Índios pantaneiros,
grandes conhecedores do pantanal, desde o tempo em que a região era
conhecida como "mar dos Xaraiés".
Sua língua é o Bororo mas também adotaram o "pantanês" como sua língua
. O "pantanês" é o que eu chamo o linguajar do povo do pantanal. É
um tipo de português com característica própria, muitas vezes difícil
de entender e muitas palavras unicamente usadas na região. Acho que
vou ter que me virar e aprender!
Sentar aqui neste barco e ouvir este barulho me faz lembrar meus
tempos de floresta amazônica. A natureza animal, que parecia se
esconder lá no alto rio negro, aqui parece se exibir. Uma quantidade
surpreendente de aves alça vôo enquanto navegamos sobre os atalhos
fluviais que usamos, chamados corixos. Inúmeras garças, colhereiros,
cabeças secas acompanham a voadeira em um vôo que parece escoltar-nos
nas curvas das águas. Dentre elas, se destaca o Tuiuiú, o símbolo do
pantanal. A ave de um metro e sessenta de altura e quase três metros
de envergadura não deixa dúvidas de que é o rei deste lugar.
Durante o trajeto, me comove como a natureza convive entre si aqui no
pantanal. Jacarés, capivaras, Tuiuiús e outras aves dividindo o mesmo
espaço, creio que mantendo uma distância segura entre si, mas com uma
proximidade que parecem que não fazem parte de uma cadeia alimentar.
Aliás, jacaré e o que não falta aqui chegando a reunir mais de 20
indivíduos em uma só pequena praia fluvial.
Aqui tudo parece tamanho "G". As capivaras são imensas e cheguei a
confundir algumas com antas. As aves são grandes, os jacarés estão
visivelmente de "bucho cheio" e os peixes são os maiores que eu já vi.
Acostumado a pescar peixes com 20 a trinta centímetros de comprimento
que pescava esporadicamente com meu pai lá no mar de minha cidade natal, Vitória,
aqui, estes peixes são as iscas. Peixes como Cacharas, Pintados, Jaús
e pacus povoam os rios daqui. O famoso pintado, por exemplo, pode
chegar a 2 metros de comprimento e pesar 80 kilos. Mas nada comparado
ao tubarão dos rios, a Piraíba. Peixe que com 60 kilos ainda é
considerado filhote e pode chegar a 2 metros de comprimento, 300 kilos
e pasmem 1,4 metros de circunferência. Seu tamanho mínimo de pesca
legalizada é de 1,2 m de comprimento. Pena que o mesmo só ocorre na
bacia amazônica e Bacia Tocantins-Araguaia e que sua carne é ruim, ao
contrário da maioria dos peixes encontrados aqui. Peixes grandes
aqui não faltam e começar a descrevê-los todos aqui não seria possível
em menos de algumas dezenas de páginas. Adiantando um pouco a
estória, eu só sei de uma coisa; eu nunca mais trago carne seca para
este lugar.!!! Pesquei quase todos os dias, e quando não pescava
ganhava os peixes e não eram peixes "ralé" não meu irmão! Eu ganhava
era dourado e cachara... Só o filé do local! Aqui, não é só a
quantidade de espécies e sim quantidade de peixes que impressiona. É
tanto peixe que parece um tanque de criação...
A geografia local também chama a atenção. Ao contrário das grandes
árvores amazônicas, uma vegetação mais baixa forma a flora ribeirinha
com trechos aonde podemos enxergar a verdadeira imensidão desta
planície. Não me surpreende isto tudo alagar facilmente. É tempo de
vazante e muitos trechos já estão secos e a altura do barranco dos
rios não passa nem de um metro e meio. As águas correm de forma bem lenta e na
época de inundações quase param.
Continuo o meu caminho através das curvas sinuosas do leito do
Cuiabá e entro no São Lourenço. Rio menos caudaloso, de águas
barrentas, mas como regra local, muito bom de peixe. A quantidade de
corixos parece aumentar e posso ver também inúmeras lagoas ao longo de
seu leito. A quantidade enorme de plantas aquáticas, em sua maioria
aguapés, chega a bloquear o leito para a navegação em alguns trechos
dos corixos.
Horas se passam e após algumas visitas estratégicas a alguns
ribeirinhos chegamos ao nosso destino final, Perigara.
A recepção foi muito calorosa e me parecem indivíduos bem simpáticos.
As suas crianças são visivelmente saudáveis. Também pudera! Em um
lugar como este, só passa fome quem quer. Depois do deslumbramento
da viagem, minha atenção se volta para a população já que esta é o
motivo da minha vinda. Acredito que não encontrarei obstáculos para
um bom relacionamento com as pessoas daqui. Com certeza, será mais uma
das grandes experiências da minha vida no interior deste grande país.
Durante minha estadia vivo a vida pantaneira no seu modo mais
natural, mas isto é uma outra estória para ser contada em um outro
momento.........
FUI.........................

Pontos de vista - Gafes antropológicas


Pontos de vista - Gafes antropológicas
CURTAS

Índio na cidade pergunta: - Aonde é o banheiro?
Anfitrião: - É só seguir o corredor na segunda porta a direita.
Após a volta do índio o anfitrião começa a sentir um mau cheiro se espalhando pelo apartamento.
Vai até o banheiro e olha o cestinho de lixo cheio de merda, e indaga ao índio:
- Porque que vc fez no cesto e não aqui no vaso?
Índio responde: - E eu, sujar essa água limpinha!!!!!

“Branca” na aldeia: - Aonde é o banheiro?
Índias: - Vc segue esta trilha, quando chegar em um pé de jatobá vc baixa.
A branca seguiu a trilha e quando viu o pé de jatobá ela abaixou.
Pena que era para “baixar” em um barranco até perto do rio e não abaixar as calças ali. Resultado ficou na trilha aonde toda a aldeia transitava.

Comentário indígena: Branco é nojento mesmo não é?! “Caga” dentro de casa!!!!
Para quem não entendeu, para os índios casa é aonde vc dorme e o banheiro costuma ser separado da casa ou no mato.

Índio vai visitar parente no hospital e leva uma bolsinha misteriosa.
Ao chegar lá provoca um alvoroço e ligam do hospital para a casa do anfitrião que hospedava o índio.
Hospital: - Fulana, por favor, tira este índio daqui!
Fulana: - Mas porque?
Hospital: - Ele trouxe uma criança queimada dentro de uma bolsa.
Fulana: - Podem ficar tranqüilos que isto não é criança não é um macaco!!!!!!

Pajé vai visitar paciente no hospital para secção de pajelança.
Mais tarde ligam novamente para o lugar de hospedagem do índio pajé.
Hospital: Ciclana, por favor, tira este índio daqui!
Ciclana: porque?
Hospital: Ele tirou a roupa e está aqui enfumaçando o quarto do hospital todo.
Ciclana: Se eu fosse vcs deixava o índio aí, e quando ele terminar ele mesmo bota a roupa e sai, ele está em uma sessão de pajelança!

Existem etnias que ao ver o catarro no nariz da criança, a mãe chupa com a boca para limpar.
Ao ver este ato considerado por ela horrendo a enfermeira chega e exclama: - Ai que nojo!
A índia na lata responde: - Nojento são vcs que assoam o nariz e ainda guardam no bolso!


Indígena Enawenê Nawê na cidade para e olha para uma academia de ginástica aonde diversas pessoas estão na esteira e pergunta: - O que eles estão fazendo?
Branco responde: - Correndo.
Índio: - Mas correndo de que?
Branco: - Correndo para perder peso.
Índio: Perder peso porque?
Branco: Porque eles comem muito e ficam gordos.
Índio: - Enawenê não precisa disto. Enawenê já corre atrás da comida e não precisa mais correr depois!!!!

Branca em uma aldeia vê uma índia de cabeça raspada e exclama: - Está na moda né, ronaldinho!! Dirigindo-se a índia.
Outra amiga mais sábia sussurra em voz baixa: Cala a boca que ela está de luto!!!